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25 de julho de 2007
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A cara de São Paulo

O documentário Motoboys desvenda o universo desses
personagens que viraram um sinônimo da megalópole


Isabela Boscov

 
Fotos Divulgação
Circulando no "corredor": um exército necessário, mas não exatamente muito querido

Um ganhou chapas de platina na testa e no fêmur, outro perdeu cinco motocicletas para assaltantes, outro ainda diz que sabe dos riscos, mas morrerá feliz se o fizer sobre duas rodas: em Motoboys – Vida Loca (Brasil, 2003), o premiado documentário dirigido por Caito Ortiz, que sai agora em DVD, esses personagens típicos do dia-a-dia paulistano exibem suas cicatrizes físicas e psicológicas como quem ostenta trunfos de guerra. E dizer que se trata de uma guerra, no caso, não é força de expressão. Mal contemplados pelas estatísticas (consta que existam cerca de 350.000 deles na área metropolitana de São Paulo) e apenas parcialmente compreendidos por seus "adversários" no trânsito – os ônibus, caminhões e carros de passageiros –, na última década os motoboys paulistanos se converteram numa espécie de exército. Fazem a cidade funcionar, porque driblam a lentidão e entregam documentos com a urgência que a atividade da capital exige. Mas também despertam todo tipo de animosidade, pelos modos discutíveis com que circulam (sempre no "corredor", como dizem, ou entre as faixas), pela mania de alguns deles de arrancar os espelhos retrovisores de quem não atente às suas buzinadas irritantes e pelo seu esprit de corps, por assim dizer – a facilidade com que, em segundos, se mobilizam às dezenas para tomar o partido de seus companheiros em disputas contra os motoristas.


"Falcão Negro", um dos personagens de Motoboys: "Para que retrovisor, se eles não usam?"

O que o ótimo documentário de Ortiz faz é dar uma face reconhecível a esses personagens, tirando-os da esfera dos estereótipos. "Falcão Negro", um rapaz de personalidade borbulhante, brinca que os retrovisores não devem fazer tanta falta assim aos que os perdem, já que eles mal e mal os utilizam (no que tem alguma razão). Um adolescente que sonha ser motoboy argumenta que, além de essa ser uma atividade certeira num mercado escasso em empregos, ela propicia grandes facilidades junto às garotas. "A pé, você tem que trocar a maior idéia. De moto, você pode até ser feio, mas as minas vêm", explica. No retrato dessa rotina, contudo, não faltam seus aspectos mais duros. Como a necessidade de trabalhar longas horas para juntar algum sustento, ou o desamparo legal, que obriga a cobrir, do próprio e magro bolso, os prejuízos freqüentes com acidentes e roubos – sem falar no constante risco de vida. Motoboys, porém, não tem intenção de apelar à piedade. Repleto de personagens curiosos e de boas entrevistas, o filme de Ortiz mira longe: fala dos motoboys para tomá-los como metáfora da tensão com que se vive numa megalópole – e também para celebrá-los como símbolo da efervescência urbana.

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