Profissionais no auge
da carreira, jovens cheios de planos, crianças voltando
das férias, senhoras aposentadas, duas grávidas.
Vidas ceifadas, sorrisos que não existem mais
Depois que o pior
acontece, gestos que se dissolveriam na banalidade do cotidiano
ganham uma dimensão terrível. Por que o aspirante
a piloto conseguiu entrar no vôo fatídico no
último minuto? Por que o marido deixou a mulher e o
filhinho embarcarem no último assento disponível?
Como uma família inteira pega um avião para
voltar de férias e é varrida do mapa? Como um
pai vai esperar o filho no aeroporto e vê o avião
desaparecer em chamas? São perguntas sem respostas,
mas lembrar as histórias dos que se foram e o sofrimento
dos que ficaram é uma forma de dizer que todas as vidas
têm um valor intrínseco que nada apagará.
Nestas páginas, algumas dessas histórias de
vítimas e de sobreviventes.
"Eu deveria
estar no lugar deles"
Roberto Setton
O amazonense Ildercler Ponce de Leão, de 42 anos, deixou
o único lugar disponível no vôo 3054 para
sua esposa, Jamile, de 21 anos, com o bebê do casal,
Levi, de 1 ano e 7 meses. Nesse vôo, a mulher e a criança
poderiam fazer uma conexão direta para Manaus, onde
a família morava e Ildercler tem uma empresa de manutenção.
Ele pegou outro vôo, da Gol, cuja conexão exigiria
recolher as malas e fazer novo check-in em São Paulo.
Foi uma decisão pragmática, banal, que iria
adquirir dimensões trágicas. A família
vinha de um passeio pela serra gaúcha. Tivera a sorte
de ver neve em Gramado. Jamile e Ildercler tinham se casado
havia três anos, depois de um namoro rapidíssimo.
Recém-saído de um relacionamento amoroso, Ildercler
costumava trocar confidências com uma amiga, Gisele.
Quase sempre, quem atendia o telefone era a irmã mais
nova dela, Jamile. "Ela tinha a capacidade de me tocar com
palavras de fé e amor. Propus casamento em três
meses", ele conta. Quando se despediu da mulher e do filho
no aeroporto de Porto Alegre, o menino deixou com o pai seu
carrinho de estimação. "Não consigo mais
largar esse brinquedo", disse Ildercler a VEJA, na sexta-feira
passada.
O gesto que
salvou uma vida
Silvia Zamboni/Folha Imagem
O que acontece quando
sua vida depende de um grito de socorro e você não
tem mais forças nem para isso? O ascensorista Renato
Soares dos Santos, 31 anos, estava no 2° andar do prédio
da TAM Express quando o avião atingiu o edifício.
Sua primeira reação foi chamar o elevador para
ter certeza de que ninguém havia ficado preso. O elevador
estava parado. Renato tentou então achar a saída
pela escada. Não conseguiu. Foi quando sua irmã,
Regina, que sabia que ele estava no prédio, ligou para
seu celular: "Tentei acalmá-lo. Disse que os bombeiros
já estavam com seu número de telefone e logo
iriam resgatá-lo". Deitado de bruços no chão
para evitar aspirar a fumaça, o ascensorista ainda
ouvia os gritos de outros funcionários. Aos poucos,
foi perdendo a consciência. Cerca de vinte minutos depois,
quando os bombeiros chegaram, ouviu um deles perguntar se
havia alguém no local. Sem voz nem forças para
pedir ajuda, Renato fez o gesto que salvou sua vida: começou
a bater com uma das mãos no chão. Conseguiu
ser ouvido.
Ela já
sabia: seria menina
Álbum de família
Nos últimos quatro meses, a advogada gaúcha
Fabiana Hetzel Amaral, de 32 anos, passou a dividir o trabalho
no escritório de advocacia Freitas de Siqueira, em
Porto Alegre, com os preparativos para a chegada do bebê.
Estava animadíssima. Afinal, passara um ano tentando
engravidar. Há quinze dias, Fofa, como era chamada
pelos amigos e pela família, fizera um exame pré-natal
e descobrira que, muito provavelmente, teria uma menina. Feliz
da vida, avisou as colegas: iria se chamar Maria Vitória.
