Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

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André Petry
Quem matou Edison?

"Um jovem apareceu morto numa festa dentro
da universidade mais respeitada do país – e
ninguém sabe nada e ninguém é punido e não
há mais processo. Isso é justiça?"

A criminalidade e a lentidão da Justiça brasileira são duas chagas nacionais que, volta e meia, entram no debate. Agora mesmo, em relação aos dois assuntos, o governo propôs uma discussão sobre a lei dos crimes hediondos e produziu um detalhe diagnóstico do Poder Judiciário, prontamente rechaçado pelos magistrados que se indignaram com a informação de que estariam entre os juízes mais bem pagos do mundo. Lamentavelmente, prestou-se pouca atenção em uma notícia que tanto ajuda a impulsionar a criminalidade e desmoralizar a Justiça brasileira – o arquivamento do caso do jovem Edison Tsung Chi Hsueh. Para quem não se lembra, Edison Hsueh é o calouro de medicina da Universidade de São Paulo que, depois de um trote aplicado pelos veteranos, apareceu morto no fundo da piscina do clube atlético da universidade. A tragédia ocorreu em 23 de fevereiro de 1999 e nunca foi plenamente esclarecida: ele afogou-se acidentalmente ao cair na piscina sem saber nadar? Sob intenso stress, ele resolveu jogar-se na piscina numa tentativa bem-sucedida de suicídio? Ou seus colegas jogaram-no na piscina várias vezes e acabaram levando Edison Hsueh à morte?

Na semana passada, noticiou-se que a Justiça arquivou o processo em que dois estudantes, ambos já formados em medicina, eram acusados de ter matado o calouro naquele 23 de fevereiro de 1999. Por tabela, a decisão judicial também inocenta outros dois estudantes que, na época, participaram da festa e do trote. Com o arquivamento do processo, criou-se o seguinte cenário: um jovem apareceu morto numa festa dentro da universidade mais respeitada do país – e ninguém sabe mais nada e ninguém é punido e não há mais processo. Isso é justiça? Antes, cabe um esclarecimento: não se está aqui insinuando que os ex-estudantes de medicina da USP sejam culpados da morte e que, portanto, tinham de ser punidos. Não. Nada disso. Eles podem ser inteiramente inocentes. O problema é que a Justiça, ao arquivar o caso, não prolatou uma sentença dizendo que eram inocentes. O caso foi arquivado porque, no entender dos juízes, a promotoria não conseguiu provar que houve um crime – e, não havendo crime, não há criminosos. Tudo perfeitamente legal, mas cabe uma indagação central: fez-se justiça?

Não existe nada melhor para estimular a criminalidade, para aumentar o desprezo à polícia e a descrença na Justiça do que casos como o de Edison Hsueh. O governo está certo ao fazer um diagnóstico do Poder Judiciário. Está certo ao debater a lei dos crimes hediondos, que, aliás, só serve para fazer demagogia. Mas enquanto uma morte como a de Edison Hsueh – uma morte que chamou a atenção do país, que foi fartamente noticiada pela imprensa, que ocorreu entre estudantes de classe média e futuros médicos, que levou a reitoria da USP a proibir os trotes para sempre –, enquanto uma morte desta não ganha uma resposta, uma explicação, um esclarecimento, não se pode esperar muita coisa. Arquivar um caso está dentro das regras. Isso acontece em qualquer lugar do mundo. O problema é que no Brasil isso acontece demais. O Estado brasileiro está informando aos familiares de Edison Hsueh que não sabe o que se passou naquele 23 de fevereiro de 1999 e, portanto, convida todos nós a esquecer o assunto. Que tal? Vamos esquecer? Deixar para lá? Afinal, nem conhecemos Edison Hsueh...

 
 
 
 
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