O acidente de Congonhas revela
como é enfrentado
o caos aéreo: com incompetência, negligência,
cinismo
e deboche. Para não falar da corrupção,
é claro
Diego Escosteguy e Otávio Cabral
Marcelo Liso/AFBPress
A MÍMICA
DOS INDECENTES Funcionários da
Infraero, a estatal responsável pela administração
dos aeroportos, riem diante da tragédia, indiferentes
à cena aterradora dos corpos carbonizados sendo
retirados dos escombros. Abaixo, o assessor do presidente
Lula, Marco Aurélio Garcia, e um auxiliar comemoram
com gestos obscenos a notícia de que uma falha
mecânica pode ter causado o acidente o
que, só na fantasia deles, livraria o governo
de suas evidentes responsabilidades
Congonhas,
pouco depois das 3 e meia da madrugada de quarta-feira. Da
cabeceira da pista, debaixo de uma garoa forte, um grupo de
funcionários da Infraero observava o trabalho dos bombeiros.
Naquele instante, as chamas estavam praticamente extintas
e começava a etapa mais dramática de toda tragédia
o resgate dos corpos das vítimas. O grupo estava
a aproximadamente 100 metros do local onde o Airbus explodiu
depois de se chocar com o prédio da TAM. Um dos funcionários
da Infraero, João Brás Pereira, supervisor do
aeroporto, tinha uma visão privilegiada da tragédia.
Do lugar em que estava, do alto, era possível enxergar
com clareza um cenário capaz de despertar sentimentos
variados, como tristeza, dor, revolta ou consternação.
Mas ele e os outros funcionários da Infraero estavam
rindo. Apontavam para o lugar da tragédia, faziam algum
comentário e riam. Riram durante quase cinco minutos,
até perceber que estavam sendo fotografados. A Infraero
é a estatal responsável pela administração
dos aeroportos do país. Está na linha de frente
na escala de responsabilidade pelo caos aéreo que assombra
o Brasil há mais de dez meses. Não se sabe exatamente
do que os funcionários da estatal achavam graça.
Certamente não era é melhor acreditar
dos corpos carbonizados ou da destruição
provocada pelo acidente.
Brasília, pouco depois
das 8 da noite de quinta-feira, dois dias depois do acidente.
No 3º andar do Palácio do Planalto, o assessor
especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia,
e seu auxiliar, Bruno Gaspar, foram flagrados assistindo e
comemorando uma notícia do Jornal Nacional,
da Rede Globo, que apontava uma possível falha mecânica
no avião da TAM como provável causa do acidente
o que, só na fantasia deles, livraria o governo
de qualquer responsabilidade. Felizes e sem saber que havia
uma câmera apontada para eles, Marco Aurélio
Garcia e o auxiliar extravasaram sua satisfação
com gestos obscenos. Informado do flagra, o assessor do presidente,
inicialmente, negou a comemoração, mas, confrontado
com as imagens, disse que os gestos eram uma reação
privada captada de maneira clandestina pela televisão.
Ou seja, ninguém tinha nada a ver com aquilo. Depois,
em nota, tentou politizar o episódio: "O sentimento
que extravasei em privado foi e é de repúdio
àqueles que trataram sordidamente de aproveitar a comoção
que o país vive para insistir na postura partidária
de oposição sistemática a um governo
duas vezes eleito pela imensa maioria do povo brasileiro".
Traduzindo: o importante para o assessor presidencial é
mostrar à sociedade que o governo nada tem a ver com
o acidente. O resto os mortos, a tragédia, o
caos aéreo é mero detalhe. Top, top,
top para quem não concordar.
Adriano Machado/AE
O PRESIDENTE
SUMIU Preocupado com a própria
imagem, Lula preferiu cancelar a agenda para evitar
explicações sobre o caos aéreo.
