A
certa altura de sua carreira, Robert Hanssen, principal analista
de assuntos soviéticos do FBI, foi encarregado de chefiar
uma força-tarefa destinada a encontrar a origem, dentro
da agência, de um vazamento contínuo de segredos
americanos para o bloco comunista e, depois do fim deste,
para a Rússia. A missão não teve sucesso
pelo simples motivo de que o traidor que o FBI desejava
identificar não era outro que não o próprio
Hanssen. Durante 22 anos, ele passou informações
confidenciais para o inimigo, num fluxo que, no volume e no
calibre dos dados, constitui a maior brecha na segurança
interna dos Estados Unidos em toda a sua história.
Em fevereiro de 2001, finalmente, Hanssen foi desmascarado
e é da operação de espionagem
interna montada pelo FBI para provar sua culpa que trata o
excelente Quebra de Confiança (Breach,
Estados Unidos, 2007), que estréia nesta sexta-feira
no país.
O filme flagra
Hanssen no momento em que a engrenagem para capturá-lo
começa a funcionar. Primeiro, com sua promoção
para um posto de prestígio mas sem acesso a dados cruciais,
o que visava ao mesmo tempo a aplacar sua vaidade e colocá-lo
numa posição na qual, para continuar seu trabalho
secreto, ele teria de se expor mais. Depois, com a designação
de um ordenança acima de qualquer suspeita para trabalhar
junto com ele. Eric O'Neill, um rapaz de 20 e poucos anos
que se destacava entre os recrutas do FBI e aspirava a se
tornar agente, foi escolhido por ser inteligente, ambicioso
e discreto. Foi, também, informado apenas de parte
da verdade sobre Hanssen: seus hábitos sexuais incomuns,
os quais gostava de compartilhar on-line, e que poderiam trazer
constrangimentos ao birô. Pouco a pouco, O'Neill vai
se dando conta de que há muito mais do que isso em
jogo ali e pouco a pouco, também, vai entrando
no mundo irreal, paranóico e algo monstruoso dos profissionais
da desconfiança.
Hanssen foi condenado
à prisão perpétua em maio de 2002, mas
seu julgamento não ajudou a responder a uma pergunta
primordial: por que ele fez o que fez? O agente era dono de
uma inteligência brilhante. Era também um patriota
que desprezava os regimes socialistas, um católico
fervoroso, um pai e marido devotado. Nos 22 anos em que contra-espionou,
amealhou lucros proporcionalmente modestos 1,4 milhão
de dólares, em boa parte depositados em contas russas,
que nunca pôde acessar. Magnificamente interpretado
por Chris Cooper, ele exprime no filme uma resposta hipotética
a essa indagação. A chave de suas ações
estaria numa combinação complexa de narcisismo,
sentimento de inferioridade e atração quase
sensual pelo segredo. É dessa mistura perturbadora
que o jovem O'Neill (Ryan Phillippe) prova em si mesmo no
decorrer de sua convivência com Hanssen e que,
de acordo com seu próprio relato, fornecido ao cineasta
Billy Ray, o levou a romper toda a ligação com
a agência apesar do imenso sucesso de sua participação.
Quebra de Confiança
é apenas o segundo trabalho de Billy Ray na direção.
Mas, tomado em conjunto com o primeiro O Preço
de uma Verdade, sobre o caso também real de um
jornalista da prestigiosa The New Republic que durante
anos forjou reportagens de grande impacto , mostra que
ele tem talento excepcional para investigar personagens que
vivem em razão de dissimular e se inventar para consumo
público. Talvez por isso, justamente, Ray seja também
um ótimo diretor de atores. Obter desempenhos ricos
e inteligentes como o de Chris Cooper ou o de Laura Linney,
no papel da agente que arma a rede em que Hanssen será
capturado, não chega a ser surpresa, já que
esses são atores habitualmente impecáveis. Impressiona,
porém, a atuação que ele tira do quase
sempre insípido Phillippe o qual, como seu personagem,
deve ter descoberto facetas que nunca havia suspeitado em
si mesmo.