Nos últimos
100 anos, cientistas formularam diversas teorias para explicar
por que o ser humano, ao contrário dos outros grandes
primatas, se tornou bípede em determinada fase de sua
evolução. Uma das teorias mais aceitas diz que,
ao usarem apenas os pés para andar, os machos podiam
utilizar as mãos para carregar alimento mais facilmente
para as fêmeas e sua prole. Em seu livro O Último
Neandertal, o antropólogo Ian Tattersall, do Museu
de História Natural de Nova York, defende a tese de
que, ao trocar a selva pela savana, o homem se beneficiou
da posição ereta para se proteger do calor
os raios solares incidiam diretamente apenas sobre sua cabeça,
e não sobre todo o dorso, como ocorria com os quadrúpedes.
Uma pesquisa divulgada na semana passada lança novos
subsídios para explicar as origens do bipedalismo,
considerado um marco decisivo na separação do
ser humano dos outros ramos de primatas. No estudo, cientistas
de três universidades americanas, da Califórnia,
do Arizona e de Washington, mostram que um fator determinante
para que o homem tenha passado a andar apenas com os pés
foi que, dessa forma, ele despendia menos energia. Com a força
extra, tinha mais disposição física para
enfrentar ambientes naturais hostis e conseguir alimentos.
Para provarem sua
hipótese, os cientistas realizaram testes numa esteira
ergométrica com quatro pessoas e cinco chimpanzés
os animais que têm código genético
mais parecido com o dos seres humanos. Os chimpanzés
foram treinados para andar na esteira com as mãos e
os pés como é característico da
espécie e também apenas com os pés,
o que às vezes fazem desajeitadamente em seu habitat.
Os dois grupos participaram do teste com máscaras para
medir a quantidade de oxigênio consumida durante o exercício.
Resultado: os seres humanos despenderam apenas um quinto da
energia gasta pelos chimpanzés (veja o quadro abaixo).
Os chimpanzés gastaram energia equivalente ao andar
de forma bípede ou quadrúpede. Isso se explica
pelo fato de os seres humanos terem quadris mais largos e
membros inferiores mais longos, o que facilita a caminhada.
A pesquisa significa um avanço no estudo da evolução
dos hominídeos. Ajuda a esclarecer por que certas alterações
foram positivas para a adaptação da espécie
ao ambiente. "Agora sabemos que essas transformações,
evidenciadas pelos fósseis, possibilitaram ao homem
se movimentar gastando menos energia e tiveram um papel decisivo
na evolução do bipedalismo", celebrou o antropólogo
David Raichlen, da Universidade do Arizona, um dos responsáveis
pela pesquisa.