Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

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Em foco: Sérgio Abranches
Qual é a prioridade?

"Passamos as últimas três semanas
vendo
o governo querer convencer a
sociedade
de que é preciso vigiar e
punir imprensa, mídia, programação
de
TV, cinema. É essa a
prioridade nacional?"

Outro dia, durante uma reunião na sede de uma empresa perto da favela da Mangueira, no Rio de Janeiro, às 11h30 da manhã, a discussão sobre cenários de longo prazo para o Brasil era entrecortada por rajadas de metralhadora. O que pensar sobre o Brasil de 2020 nesse contexto? A propensão era apostar no pior cenário, de fracasso coletivo.

Mas esse é apenas um instantâneo da dissolução da autoridade pública, da desordem e do desregramento. Quem mora nos bairros limítrofes à Rocinha, no Rio de Janeiro, se acostumou a ouvir, a qualquer hora do dia, tiroteio com armas automáticas de uso militar. Virou rotina. É como manter a TV ligada em um canal de Bagdá. A trilha sonora é de guerra. Virou tema de conversa, freqüentemente descontraída, dos moradores dos bairros de classe média da Gávea e de São Conrado.

Ilustração Ale Setti


Passamos a encarar com a frieza com que olhamos as estatísticas cenas e sons de uma tragédia coletiva, presente em nosso cotidiano, como uma novela sem fim. As fotos dos jovens dizimados pela guerra de quadrilhas, pela violência tanto do aparato policial como dos bandoleiros, geram tão pouca indignação quanto a informação de que a taxa de mortes por 100.000 pessoas, entre jovens de 15 a 24 anos, causadas por homicídio é praticamente o dobro da taxa para o total da população. No Rio de Janeiro, é oito vezes maior. Já quase nem ligamos para o fato de que 68% dos óbitos dos jovens de sexo masculino, nessa faixa etária, se devem a homicídios, acidentes de trânsito e suicídios. Estamos perdendo nossa juventude, por omissão, acomodação e pela irresponsabilidade generalizada dos que comandam o setor público no Brasil, seus Estados e seus municípios.

Numa viagem entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, em um trecho de mais de 100 quilômetros, não consegui trafegar a mais de 10 quilômetros por hora. Era forçado a deixar a pista para me livrar de carretas e ônibus que trafegavam na contramão para desviar de buracos que cobriam toda a extensão da estrada. Uma viagem de carro pelo Brasil flagra, em cada trecho de estrada, sinais inequívocos da crise do Estado e de autoridade que vivemos. Parente daquela desordem urbana. A absoluta ausência do setor público bombardeou as estradas federais, estaduais e municipais. Trafegáveis, em condição plena, só as privadas. Aumentei a média de velocidade preferindo estradas vicinais, sem asfaltamento.

A proliferação de quebra-molas mostra a ausência da autoridade pública, a omissão, o mau comportamento da patrulha rodoviária, a transgressão generalizada.

Como fenômeno coletivo, a desobediência sistemática revela o não reconhecimento da legitimidade das regras. Mas por que um cidadão deveria considerar respeitável uma autoridade que afixa uma placa de limite de velocidade de, digamos, 80 quilômetros em uma estrada cujo estado não permite velocidade superior a 20? Logo à frente, se puder, ele desobedecerá a todos os limites.

As estradas deseducam, sabotam a competitividade e a capacidade exportadora do país e matam. As mortes representam, na imagem eloqüente do professor Paulo Fernando Fleury, o equivalente, em nosso país, à queda de dois Boeing lotados a cada três dias.

Passamos as últimas três semanas vendo o governo querer convencer a sociedade de que é preciso vigiar e punir imprensa, mídia, programação de TV, cinema. O presidente da República, atropelando a compostura, chamou de covardes os jornalistas que se opõem. Muitos se arriscam todo dia para mostrar ao Brasil sua própria cara.

É essa a prioridade nacional? É vedando o debate e impedindo os brasileiros de ver produções estrangeiras que combateremos essa crise óbvia de legitimidade? O que é pior? Os tiroteios da Rocinha, no Rio, ou Tiros em Columbine, na TV?

Na entrega do Prêmio Ayrton Senna, oferecido a jornalistas que revelam e discutem sobretudo as carências de crianças e adolescentes e as soluções para elas, houve um consenso. Sem a liberdade irrestrita da imprensa são impossíveis a cidadania plena e uma sociedade consciente de seus problemas e suas responsabilidades coletivas.

Sou da geração que aderiu ao tropicalismo porque era criativo e libertário, num momento de chumbo de nossa história. É com imenso pesar que vejo Gilberto Gil, ex-tropicalista, aderir ao projeto de vigilância e punição, quando deveria estar usando sua criatividade e energia para mobilizar a inteligência nacional na discussão desses desvios profundos, que deformam a cultura cívica nacional. Raras vezes vi tamanha incompreensão de quais são as urgências e a prioridade da nação.


Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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