Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Governo
A piada que assusta

Com gracejos sobre jornalistas e ditadores,
Lula trata a liberdade e a democracia com
desdém incompatível com a liturgia do cargo


André Petry


Reuters
"Vocês são um bando de covardes mesmo, hein?"
O presidente Lula, na segunda-feira, em Santo Domingo, capital da República Dominicana, ao criticar os jornalistas por não defenderem a criação do Conselho Federal de Jornalismo


EXCLUSIVO ON-LINE
Leia notícias diárias sobre o governo Lula

Com seu jeito folgazão e seu hábito de pilheriar com todos à volta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez bastante graça na semana passada. Na segunda-feira, ao aparecer no saguão do hotel onde estava hospedado em Santo Domingo, capital da República Dominicana, Lula dirigiu-se aos jornalistas que o aguardavam e lascou: "Vocês são um bando de covardes mesmo, hein?". Em seguida, explicou que a covardia resultava do fato de que não haviam defendido a criação do Conselho Federal de Jornalismo, autarquia que o governo quer inventar para fiscalizar os jornalistas e o jornalismo. No dia seguinte, em nova investida no campo do humor, o presidente disse, durante uma conversa com seu colega da Costa Rica, que fizera uma visita ao Gabão com o objetivo de "aprender como um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição". O presidente do Gabão, Omar Bongo, com quem Lula desfilou em carro aberto pelas ruas de Libreville, assumiu o governo com a morte do titular, em 1967, e nunca mais saiu. Está entre os ditadores mais longevos do planeta.

Quando um presidente faz piada, acólitos costumam esborrachar-se em gargalhadas, menos pela graça, é claro, e mais pelo servilismo. Mas não é nada engraçado que Lula tenha expressado, mesmo que em tom de brincadeira, sua admiração pela longevidade de um ditador africano. Também não é engraçado que tenha chamado jornalistas de "bando de covardes". Primeiro porque sem os "covardes" ele jamais teria sido eleito. Segundo porque o presidente sabia que seus interlocutores não poderiam responder na mesma altura sem turvar o ambiente. Terceiro porque a questão em tela está longe de ser um problema de bravura ou intrepidez. Quarto, e mais importante, porque um presidente da República, em especial num país como o Brasil, não é só símbolo do Estado – é símbolo de um gigante. O Estado brasileiro é excessivamente forte e praticamente tem o comando da economia. Somando as estatais e os níveis federal, estadual e municipal de administração pública, o Estado brasileiro é o maior empregador do país e ainda amarra a atividade econômica privada com um ímpeto de país socialista.


Walter Firmo
Cena da campanha pelo petróleo há meio século: os petistas mostram ignorância em sociologia e geologia

"É assustador que o comandante de um Estado com tais dimensões tente ampliar ainda mais seus tentáculos sobre a vida nacional. O autoritarismo é ainda mais preocupante quando se sabe que no Brasil há uma dissociação histórica entre atividade econômica forte e liberdades civil e política", afirma o filósofo Denis Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É preocupante constatar que o Estado brasileiro, além de tudo, da riqueza, do emprego, do imposto, da força, ainda queira esparramar seu domínio sobre a imprensa, por meio da tal autarquia da imprensa, e sobre a cultura, através da proposta de criar uma agência nacional de cinema e audiovisual. Na semana passada, estrelas petistas pensaram em lançar uma campanha para defender a cultura nacional nas telas de cinema e televisão e bolaram o slogan "A tela é nossa", paródia da campanha "O petróleo é nosso", de meio século atrás. Ou seja: as estrelas petistas acham que petróleo e cultura merecem tratamento semelhante por parte do governo. Acham que uma dádiva da natureza, matéria que se cria à revelia da mão do homem, é mais ou menos igual à produção cultural de um povo, sua criatividade, seu intelecto. Os petistas mostraram ignorar, a um só tempo, os rudimentos da sociologia e da geologia.

A sátira do presidente sobre ditadura de um país africano também é uma brincadeira inadequada. "Tratar as declarações do presidente como brincadeira é uma maneira de não encarar o problema a sério. Não podemos esquecer que a democracia brasileira, a despeito de seus vinte anos, ainda é uma planta frágil", diz o filósofo Roberto Romano, da Unicamp. Afinal, nestas duas décadas, com uma taxa medíocre de crescimento econômico, o país não conseguiu superar a chaga da desigualdade social ou dar vida digna a todos os brasileiros, nem à maioria. Com um saldo precário, a realidade brasileira pode acabar contribuindo para semear a descrença quanto à democracia e, por extensão, a crença em algum novo tipo de populismo autoritário. Em nome do futuro, é bom zelar, e o presidente deve ser o primeiro a fazê-lo, para que nada parecido aconteça.

 
 
 
 
topovoltar