Como qualquer mãe de primeira viagem, saiu afoita em
busca dos preparativos. Comprou o carrinho do bebê e
até um aparelho daqueles que ajudam a tirar o leite
dos seios. Também contratou uma arquiteta para decorar
o quarto da filha, na casa que comprara com o marido havia
dois anos. Era uma nova fase de sua vida. Na terça-feira,
embarcou para São Paulo, onde apresentaria no dia seguinte
uma palestra sobre precatórios, uma das áreas
em que atuava. Deixou o carro no estacionamento da empresa
porque a viagem seria curta. Quando a TV deu as primeiras
informações sobre o acidente com o vôo
da TAM, amigos e familiares pensaram no bebê. Fofa,
sempre forte, iria sobreviver, acreditavam eles. Mas o final
da história foi diferente.
Atrasado, ele
correu para embarcar
Álbum de família
Ao chegar ao aeroporto
de Porto Alegre para embarcar para São Paulo, Diogo
Casagrande Salcedo, 25 anos, foi informado de que o check-in
do vôo das 17 horas já estava encerrado. Como
ele viajava por conta da companhia aérea, a funcionária
do balcão decidiu ajudá-lo. Deu nova olhada
no computador e avisou que, se Diogo corresse, conseguiria
embarcar. Foi o que ele fez. Queria chegar logo a São
Paulo, onde tinha marcado um exame psicotécnico, última
etapa do processo seletivo para se tornar piloto da TAM. Nas
duas terças-feiras anteriores, Diogo havia feito o
mesmo percurso para realizar provas de seleção.
"Nosso azar foi a funcionária ter conseguido embarcá-lo",
lamenta seu pai, Luiz Antonio Salcedo. Se passasse no exame,
Diogo realizaria um antigo sonho. Na infância, o tema
favorito de seus desenhos eram os aviões. Na adolescência,
praticou aeromodelismo. Adulto, tornou-se piloto de táxi
aéreo. Antes de viajar, Diogo esboçou a apresentação
que faria no dia seguinte: "Nas horas vagas gosto de praticar
esportes, entre eles tênis e natação.
Tenho uma namorada há seis anos com quem pretendo me
casar. Estou muito interessado em fazer parte da TAM e ajudar...".
"Meu filho só queria
chegar mais cedo em casa"
Roberto Setton
O paulista Lamir Buzzanelli,
de 67 anos, aguardava o desembarque do filho, o engenheiro
químico Claudemir Buzzanelli Arriero, ao lado de seu
táxi, estacionado em frente ao aeroporto. Foi surpreendido
por um forte estrondo seguido de labaredas a apenas 70 metros
de distância. O taxista consultou o relógio.
Eram 18h45, minutos depois do horário previsto para
a aterrissagem do avião no qual viajava Claudemir.
Pensou logo no pior: "Tive a certeza no meu coração
de que aquele era o avião em que estava meu filho".
Lamir ficou alguns minutos sem ação, desnorteado,
até começar a perguntar sobre o acidente a todo
mundo que passava. Ainda tentou seguidas vezes falar com Claudemir
no celular, sem sucesso. Minutos antes de entrar no avião,
o engenheiro químico, que havia viajado a Porto Alegre
a trabalho, avisou ao pai e à mulher, Rosely, que conseguira
antecipar seu vôo e chegaria mais cedo em casa. Estava
ansioso para voltar a tempo de jantar com a família
naquela noite. Aos 41 anos, ele tinha dois filhos, um de 21
e outro de 13 anos. "Um acidente como esse destrói
famílias inteiras", desabafa Rosely.
"Não sei mais o que
será de mim sem eles"
Que mãe não sentiu
o coração encolher ao ouvir pela televisão
o "não" vindo do fundo das entranhas de Christiane
Bueno? Ao receber a confirmação da queda do
avião em que estavam seus dois filhos, a estilista
de 40 anos literalmente desabou. A viagem era comum na vida
de Rafaella Bueno Dalprat, de 17 anos, e Caio, de 12. Desde
pequenos, eles faziam a mesma coisa nas férias escolares
de janeiro e de julho: pegavam um avião para Porto
Alegre e iam ver o avô, Ítalo Dalprat, e outros
parentes gaúchos. "Era para ser mais uma viagem de
rotina, nada além disso. