A perda de olfato
pode ser o primeiro
sinal do surgimento do distúrbio
Paula Neiva
Divulgação
Tio Junior, personagem de Os
Sopranos: Alzheimer na TV
Um estudo relativamente simples, publicado na edição
deste mês da revista científica Archives of
General Psychiatry, lança luz sobre uma zona de
sombra da doença de Alzheimer: o diagnóstico
precoce. Hoje, metade dos casos da doença que
causa perda de memória e mudanças bruscas de
comportamento é detectada em estágio
avançado. Coordenado por pesquisadores das universidades
da Pensilvânia e Rush, nos Estados Unidos, o trabalho
mostrou uma estreita associação entre a perda
da capacidade de sentir cheiros familiares, como os de canela,
banana ou limão, e o aparecimento da doença
alguns anos mais tarde. Para chegar à relação
entre a perda olfativa e o risco de desenvolver a doença,
os médicos acompanharam cerca de 600 pessoas com mais
de 54 anos, por cinco anos. No início do estudo, os
participantes passaram por testes neurológicos e cognitivos,
repetidos anualmente, além de um exame que avaliou
a percepção deles para doze odores. Para cada
um dos cheiros, eram dadas quatro opções de
resposta. A média de acertos foi de nove questões.
Aqueles que ficaram abaixo dessa marca mostraram-se até
50% mais suscetíveis ao aparecimento de Alzheimer ou
a perdas cognitivas em ritmo mais acelerado. O estudo fornece
ainda pistas importantes que podem predizer o ritmo de evolução
da doença. A esse trabalho vem se somar outro, divulgado
no início do mês por pesquisadores americanos
que identificaram uma variante do gene GAB2. Como a presença
dela pode aumentar o risco de desenvolver Alzheimer, eis aí
mais uma potencial forma de identificação precoce
da doença.
Diagnosticar e
tratar a doença de Alzheimer, o principal tipo de demência
entre pessoas com mais de 60 anos, é hoje um dos maiores
desafios da neurologia. Incurável, o distúrbio
incapacita o paciente para as funções básicas
do dia-a-dia. Em estágios mais avançados, ele
nem sequer reconhece seu próprio reflexo no espelho.
Cerca de 25 milhões de pessoas no mundo são
vítimas da doença 1 milhão delas
no Brasil. Com o aumento da expectativa de vida, prevê-se
que, em menos de três décadas, o número
total de pacientes chegará a 80 milhões. A doença
está de tal forma disseminada que já acomete
personagens de seriados televisivos, como o Tio Junior, de
Os Sopranos, e Ellis Grey, de Grey's Anatomy.
Na tentativa de
desacelerar o ritmo dessa progressão, os pesquisadores
se empenham para afinar os critérios atuais de diagnóstico
da doença (o protocolo seguido pelos médicos
é de 1984). Dele consta apenas uma avaliação
clínica feita em consultório, que inclui histórico
familiar e um teste de cognição. Um estudo elaborado
por uma junta de médicos europeus e americanos, divulgado
nesta semana na revista científica Lancet Neurology,
defende a inclusão de exames de imagem, como ressonância
magnética e tomografia computadorizada, capazes de
flagrar a atividade e a anatomia cerebrais. Os médicos
sugerem, ainda, a inclusão de marcadores biológicos
e genéticos para detectar os riscos de ocorrência
do mal o que já é feito em alguns hospitais
americanos.