Só voltaria à cena dali a três dias
A cena dos funcionários
da Infraero rindo diante do horror e a mímica grotesca
dos assessores presidenciais personificam não só
o escárnio como também a desídia com
que as autoridades governamentais têm enfrentado o problema
do caos aéreo desde seu início, em outubro do
ano passado. A culpa pelo acidente da TAM pode ser da pista
inacabada de Congonhas, de um defeito mecânico do avião,
de um erro do piloto, da chuva, do acaso, de tudo isso combinado.
A única certeza é a parcela de responsabilidade
do governo pela tragédia. Da manutenção
dos aeroportos à fiscalização dos aviões,
tudo passa ou deveria passar pelo crivo dos
órgãos federais que cuidam da aviação.
Os riscos do excesso de pousos e decolagens em Congonhas eram
conhecidos desde 2003. A solução era reduzir
o movimento do aeroporto, redistribuindo rotas, como se fez
no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e na Pampulha,
em Belo Horizonte. E por que isso não foi feito em
Congonhas? Em abril do ano passado, seis meses antes do apagão
aéreo, a Anac, a agência federal que fiscaliza
a aviação, reuniu-se com representantes das
companhias aéreas para discutir o problema. Chegou
a elaborar um plano de contingência para desafogar Congonhas,
que previa o desvio de rota para outros aeroportos e o fechamento
de uma das pistas a principal para reforma.
A Anac, porém, capitulou diante da pressão das
companhias aéreas, que têm em Congonhas sua principal
fonte de lucros. Em atenção às empresas,
ficou acertado que apenas a reforma da pista principal, que
operava em condições precárias, seria
executada. O projeto de reduzir os vôos foi engavetado.
Nem mesmo o cronograma de reforma
da pista principal do Aeroporto de Congonhas foi pautado pelo
nobre interesse público. O início das obras,
que eram emergenciais, foi adiado duas vezes. Ainda não
havia o caos aéreo, mas os técnicos da Infraero
e da Anac já haviam observado que o simples fechamento
da pista principal já provocaria problemas na operação
de todos os aeroportos do país. Como era ano eleitoral,
as autoridades, que estavam preocupadas apenas com o bem-estar
do governo, advertiram que a execução do trabalho
poderia causar problemas políticos. "Por isso, achamos
melhor deixar para depois", conta um graduado assessor da
Infraero com acesso ao Palácio do Planalto. As eleições
passaram, veio o apagão aéreo, e a reforma continuou
sendo adiada. O brigadeiro José Carlos Pereira, que
assumiu a presidência da Infraero no fim do ano passado,
chegou a desabafar com amigos: "Não tem jeito. As empresas
aéreas não deixam começar a reforma.
Não sei mais o que fazer". Os amigos perguntaram, então,
se o brigadeiro não poderia enfrentar as empresas.
Disse José Carlos Pereira, de acordo com o relato de
um dos confidentes: "Eu estou num mandato-tampão. Não
tenho poder para nada". Por pressão do Ministério
Público, que ameaçava pedir a interdição
do aeroporto, a reforma começou em maio último
e as empresas se comprometeram, enquanto durassem as obras,
a desviar 40% dos vôos de Congonhas para Guarulhos.
Mas nem isso foi cumprido, segundo a Infraero. E mais: para
deixar claro quem manda na aviação brasileira,
a pista principal foi reaberta sem as ranhuras de segurança
previstas, atendendo mais uma vez à pressão
das empresas.
Ed Ferreira/AE
SÓ
PODE SER ZOMBARIA Milton Zuanazzi apareceu
em público apenas para receber uma medalha pelos
bons serviços prestados: a quem?
A supremacia das companhias aéreas
sobre o poder público ficou ainda mais evidente depois
da tragédia. As autoridades diretamente responsáveis
pelo setor simplesmente sumiram. Assim que soube do acidente
com o avião da TAM, o presidente Lula montou um "gabinete
de crise" e convocou uma reunião no Palácio
do Planalto. Após quase seis horas de conversa com
quatro ministros, que invadiu a madrugada de quarta-feira,
Lula tomou a magnífica decisão de se esconder,
seguindo orientação de assessores palacianos.
Eles avaliaram que o presidente não deveria aparecer
em público para evitar ser cobrado sobre a responsabilidade
do governo. Com o caos aéreo umbilicalmente ligado
à inoperância federal, o presidente poderia desgastar-se
ainda mais tentando explicar o inexplicável. Assim,
todos os compromissos previstos na agenda foram cancelados
até sexta-feira. Lula ficou os dois dias seguintes
ao acidente envolvido com os chamados "compromissos internos",
ouvindo assessores e acompanhando o desenrolar das investigações
da tragédia. Sobre os mortos, apenas uma lacônica
nota oficial de solidariedade às famílias.
Mesmo se a investigação
concluir que houve falha humana ou mecânica, o governo
avalia que o acidente atingirá a popularidade de Lula.
"Ele ficará marcado pelo apagão aéreo,
pelos acidentes, pela falta de medidas de combate à
crise. Afinal, foram quase 400 mortos em menos de um ano.
Não importa qual é a causa. O desgaste está
posto", diz um dos ministros que participam do gabinete de
crise. Numa das reuniões diárias com os assessores
mais próximos, Lula fez uma autocrítica. Avaliou
que deixou o caos aéreo "correr solto", confiando que
seria resolvido naturalmente. Que deixou de tomar atitudes
mais efetivas, como a desmilitarização do controle
de vôo, o afastamento da diretoria da Infraero e a demissão
do ministro da Defesa, Waldir Pires. Disse também que
falhou ao não punir ministros que fizeram comentários
infelizes sobre a crise. Caso de Marta Suplicy, do Turismo,
que aconselhou os passageiros a "relaxar e gozar" em caso
de atraso dos vôos. De Guido Mantega, da Fazenda, que
disse que a crise é só uma conseqüência
inevitável do bom desempenho da economia. E de Waldir
Pires, que, ao depor à CPI do Apagão Aéreo
da Câmara, preferiu reclamar do salário a propor
medidas para conter a crise. Sobre os mortos, nenhuma palavra.
As autoridades só começaram
a sair da clausura na sexta-feira, talvez com os espíritos
mais altivos diante dos desdobramentos do efeito Marco Aurélio
"Top, Top, Top" Garcia. O presidente da Anac, Milton Zuanazzi,
apareceu na Base Aérea de Brasília para receber
uma medalha por relevantes (não se sabe quais) serviços
prestados à Aeronáutica. Zuanazzi estava à
vontade e chegou a sorrir ao receber a comenda. Por causa
da tragédia, a solenidade foi discreta, sem banda de
música nem acrobacias aéreas. O comandante da
Aeronáutica não fez nenhum comentário
sobre a crise. Antes da solenidade foi feito um minuto de
silêncio em homenagem às vítimas de Congonhas.
O comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, nada disse
sobre o acidente e fez um discurso no qual destacou as qualidades
do brasileiro Santos Dumont. Waldir Pires, o ministro da Defesa,
que estava sumido, continuou desaparecido. Já o presidente
Lula reapareceu na televisão na noite de sexta-feira,
três dias depois da tragédia, para se solidarizar
com as famílias das vítimas. Em seu pronunciamento,
Lula anunciou medidas para diminuir o tráfego em Congonhas,
a construção de um novo aeroporto em São
Paulo e o fortalecimento da Anac. A impressão de que
tudo será feito tarde demais se for feito
permanecerá incancelável.
A GAMBIARRA
NO AEROPORTO SANTOS DUMONT
Patrícia
Santos/AE
O andar do novo terminal
incendiado: falta de fiscalização
na obra
Poucas horas antes
da queda do avião da TAM, em Congonhas, os cariocas
se assustaram com a coluna de fumaça que subiu
do Aeroporto Santos Dumont, às margens da Baía
de Guanabara. O incêndio no 3º andar do terminal
recém-inaugurado, que abrigará uma praça
de alimentação, teve como origem mais
provável um curto-circuito numa instalação
elétrica provisória nas obras de ampliação
do aeroporto. Segundo o perito federal Luis Carlos Serpa,
a fiação apresentava vários pontos
sujeitos a um curto. O que permanece sem explicação
é como se pôde utilizar a popular gambiarra
numa obra cujo valor total supera os 334 milhões
de reais. O fogo foi alimentado por 300 cadeiras embaladas
em plástico que estavam guardadas ali
outro fato que denota descuido e falta de fiscalização.
