Pacto de
Sangue mostra por
que Billy Wilder foi
o melhor no noir e na comédia, no melodrama...
Isabela Boscov
Fotos The New York Times,
Divulgação
MacMurray e Barbara: a ruína
era loira e usava uma tornozeleira
O corretor de seguros
Walter, interpretado por Fred MacMurray, bate à porta
de uma casa para vender uma apólice e é recebido
pelo seu destino: uma loira vulgar, mas também muito,
digamos, interessante, que calha de ter uma correntinha em
volta do tornozelo. Ela é que será a ruína
de Walter. Fascinado pela tornozeleira, ele entra com Phyllis
Barbara Stanwyck, uma das estrelas mais competentes
que o cinema já teve numa dessas conversas que
ninguém sabe mais escrever. "Temos um limite de velocidade
neste estado, e ele é de 45 milhas", diz Phyllis. "E
a quanto eu estava indo?", pergunta Walter. "Pelo menos a
90", retruca ela. Papo vai, papo vem, os dois terminarão
enrolados num acordo perigoso. Ela acha que já é
hora de trocar seu marido por dinheiro vivo; ele quer a tornozeleira
e todo o resto; o marido terá então de morrer,
mas não sem antes ter assinado um seguro de vida milionário.
A dupla tem de enganar não só a polícia,
mas também Keyes (Edward G. Robinson), chefe de Walter
e investigador de seguros com um faro demoníaco para
fraudes. Ocorre que, no início de Pacto de Sangue
(Double Indemnity, Estados Unidos, 1944), já
se vê que Walter está narrando essa história
em retrospecto, e não está muito bem de saúde.
Algo, portanto, deu errado. Mas esse algo não é
o filme de Billy Wilder, que até aqui estava inédito
em vídeo e DVD no Brasil e é considerado, com
toda a justiça, o maior noir de toda a extensa produção
desse gênero.
Wilder: basta ser humano para
ser sensível ao apelo da sordidez
Wilder (1906-2002)
era um sujeito espertíssimo. Cidadão do antigo
Império Austro-Húngaro e criado durante parte
da infância num hotel de sua família, dizia ter
aprendido ali muitas coisas sobre a natureza humana
"nenhuma delas favorável". Em 1933, radicado em Berlim,
não demorou a entender o que significava a ascensão
de Hitler. No dia seguinte ao incêndio do Reichstag,
o Parlamento, estava de mala e cuia a caminho de Paris. Em
1934, chegou a Los Angeles, onde, nas décadas seguintes,
daria contribuições inestimáveis ao cinema
americano. Wilder fez aquela que é tida como a melhor
comédia (Quanto Mais Quente Melhor), o maior
melodrama (Crepúsculo dos Deuses), um dos melhores
romances (Sabrina), o mais contundente filme sobre
alcoolismo (Farrapo Humano) e um misto inclassificável
(além de inigualável) de comédia, romance
e tragédia, Se Meu Apartamento Falasse. No suspense,
ameaçou a própria primazia Testemunha
de Acusação, com Marlene Dietrich, perde
por um nariz apenas para Pacto de Sangue.
Wilder, com certeza,
era versátil. Mas pode-se argumentar também
que, fosse qual fosse o gênero, aplicava a ele um mesmo
ponto de vista: o de que não é preciso ter uma
índole criminosa para ser sensível ao apelo
da sordidez ou da fraqueza. Em 1944, com o Código Hays
um conjunto ultra-reacionário de normas de "bons
costumes" em pleno vigor no cinema, o diretor pulou
miudinho para rodar Pacto de Sangue. Nenhum ator queria
fazer o papel que ficaria com o até aí inexpressivo
MacMurray. E, para persuadir Barbara Stanwyck, então
campeã absoluta de popularidade, a viver a venal Phyllis,
ele teve de desdenhar dela. "Afinal, você é uma
atriz ou um rato?", indagou, quando ela expressou seus temores.
Barbara terminou por adorar a experiência. Gostou até
de sua peruca, no estilo laje-com-marquise e de um loiro sintético.
"Uma peruca barata para uma mulher falsa", foi como Wilder
definiu essa sua escolha. Que, como todas as outras, atesta
que o gênio está verdadeiramente nos detalhes.