O fim da Guerra Fria, no início
dos anos 90, parecia ter encerrado a ameaça do apocalipse
nuclear. Mas então os doidos da Al Qaeda derrubaram
o World Trade Center, em 2001, e o desmantelamento da União
Soviética se transformou em fator adicional de pânico.
E se os terroristas colocarem as mãos no material nuclear
das antigas repúblicas soviéticas? O Bazar
Atômico (tradução de José
Viegas; Companhia das Letras; 192 páginas; 36 reais),
do jornalista americano William Langewiesche, editor internacional
da revista Vanity Fair, é, em grande medida,
uma leitura tranqüilizadora: as possibilidades de um
terrorista obter uma bomba atômica são remotas.
De outro lado, porém, ele alimenta a inquietação
ao demonstrar que há no mundo, hoje, uma tendência
talvez irrefreável para a expansão da tecnologia
atômica -- uma realidade patente nas recentes crises
diplomáticas em torno dos programas nucleares do Irã
e da Coréia do Norte. "A proliferação
nuclear é, a longo prazo, inevitável", disse
Langewiesche a VEJA.
As primeiras páginas
de O Bazar Atômico centram-se nos efeitos da
bomba que destruiu a cidade de Hiroshima, em 1945, e levou
a que o Japão se colocasse de joelhos diante dos Estados
Unidos. No imediato pós-guerra, os americanos acreditavam
que seriam os guardiões únicos dessas forças
destrutivas -- mas a União Soviética, pela via
da espionagem, também chegou lá. O Tratado de
Não-Proliferação de Armas Nucleares,
de 1968, tentou manter a bomba como privilégio de um
clubinho de cinco países -- Estados Unidos, União
Soviética, Inglaterra, China e França. Hoje,
porém, não há perspectiva mais assustadora
que a de que um grupo de fanáticos como a Al Qaeda
bote as mãos em um artefato atômico. É
muito improvável que isso tenha acontecido -- de outra
forma, os grupos terroristas, que não têm nada
a perder, já teriam explodido alguma grande metrópole
ocidental. As antigas repúblicas soviéticas
são costumeiramente apontadas como as potenciais fornecedoras
de material nuclear para o terrorismo, em razão de
seu desmantelamento institucional. Os Estados Unidos vêm
tomando precauções eficazes contra tal ameaça,
oferecendo ajuda na "desnuclearização" desses
países. A própria Rússia ainda é
uma potência nuclear, mas seu arsenal é mais
seguro do que se imagina. "O alarmismo é uma indústria.
Muita gente tem nele o ganha-pão, seja no cinema e
nos tablóides, seja na universidade", afirma Langewiesche.
A produção de combustível nuclear é
menos guarnecida, na Rússia, do que as ogivas já
prontas. Mas, mesmo que um terrorista obtivesse urânio
enriquecido -- o combustível mais viável para
uma bomba --, ainda precisaria de uma equipe técnica
polivalente, com especialistas em física e metalurgia,
entre outros, para montar um artefato operacional. O jihadista
atômico, portanto, é uma figura improvável.
A proliferação
atômica em países pobres e instáveis é,
essa sim, um risco imediato. O Irã dos aiatolás
está desenvolvendo seu programa de enriquecimento de
urânio, e só depois de muita pressão internacional
a Coréia do Norte desistiu neste ano de seu programa
nuclear. O verdadeiro centro irradiador dessa nova corrida
nuclear é o Paquistão, que fez seus primeiros
testes nucleares em 1998. O personagem central de O Bazar
Atômico é paquistanês: o engenheiro
Abdul Qadeer Khan, que contrabandeou a tecnologia de enriquecimento
de urânio em centrífugas da Holanda, onde trabalhou
nos anos 70, para o Paquistão -- de onde esse conhecimento
foi negociado com o Irã e a Coréia. A bomba
paquistanesa veio para "equilibrar" a antiga queda-de-braço
do país com a Índia, outro pobre com poderio
nuclear -- os dois países mantêm velhos conflitos
territoriais. Os pesadelos de destruição global
da Guerra Fria podem estar distantes. Mas a convivência
explosiva de Paquistão e Índia coloca em cena
o perigo dos apocalipses regionais. E, se quatro jatos de
passageiros foram capazes de sacudir todo o tênue equilíbrio
geopolítico mundial, é de imaginar que ruína
um atentado nuclear causaria na já tão abalada
psique do planeta.