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25 de julho de 2007
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Comportamento
Manual de etiqueta de Bebel

Em sua cruzada para se tornar uma mulher
de categoria, a personagem de Camila Pitanga
dissemina regras de traquejo social


Silvia Rogar


Fotos Francisco Silva/Ag. News e Divulgação
Fina, no estilo calçada de Copacabana ou aprendendo a dominar os talheres: ascensão social sempre faz sucesso


Em matéria de etiqueta, o mundo se divide em duas partes: a dos que cortam a alface da salada e a dos que comem a folha inteira, dobrada em trouxinha, como prega o manual oficial de boas maneiras. Desde que Camila Pitanga, na pele insinuante da Bebel de Paraíso Tropical, começou a receber aulas de comportamento social, essa obscura regra de etiqueta intriga, divide, diverte e está presente em festas e jantares país afora. É uma prova cabal de que 1) todo mundo vê novela, ou, pelo menos, novela que tem Bebel; e 2) etiqueta sempre desperta interesse, tanto de quem não tem traquejo quanto de quem tem, ou acha que tem. Tania Bulhões, dona de uma grande loja de artigos de luxo para casa em São Paulo, conta que há duas semanas uma empresária ficou em dúvida na hora de comprar um aparelho de jantar de porcelana francesa de 15.000 reais – não pelo preço, que achou razoável, mas pela complexidade do conjunto de 140 peças, parte delas desenhada para iguarias específicas, com uma concebida exclusivamente para servir abacaxi. "Ela brincou que não queria acabar bancando a Bebel", diz Tania, que fechou o negócio com o compromisso de mandar uma funcionária treinar as empregadas da casa da cliente no uso do aparelho.

Como só quem chegou hoje de Marte não sabe, Bebel é a senhorita versada nos códigos de comportamento das calçadas de Copacabana que muda de patamar social quando começa a ser sustentada por Olavo, o executivo ambicioso otimamente interpretado por Wagner Moura. Nessa nova condição, vive uma cena clássica: é humilhada em uma loja chique, igualzinho ao que acontece no filme Uma Linda Mulher, com Julia Roberts. Decidida a adquirir catiguria, convoca Virgínia, a ex-vedete (é novela, lembrem-se) vivida por Yoná Magalhães, para lhe dar aulas de traquejo social. As cenas, bem-humoradas, são comentadas em todo lugar. Andrea Fasano, que comanda o sofisticado bufê da família de hoteleiros, conta que Bebel é o assunto predileto de seus funcionários. Virgínia já explicou à pupila como lidar com a fileira de talheres nas laterais do prato (sempre de fora para dentro, claro) e como segurá-los (cotovelos junto ao corpo, punhos elevados), como comer salada preservando a integridade da alface (folhas, delicadas, não devem ser estraçalhadas), como suavizar os movimentos e não atacar a comida num jantar formal (forrando o estômago antes de sair de casa). Num casamento de dia, ao ar livre, orientou Bebel a, sempre que abordada por algum convidado, em vez de falar bobagem, repetir como um mantra: "Que boa idéia este casamento primaveril em pleno outono". Nem Camila agüentou: "Quando li o roteiro, gargalhei sozinha. Agora, volta e meia alguém repete a frase para mim. É esse humor que cria a empatia entre a Bebel e o público".

Desde Pigmalião, peça escrita pelo irlandês George Bernard Shaw em 1912, que ensinar elegância e bons modos a quem não os tem é sucesso garantido de público. Pelas oportunidades cômicas, o tema é freqüente em novelas brasileiras, veículo ideal para espalhar modismos e até influenciar costumes. Em Pigmalião 70, versão nacional do texto de Shaw que foi ao ar em 1970, o feirante Nando (Sérgio Cardoso) foi repaginado pela milionária Cristina (Tônia Carrero). A ex-modelo Mila Moreira estreou como atriz, em Marron-Glacé, ensinando a desengonçada Zina (Nair Cristina) a caminhar com um livro na cabeça para melhorar a postura; em dois tempos, todas as meninas imitavam em casa. Gilberto Braga, autor de Paraíso Tropical, é mestre no assunto. Em Dancin' Days, a ex-presidiária Júlia Matos (Sonia Braga) reforma o visual amparada nos conselhos da refinada Solange (Jacqueline Laurence). Odete Roitman, a inesquecível esnobe interpretada por Beatriz Segall em Vale Tudo, ensinou à torpe Maria de Fátima (Gloria Pires) – e, por tabela, ao Brasil – que servir copo d'água sobre pires é coisa "de empregada". A mesma Beatriz, como Lourdes Mesquita em Água Viva, criou uma lacuna nas relações interpessoais ao proibir, por deselegante, falar "Saúde!" quando alguém espirra.

Conhecer regras de comportamento provoca curiosidade tanto pelas distinções sociais que o tema evoca quanto pela chance de superá-las através do auto-aprimoramento. "As pessoas já perceberam que perdem oportunidades de trabalho e deixam de freqüentar certos lugares por não saber como se comportar", diz a consultora Gloria Kalil, que há três meses dá dicas sobre o assunto no quadro Etiqueta Urbana, no Fantástico. Bebel, certamente, assistiria, em seu empenho para ganhar catiguria e ascender socialmente, duas transformações que sempre angariam pleno apoio popular (também ajuda ser linda, sexy e adoravelmente mau-caráter). "Ela faz conquistas", diz Braga, o Pigmalião das 8, que para os próximos capítulos deve armar um golpe que levará Bebel, com ajuda de Olavo, a se casar com o tio dele, o milionário Antenor (Tony Ramos), e circular em rodas ainda mais altas. "E o público adora personagens que conseguem coisas novas."

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