Não passou de um susto, mas poderia ter sido
mais uma tragédia. Circulam pelo aeroporto 10
000 passageiros por dia. A ampliação do
Santos Dumont, entregue ao consórcio formado
pelas empreiteiras Odebrecht, Carioca Engenharia e Construcap
Engenharia, só deverá estar inteiramente
concluída em novembro. Uma primeira parte, que
inclui os balcões de check-in e salas de embarque,
foi aberta no fim de maio, antes do começo dos
Jogos Pan-Americanos. Seu principal mérito é
ampliar a capacidade do aeroporto, contribuindo para
desafogar o tráfego aéreo no país.
É das poucas obras recentes da Empresa Brasileira
de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) realmente
necessárias. Mas tão imperativo quanto
executá-la é fazê-lo com todas as
cautelas necessárias. O Brasil não pode
mais conviver com gambiarras.
O QUE AS AUTORIDADES
DISSERAM DURANTE A CRISE
O caos tomou conta
da aviação nacional depois que o vôo
1907, da Gol, foi atingido por um jato Legacy, em setembro
do ano passado. Desde então, o setor aéreo
sofreu panes sucessivas, e as autoridades combinaram
ineficiência com declarações desastrosas
Valter Campanato/ABR
Denise
Abreu
29 DE SETEMBRO DE 2006
O vôo
1907, da Gol, colidiu com o jato Legacy
"Vocês
são inteligentes. O avião caiu de 11 000 metros
de altura. O que vocês esperavam? Corpos?",
disse Denise Abreu, diretora da Agência
Nacional de Aviação Civil (Anac), aos
parentes das vítimas
26 DE OUTUBRO
DE 2006
Nas vésperas
do feriado de Finados, os controladores de vôo
fizeram uma operação-padrão nos
aeroportos
"É
uma crise de natureza emocional", analisou Waldir
Pires, ministro da Defesa
5 DE DEZEMBRO
DE 2006
Celso Junioro/AE
Tarso
Genro
O sistema
de rádio do Cindacta 1 falhou
"Acho
que o problema já está controlado",
disse o presidente Lula
"Não
pode haver uma pressa neurótica e temperamental.
É preciso uma ação técnica
e científica para preservar a vida (dos passageiros)",
afirmou Tarso Genro, então ministro das
Relações Institucionais
NATAL DE 2006
O overbooking
praticado pela TAM lotou os aeroportos, e passageiros
passaram as festas dormindo nos saguões
"Tudo
isso demonstra que está aumentando a capacidade
de viajar do povo brasileiro", disse o presidente
Lula
21 DE MARÇO
DE 2007
Pane no Cindacta
2, de Curitiba, causou nova onda de atrasos
"Quero
prazo, dia e hora para anunciar ao Brasil que não
vai ter mais problema nos aeroportos", disse o presidente
Lula
30 DE MARÇO
DE 2007
Os controladores
de vôo entraram em greve na véspera da
Semana Santa
"Fui apunhalado
pelas costas", disse Lula
"A crise
no transporte aéreo
brasileiro está longe de ser uma crise", declarou
Milton Zuanazzi
9 DE JUNHO DE
2007
Ed Ferreira/AE
Ueslei
Marcelino/Folha Imagem
Marta
Suplicy
Guido
Mantega
A neblina
fechou os aeroportos de São Paulo e causou atrasos
no resto do país
"Relaxa
e goza", aconselhou Marta Suplicy, ministra
do Turismo
"É
a prosperidade do país: mais gente viajando,
mais aviões, mais rotas", explicou Guido
Mantega, ministro da Fazenda
"Não
há risco nenhum para a segurança de vôo
no Brasil", garantiu José Carlos Pereira