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André
Petry
Quem matou Edison?
"Um
jovem apareceu morto numa festa dentro
da universidade mais respeitada do país e
ninguém sabe nada e ninguém é punido e não
há mais processo. Isso é justiça?"
A criminalidade e a lentidão da Justiça
brasileira são duas chagas nacionais que, volta e meia, entram
no debate. Agora mesmo, em relação aos dois assuntos,
o governo propôs uma discussão sobre a lei dos crimes
hediondos e produziu um detalhe diagnóstico do Poder Judiciário,
prontamente rechaçado pelos magistrados que se indignaram
com a informação de que estariam entre os juízes
mais bem pagos do mundo. Lamentavelmente, prestou-se pouca atenção
em uma notícia que tanto ajuda a impulsionar a criminalidade
e desmoralizar a Justiça brasileira o arquivamento
do caso do jovem Edison Tsung Chi Hsueh. Para quem não se
lembra, Edison Hsueh é o calouro de medicina da Universidade
de São Paulo que, depois de um trote aplicado pelos veteranos,
apareceu morto no fundo da piscina do clube atlético da universidade.
A tragédia ocorreu em 23 de fevereiro de 1999 e nunca foi
plenamente esclarecida: ele afogou-se acidentalmente ao cair na
piscina sem saber nadar? Sob intenso stress, ele resolveu jogar-se
na piscina numa tentativa bem-sucedida de suicídio? Ou seus
colegas jogaram-no na piscina várias vezes e acabaram levando
Edison Hsueh à morte?
Na semana passada, noticiou-se que a Justiça
arquivou o processo em que dois estudantes, ambos já formados
em medicina, eram acusados de ter matado o calouro naquele 23 de
fevereiro de 1999. Por tabela, a decisão judicial também
inocenta outros dois estudantes que, na época, participaram
da festa e do trote. Com o arquivamento do processo, criou-se o
seguinte cenário: um jovem apareceu morto numa festa dentro
da universidade mais respeitada do país e ninguém
sabe mais nada e ninguém é punido e não há
mais processo. Isso é justiça? Antes, cabe um esclarecimento:
não se está aqui insinuando que os ex-estudantes de
medicina da USP sejam culpados da morte e que, portanto, tinham
de ser punidos. Não. Nada disso. Eles podem ser inteiramente
inocentes. O problema é que a Justiça, ao arquivar
o caso, não prolatou uma sentença dizendo que eram
inocentes. O caso foi arquivado porque, no entender dos juízes,
a promotoria não conseguiu provar que houve um crime
e, não havendo crime, não há criminosos. Tudo
perfeitamente legal, mas cabe uma indagação central:
fez-se justiça?
Não existe nada melhor para estimular
a criminalidade, para aumentar o desprezo à polícia
e a descrença na Justiça do que casos como o de Edison
Hsueh. O governo está certo ao fazer um diagnóstico
do Poder Judiciário. Está certo ao debater a lei dos
crimes hediondos, que, aliás, só serve para fazer
demagogia. Mas enquanto uma morte como a de Edison Hsueh
uma morte que chamou a atenção do país, que
foi fartamente noticiada pela imprensa, que ocorreu entre estudantes
de classe média e futuros médicos, que levou a reitoria
da USP a proibir os trotes para sempre , enquanto uma morte
desta não ganha uma resposta, uma explicação,
um esclarecimento, não se pode esperar muita coisa. Arquivar
um caso está dentro das regras. Isso acontece em qualquer
lugar do mundo. O problema é que no Brasil isso acontece
demais. O Estado brasileiro está informando aos familiares
de Edison Hsueh que não sabe o que se passou naquele 23 de
fevereiro de 1999 e, portanto, convida todos nós a esquecer
o assunto. Que tal? Vamos esquecer? Deixar para lá? Afinal,
nem conhecemos Edison Hsueh...
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