Ponto
de vista:Claudio
de Moura Castro Sociedade iterativa
"Aumentou a busca
de soluções pelo caminho
iterativo, de tentativa e erro, em substituição
ao foco, ao raciocínio, à concentração
e à
elaboração intelectual"
Ao subir o Corcovado
para fotografar o Rio de Janeiro, Marc Ferrez levava uma câmera
de 35 quilos e, como filme, pesadíssimas chapas de
vidro. Assim era a fotografia no fim do século XIX.
Para não cansar o lombo, era preciso acertar da primeira
vez. George Eastman inventou o filme de rolo. Mas, para trocar
o filme, a câmera tinha de voltar para a fábrica.
Com o filme de 35 milímetros, para obter um bom retrato,
um fotógrafo profissional tira 100 ou 200 fotos. Na
digital, o custo de apertar o obturador caiu a zero. Ferrez
tinha de pensar muito antes de bater uma foto. Hoje, fotografa-se
com furor, na esperança de que alguma foto preste.
No cinema se deu algo parecido. A filmagem era uma operação
cara. Mas o vídeo é regravável e no digital
é grande a tentação de gravar horas a
fio, para aproveitar minutos.
Ilustração
Atômica Studios
No teatro, são necessários muito ensaio e forte
rigor para a representação sair fluida todas
as noites. No cinema, filma-se a cena várias vezes,
até que ela fique boa. Por tentativa e erro, acerta-se.
Por isso, há cada vez mais cinema, em comparação
com o teatro. A música ao vivo perde espaço
para as gravações, nas quais a peça é
tocada no estúdio repetidas vezes. A melhor versão
será para sempre congelada no disco (se preciso, a
eletrônica conserta a desafinação). Substituímos
pela iteração (ou seja, pela ação
reiterada de tentativa e erro) uma busca rigorosa e reflexiva
da solução técnica ou estética.
Tentamos até acertar. Não pensamos muito, vamos
fazendo profusamente, na esperança de topar com alguma
coisa boa. É a "arte lotérica".
A prova de escolha
múltipla, um avanço precioso, contrabandeia
um elemento de tentativa e erro no processo de resposta. Se
a alternativa B não pode ser correta, é eliminada.
Abandonando as respostas claramente erradas, tenta-se a sorte
nas outras. Não bastasse isso, há computadores
que corrigem provas de redação quase tão
bem quanto humanos. O que é mais incrível: dão
notas sem entender o texto!
A socióloga
Sherry Turkle mostra como os jovens transformam um jogo de
computador em um processo de tentativa e erro que ignora completamente
o conteúdo educativo. O jovem não lê as
instruções, não sabe e não quer
saber do princípio que está sendo ensinado.
Ele é um perito em experimentar soluções
em alta velocidade, até que chegue à resposta
certa (pouco importa o que significa). Das lições
que eram para ser aprendidas com o jogo, ele passou longe.
No fundo, ele imita o computador na forma como este resolve
muitos problemas: por tentativa e erro, sem entender nada.
De fato, é assim que o computador lida com algumas
equações complicadas: tenta soluções
em alta velocidade, até acertar. O emprego do computador
na pesquisa mudou a maneira de explorar o mundo. Em vez de
quebrarem a cabeça teorizando, alguns cientistas enfiam
nele uma montanha de dados, buscando correlações
entre as variáveis. Partem do nada. Não têm
teorias nem hipóteses. As correlações
encontradas no processamento daqueles dados serão interpretadas
mais adiante. É a ciência iterativa.
A propaganda convencional
dirige seu apelo aos públicos mais apropriados. A internet
permite o spam sem destinatário certo, que vale a pena
por ser quase grátis. A medicina clássica valorizava
o "olho clínico" e a apalpação pelos
médicos, que são capazes de examinar o paciente
e dar o diagnóstico certeiro. Hoje, muitos médicos
começam encomendando ao paciente dezenas de exames,
para ver o que aparece. Até os casamentos são
iterativos. Casa-se para experimentar. Se não der certo,
tenta-se novamente. Sempre houve busca iterativa e nem tudo
hoje em nossa sociedade é feito por esse método
(e bendito seja o computador em que escrevo!). Mas os avanços
tecnológicos e o espírito dos tempos tiveram
como efeito aumentar a busca de soluções por
esse caminho, substituindo-se o foco, o raciocínio,
a concentração e a elaboração
intelectual.
Avanço ou
retrocesso? Difícil dizer. Cresceu imensamente o número
de problemas com que nos defrontamos. Por que não proceder
por tentativa e erro, usando o apoio da tecnologia? É
mais mecânico e tem exigências intelectuais muito
menores. Sobrará mais tempo para lidar com os problemas
rombudos? Sobreviverá a beleza do intelecto compondo
suas fascinantes partituras? Quem sou eu para responder.