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25 de julho de 2007
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O gênio dos detalhes

Pacto de Sangue mostra por que Billy Wilder foi
o melhor no noir – e na comédia, no melodrama...


Isabela Boscov

 
Fotos The New York Times, Divulgação
MacMurray e Barbara: a ruína era loira e usava uma tornozeleira

O corretor de seguros Walter, interpretado por Fred MacMurray, bate à porta de uma casa para vender uma apólice e é recebido pelo seu destino: uma loira vulgar, mas também muito, digamos, interessante, que calha de ter uma correntinha em volta do tornozelo. Ela é que será a ruína de Walter. Fascinado pela tornozeleira, ele entra com Phyllis – Barbara Stanwyck, uma das estrelas mais competentes que o cinema já teve – numa dessas conversas que ninguém sabe mais escrever. "Temos um limite de velocidade neste estado, e ele é de 45 milhas", diz Phyllis. "E a quanto eu estava indo?", pergunta Walter. "Pelo menos a 90", retruca ela. Papo vai, papo vem, os dois terminarão enrolados num acordo perigoso. Ela acha que já é hora de trocar seu marido por dinheiro vivo; ele quer a tornozeleira e todo o resto; o marido terá então de morrer, mas não sem antes ter assinado um seguro de vida milionário. A dupla tem de enganar não só a polícia, mas também Keyes (Edward G. Robinson), chefe de Walter e investigador de seguros com um faro demoníaco para fraudes. Ocorre que, no início de Pacto de Sangue (Double Indemnity, Estados Unidos, 1944), já se vê que Walter está narrando essa história em retrospecto, e não está muito bem de saúde. Algo, portanto, deu errado. Mas esse algo não é o filme de Billy Wilder, que até aqui estava inédito em vídeo e DVD no Brasil e é considerado, com toda a justiça, o maior noir de toda a extensa produção desse gênero.


Wilder: basta ser humano para ser sensível ao apelo da sordidez

Wilder (1906-2002) era um sujeito espertíssimo. Cidadão do antigo Império Austro-Húngaro e criado durante parte da infância num hotel de sua família, dizia ter aprendido ali muitas coisas sobre a natureza humana – "nenhuma delas favorável". Em 1933, radicado em Berlim, não demorou a entender o que significava a ascensão de Hitler. No dia seguinte ao incêndio do Reichstag, o Parlamento, estava de mala e cuia a caminho de Paris. Em 1934, chegou a Los Angeles, onde, nas décadas seguintes, daria contribuições inestimáveis ao cinema americano. Wilder fez aquela que é tida como a melhor comédia (Quanto Mais Quente Melhor), o maior melodrama (Crepúsculo dos Deuses), um dos melhores romances (Sabrina), o mais contundente filme sobre alcoolismo (Farrapo Humano) e um misto inclassificável (além de inigualável) de comédia, romance e tragédia, Se Meu Apartamento Falasse. No suspense, ameaçou a própria primazia – Testemunha de Acusação, com Marlene Dietrich, perde por um nariz apenas para Pacto de Sangue.

Wilder, com certeza, era versátil. Mas pode-se argumentar também que, fosse qual fosse o gênero, aplicava a ele um mesmo ponto de vista: o de que não é preciso ter uma índole criminosa para ser sensível ao apelo da sordidez ou da fraqueza. Em 1944, com o Código Hays – um conjunto ultra-reacionário de normas de "bons costumes" – em pleno vigor no cinema, o diretor pulou miudinho para rodar Pacto de Sangue. Nenhum ator queria fazer o papel que ficaria com o até aí inexpressivo MacMurray. E, para persuadir Barbara Stanwyck, então campeã absoluta de popularidade, a viver a venal Phyllis, ele teve de desdenhar dela. "Afinal, você é uma atriz ou um rato?", indagou, quando ela expressou seus temores. Barbara terminou por adorar a experiência. Gostou até de sua peruca, no estilo laje-com-marquise e de um loiro sintético. "Uma peruca barata para uma mulher falsa", foi como Wilder definiu essa sua escolha. Que, como todas as outras, atesta que o gênio está verdadeiramente nos detalhes.

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