O documentário
Motoboys desvenda o universo desses
personagens que viraram um sinônimo da megalópole
Isabela Boscov
Fotos Divulgação
Circulando no "corredor": um
exército necessário, mas não exatamente
muito querido
Um
ganhou chapas de platina na testa e no fêmur, outro
perdeu cinco motocicletas para assaltantes, outro ainda diz
que sabe dos riscos, mas morrerá feliz se o fizer sobre
duas rodas: em Motoboys Vida Loca (Brasil,
2003), o premiado documentário dirigido por Caito Ortiz,
que sai agora em DVD, esses personagens típicos do
dia-a-dia paulistano exibem suas cicatrizes físicas
e psicológicas como quem ostenta trunfos de guerra.
E dizer que se trata de uma guerra, no caso, não é
força de expressão. Mal contemplados pelas estatísticas
(consta que existam cerca de 350.000 deles na área
metropolitana de São Paulo) e apenas parcialmente compreendidos
por seus "adversários" no trânsito os
ônibus, caminhões e carros de passageiros ,
na última década os motoboys paulistanos se
converteram numa espécie de exército. Fazem
a cidade funcionar, porque driblam a lentidão e entregam
documentos com a urgência que a atividade da capital
exige. Mas também despertam todo tipo de animosidade,
pelos modos discutíveis com que circulam (sempre no
"corredor", como dizem, ou entre as faixas), pela mania de
alguns deles de arrancar os espelhos retrovisores de quem
não atente às suas buzinadas irritantes e pelo
seu esprit de corps, por assim dizer a facilidade
com que, em segundos, se mobilizam às dezenas para
tomar o partido de seus companheiros em disputas contra os
motoristas.
"Falcão Negro", um dos
personagens de Motoboys: "Para que retrovisor,
se eles não usam?"
O que o ótimo
documentário de Ortiz faz é dar uma face reconhecível
a esses personagens, tirando-os da esfera dos estereótipos.
"Falcão Negro", um rapaz de personalidade borbulhante,
brinca que os retrovisores não devem fazer tanta falta
assim aos que os perdem, já que eles mal e mal os utilizam
(no que tem alguma razão). Um adolescente que sonha
ser motoboy argumenta que, além de essa ser uma atividade
certeira num mercado escasso em empregos, ela propicia grandes
facilidades junto às garotas. "A pé, você
tem que trocar a maior idéia. De moto, você pode
até ser feio, mas as minas vêm", explica. No
retrato dessa rotina, contudo, não faltam seus aspectos
mais duros. Como a necessidade de trabalhar longas horas para
juntar algum sustento, ou o desamparo legal, que obriga a
cobrir, do próprio e magro bolso, os prejuízos
freqüentes com acidentes e roubos sem falar no
constante risco de vida. Motoboys, porém, não
tem intenção de apelar à piedade. Repleto
de personagens curiosos e de boas entrevistas, o filme de
Ortiz mira longe: fala dos motoboys para tomá-los como
metáfora da tensão com que se vive numa megalópole
e também para celebrá-los como símbolo
da efervescência urbana.