Em sua cruzada para
se tornar uma mulher
de categoria, a personagem de Camila Pitanga
dissemina regras de traquejo social
Silvia Rogar
Fotos Francisco Silva/Ag.
News e Divulgação
Fina, no estilo calçada
de Copacabana ou aprendendo a dominar os talheres: ascensão
social sempre faz sucesso
Em matéria de etiqueta, o mundo se divide em duas partes:
a dos que cortam a alface da salada e a dos que comem a folha
inteira, dobrada em trouxinha, como prega o manual oficial
de boas maneiras. Desde que Camila Pitanga, na pele insinuante
da Bebel de Paraíso Tropical, começou
a receber aulas de comportamento social, essa obscura regra
de etiqueta intriga, divide, diverte e está presente
em festas e jantares país afora. É uma prova
cabal de que 1) todo mundo vê novela, ou, pelo menos,
novela que tem Bebel; e 2) etiqueta sempre desperta interesse,
tanto de quem não tem traquejo quanto de quem tem,
ou acha que tem. Tania Bulhões, dona de uma grande
loja de artigos de luxo para casa em São Paulo, conta
que há duas semanas uma empresária ficou em
dúvida na hora de comprar um aparelho de jantar de
porcelana francesa de 15.000 reais não pelo
preço, que achou razoável, mas pela complexidade
do conjunto de 140 peças, parte delas desenhada para
iguarias específicas, com uma concebida exclusivamente
para servir abacaxi. "Ela brincou que não queria acabar
bancando a Bebel", diz Tania, que fechou o negócio
com o compromisso de mandar uma funcionária treinar
as empregadas da casa da cliente no uso do aparelho.
Como só
quem chegou hoje de Marte não sabe, Bebel é
a senhorita versada nos códigos de comportamento das
calçadas de Copacabana que muda de patamar social quando
começa a ser sustentada por Olavo, o executivo ambicioso
otimamente interpretado por Wagner Moura. Nessa nova condição,
vive uma cena clássica: é humilhada em uma loja
chique, igualzinho ao que acontece no filme Uma Linda Mulher,
com Julia Roberts. Decidida a adquirir catiguria, convoca
Virgínia, a ex-vedete (é novela, lembrem-se)
vivida por Yoná Magalhães, para lhe dar aulas
de traquejo social. As cenas, bem-humoradas, são comentadas
em todo lugar. Andrea Fasano, que comanda o sofisticado bufê
da família de hoteleiros, conta que Bebel é
o assunto predileto de seus funcionários. Virgínia
já explicou à pupila como lidar com a fileira
de talheres nas laterais do prato (sempre de fora para dentro,
claro) e como segurá-los (cotovelos junto ao corpo,
punhos elevados), como comer salada preservando a integridade
da alface (folhas, delicadas, não devem ser estraçalhadas),
como suavizar os movimentos e não atacar a comida num
jantar formal (forrando o estômago antes de sair de
casa). Num casamento de dia, ao ar livre, orientou Bebel a,
sempre que abordada por algum convidado, em vez de falar bobagem,
repetir como um mantra: "Que boa idéia este casamento
primaveril em pleno outono". Nem Camila agüentou: "Quando
li o roteiro, gargalhei sozinha. Agora, volta e meia alguém
repete a frase para mim. É esse humor que cria a empatia
entre a Bebel e o público".
Desde Pigmalião,
peça escrita pelo irlandês George Bernard Shaw
em 1912, que ensinar elegância e bons modos a quem não
os tem é sucesso garantido de público. Pelas
oportunidades cômicas, o tema é freqüente
em novelas brasileiras, veículo ideal para espalhar
modismos e até influenciar costumes. Em Pigmalião
70, versão nacional do texto de Shaw que foi ao
ar em 1970, o feirante Nando (Sérgio Cardoso) foi repaginado
pela milionária Cristina (Tônia Carrero). A ex-modelo
Mila Moreira estreou como atriz, em Marron-Glacé,
ensinando a desengonçada Zina (Nair Cristina) a caminhar
com um livro na cabeça para melhorar a postura; em
dois tempos, todas as meninas imitavam em casa. Gilberto Braga,
autor de Paraíso Tropical, é mestre no
assunto. Em Dancin' Days, a ex-presidiária Júlia
Matos (Sonia Braga) reforma o visual amparada nos conselhos
da refinada Solange (Jacqueline Laurence). Odete Roitman,
a inesquecível esnobe interpretada por Beatriz Segall
em Vale Tudo, ensinou à torpe Maria de Fátima
(Gloria Pires) e, por tabela, ao Brasil que
servir copo d'água sobre pires é coisa "de empregada".
A mesma Beatriz, como Lourdes Mesquita em Água Viva,
criou uma lacuna nas relações interpessoais
ao proibir, por deselegante, falar "Saúde!" quando
alguém espirra.
Conhecer regras
de comportamento provoca curiosidade tanto pelas distinções
sociais que o tema evoca quanto pela chance de superá-las
através do auto-aprimoramento. "As pessoas já
perceberam que perdem oportunidades de trabalho e deixam de
freqüentar certos lugares por não saber como se
comportar", diz a consultora Gloria Kalil, que há três
meses dá dicas sobre o assunto no quadro Etiqueta Urbana,
no Fantástico. Bebel, certamente, assistiria,
em seu empenho para ganhar catiguria e ascender socialmente,
duas transformações que sempre angariam pleno
apoio popular (também ajuda ser linda, sexy e adoravelmente
mau-caráter). "Ela faz conquistas", diz Braga, o Pigmalião
das 8, que para os próximos capítulos deve armar
um golpe que levará Bebel, com ajuda de Olavo, a se
casar com o tio dele, o milionário Antenor (Tony Ramos),
e circular em rodas ainda mais altas. "E o público
adora personagens que conseguem coisas novas."