A Igreja americanapaga
660 milhões
dedólares a vítimas de padres pedófilos
Diogo Schelp
Damian Dovarganes/AFP
O americano Lee Bashforth mostra
foto sua com o padre que o molestou
A
indenização é recorde, mas o número
de vítimas também. Na segunda-feira passada,
a Arquidiocese de Los Angeles aceitou pagar 660 milhões
de dólares como parte de um acordo para pôr fim
ao processo judicial movido por mais de 500 vítimas
de abusos sexuais praticados por padres. A quantia é
a maior já paga por uma única diocese desde
que os processos por abusos sexuais envolvendo o clero católico
se transformaram numa crise para a Igreja nos Estados Unidos,
nos anos 90. Até agora, a Igreja americana já
desembolsou 1,5 bilhão de dólares em indenizações.
Apesar da dinheirama envolvida, o acordo não significa
que uma pedra foi colocada sobre o assunto. Há mais
de 400 processos contra a Igreja por abuso sexual ainda em
andamento em outras cidades americanas, a maioria em Boston,
San Diego e Kansas City. Por outro lado, o acordo foi feito
a tempo de evitar que o cardeal Roger Mahony, arcebispo de
Los Angeles, fosse obrigado a explicar num tribunal, no dia
seguinte, por que deixou de denunciar às autoridades
os padres pedófilos, embora estivesse informado dos
pecados cometidos por detrás da sacristia.
Com a indenização,
as vítimas se comprometeram a desistir dos processos
que correm na Justiça contra a Arquidiocese de Los
Angeles. Num ato complementar de expiação, o
cardeal Mahony pediu desculpas às vítimas diante
das câmeras de televisão. "Gostaria que
a vida das vítimas fosse como uma fita de vídeo,
para poder voltar e apagar todos esses anos de misérias
e sofrimento", disse. Em acordos anteriores, a Arquidiocese
de Los Angeles já havia pago 114 milhões de
dólares. Para arcar com todas as indenizações,
Mahony diz que será preciso vender algumas propriedades,
resgatar investimentos e pedir dinheiro emprestado. Do total
a ser recebido pelas vítimas de Los Angeles, cerca
de um terço será pago por uma seguradora especializada
em abusos sexuais. Metade das dioceses americanas contribui
para um fundo de indenizações. Essa reserva
é necessária porque, como as vítimas
só têm coragem de denunciar os estupros depois
de adultas, a maioria dos crimes já prescreveu ou os
padres pedófilos morreram. Por isso, os processos são
movidos diretamente contra as dioceses, por negligência
e omissão.
Monica
Almeida/The New York Times
O cardeal Mahonypede desculpas:o
acordo evitou ida ao tribunal
Entre as centenas de denúncias que levaram ao acordo
da semana passada, a principal envolve o padre Clinton Hagenbach,
morto em 1987. Hagenbach vivia rodeado de garotos de 5 a 16
anos. Ele tinha o hábito de, a cada dia, levar um deles
à sacristia, onde lhe dava dinheiro e bebidas alcoólicas.
Em seguida, obrigava-o a fazer sexo. "Como a Igreja Católica
exige o celibato, a vida sexual dos padres acaba sendo rodeada
de segredo", disse a VEJA o americano David Clohessy,
diretor da Rede de Sobreviventes de Abuso de Padres, com sede
em Chicago. "Praticamente todos têm o que esconder,
do seminarista ao bispo, e isso explica por que um acoberta
o outro." Hagenbach foi transferido sete vezes de paróquia,
provavelmente para afastá-lo de determinados garotos.
Na prática, esse tipo de solução apenas
aumenta o número de vítimas.