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Em
foco: Sérgio Abranches
Qual é a prioridade?
"Passamos
as últimas três semanas
vendo o
governo querer convencer a
sociedade de que é
preciso vigiar e
punir imprensa, mídia, programação de
TV, cinema. É essa a prioridade
nacional?"
Outro dia,
durante uma reunião na sede de uma empresa perto da favela
da Mangueira, no Rio de Janeiro, às 11h30 da manhã,
a discussão sobre cenários de longo prazo para o Brasil
era entrecortada por rajadas de metralhadora. O que pensar sobre
o Brasil de 2020 nesse contexto? A propensão era apostar
no pior cenário, de fracasso coletivo.
Mas esse
é apenas um instantâneo da dissolução
da autoridade pública, da desordem e do desregramento. Quem
mora nos bairros limítrofes à Rocinha, no Rio de Janeiro,
se acostumou a ouvir, a qualquer hora do dia, tiroteio com armas
automáticas de uso militar. Virou rotina. É como manter
a TV ligada em um canal de Bagdá. A trilha sonora é
de guerra. Virou tema de conversa, freqüentemente descontraída,
dos moradores dos bairros de classe média da Gávea
e de São Conrado.
Ilustração Ale Setti
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Passamos a encarar com a frieza com que olhamos as estatísticas
cenas e sons de uma tragédia coletiva, presente em nosso
cotidiano, como uma novela sem fim. As fotos dos jovens dizimados
pela guerra de quadrilhas, pela violência tanto do aparato
policial como dos bandoleiros, geram tão pouca indignação
quanto a informação de que a taxa de mortes por 100.000
pessoas, entre jovens de 15 a 24 anos, causadas por homicídio
é praticamente o dobro da taxa para o total da população.
No Rio de Janeiro, é oito vezes maior. Já quase nem
ligamos para o fato de que 68% dos óbitos dos jovens de sexo
masculino, nessa faixa etária, se devem a homicídios,
acidentes de trânsito e suicídios. Estamos perdendo
nossa juventude, por omissão, acomodação e
pela irresponsabilidade generalizada dos que comandam o setor público
no Brasil, seus Estados e seus municípios.
Numa viagem
entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, em um trecho de
mais de 100 quilômetros, não consegui trafegar a mais
de 10 quilômetros por hora. Era forçado a deixar a
pista para me livrar de carretas e ônibus que trafegavam na
contramão para desviar de buracos que cobriam toda a extensão
da estrada. Uma viagem de carro pelo Brasil flagra, em cada trecho
de estrada, sinais inequívocos da crise do Estado e de autoridade
que vivemos. Parente daquela desordem urbana. A absoluta ausência
do setor público bombardeou as estradas federais, estaduais
e municipais. Trafegáveis, em condição plena,
só as privadas. Aumentei a média de velocidade preferindo
estradas vicinais, sem asfaltamento.
A proliferação
de quebra-molas mostra a ausência da autoridade pública,
a omissão, o mau comportamento da patrulha rodoviária,
a transgressão generalizada.
Como fenômeno
coletivo, a desobediência sistemática revela o não
reconhecimento da legitimidade das regras. Mas por que um cidadão
deveria considerar respeitável uma autoridade que afixa uma
placa de limite de velocidade de, digamos, 80 quilômetros
em uma estrada cujo estado não permite velocidade superior
a 20? Logo à frente, se puder, ele desobedecerá a
todos os limites.
As estradas
deseducam, sabotam a competitividade e a capacidade exportadora
do país e matam. As mortes representam, na imagem eloqüente
do professor Paulo Fernando Fleury, o equivalente, em nosso país,
à queda de dois Boeing lotados a cada três dias.
Passamos
as últimas três semanas vendo o governo querer convencer
a sociedade de que é preciso vigiar e punir imprensa, mídia,
programação de TV, cinema. O presidente da República,
atropelando a compostura, chamou de covardes os jornalistas que
se opõem. Muitos se arriscam todo dia para mostrar ao Brasil
sua própria cara.
É
essa a prioridade nacional? É vedando o debate e impedindo
os brasileiros de ver produções estrangeiras que combateremos
essa crise óbvia de legitimidade? O que é pior? Os
tiroteios da Rocinha, no Rio, ou Tiros em Columbine, na TV?
Na entrega
do Prêmio Ayrton Senna, oferecido a jornalistas que revelam
e discutem sobretudo as carências de crianças e adolescentes
e as soluções para elas, houve um consenso. Sem a
liberdade irrestrita da imprensa são impossíveis a
cidadania plena e uma sociedade consciente de seus problemas e suas
responsabilidades coletivas.
Sou da
geração que aderiu ao tropicalismo porque era criativo
e libertário, num momento de chumbo de nossa história.
É com imenso pesar que vejo Gilberto Gil, ex-tropicalista,
aderir ao projeto de vigilância e punição, quando
deveria estar usando sua criatividade e energia para mobilizar a
inteligência nacional na discussão desses desvios profundos,
que deformam a cultura cívica nacional. Raras vezes vi tamanha
incompreensão de quais são as urgências e a
prioridade da nação.
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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