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Governo
A piada que assusta
Com gracejos sobre jornalistas e ditadores,
Lula trata a liberdade e a democracia com
desdém incompatível com a liturgia do cargo

André Petry
Reuters
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"Vocês são
um bando de covardes mesmo, hein?"
O presidente Lula, na segunda-feira,
em Santo Domingo, capital da República Dominicana, ao
criticar os jornalistas por não defenderem a criação
do Conselho Federal de Jornalismo |
Com seu jeito folgazão e seu hábito
de pilheriar com todos à volta, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva fez bastante graça na semana passada. Na segunda-feira,
ao aparecer no saguão do hotel onde estava hospedado em Santo
Domingo, capital da República Dominicana, Lula dirigiu-se
aos jornalistas que o aguardavam e lascou: "Vocês são
um bando de covardes mesmo, hein?". Em seguida, explicou que a covardia
resultava do fato de que não haviam defendido a criação
do Conselho Federal de Jornalismo, autarquia que o governo quer
inventar para fiscalizar os jornalistas e o jornalismo. No dia seguinte,
em nova investida no campo do humor, o presidente disse, durante
uma conversa com seu colega da Costa Rica, que fizera uma visita
ao Gabão com o objetivo de "aprender como um presidente consegue
ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição".
O presidente do Gabão, Omar Bongo, com quem Lula desfilou
em carro aberto pelas ruas de Libreville, assumiu o governo com
a morte do titular, em 1967, e nunca mais saiu. Está entre
os ditadores mais longevos do planeta.
Quando um presidente faz piada, acólitos
costumam esborrachar-se em gargalhadas, menos pela graça,
é claro, e mais pelo servilismo. Mas não é
nada engraçado que Lula tenha expressado, mesmo que em tom
de brincadeira, sua admiração pela longevidade de
um ditador africano. Também não é engraçado
que tenha chamado jornalistas de "bando de covardes". Primeiro porque
sem os "covardes" ele jamais teria sido eleito. Segundo porque o
presidente sabia que seus interlocutores não poderiam responder
na mesma altura sem turvar o ambiente. Terceiro porque a questão
em tela está longe de ser um problema de bravura ou intrepidez.
Quarto, e mais importante, porque um presidente da República,
em especial num país como o Brasil, não é só
símbolo do Estado é símbolo de um gigante.
O Estado brasileiro é excessivamente forte e praticamente
tem o comando da economia. Somando as estatais e os níveis
federal, estadual e municipal de administração pública,
o Estado brasileiro é o maior empregador do país e
ainda amarra a atividade econômica privada com um ímpeto
de país socialista.
Walter Firmo
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| Cena da campanha pelo petróleo há
meio século: os petistas mostram ignorância em
sociologia e geologia |
"É assustador que o comandante de um
Estado com tais dimensões tente ampliar ainda mais seus tentáculos
sobre a vida nacional. O autoritarismo é ainda mais preocupante
quando se sabe que no Brasil há uma dissociação
histórica entre atividade econômica forte e liberdades
civil e política", afirma o filósofo Denis Rosenfield,
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É preocupante
constatar que o Estado brasileiro, além de tudo, da riqueza,
do emprego, do imposto, da força, ainda queira esparramar
seu domínio sobre a imprensa, por meio da tal autarquia da
imprensa, e sobre a cultura, através da proposta de criar
uma agência nacional de cinema e audiovisual. Na semana passada,
estrelas petistas pensaram em lançar uma campanha para defender
a cultura nacional nas telas de cinema e televisão e bolaram
o slogan "A tela é nossa", paródia da campanha "O
petróleo é nosso", de meio século atrás.
Ou seja: as estrelas petistas acham que petróleo e cultura
merecem tratamento semelhante por parte do governo. Acham que uma
dádiva da natureza, matéria que se cria à revelia
da mão do homem, é mais ou menos igual à produção
cultural de um povo, sua criatividade, seu intelecto. Os petistas
mostraram ignorar, a um só tempo, os rudimentos da sociologia
e da geologia.
A sátira do presidente sobre ditadura
de um país africano também é uma brincadeira
inadequada. "Tratar as declarações do presidente como
brincadeira é uma maneira de não encarar o problema
a sério. Não podemos esquecer que a democracia brasileira,
a despeito de seus vinte anos, ainda é uma planta frágil",
diz o filósofo Roberto Romano, da Unicamp. Afinal, nestas
duas décadas, com uma taxa medíocre de crescimento
econômico, o país não conseguiu superar a chaga
da desigualdade social ou dar vida digna a todos os brasileiros,
nem à maioria. Com um saldo precário, a realidade
brasileira pode acabar contribuindo para semear a descrença
quanto à democracia e, por extensão, a crença
em algum novo tipo de populismo autoritário. Em nome do futuro,
é bom zelar, e o presidente deve ser o primeiro a fazê-lo,
para que nada parecido aconteça.
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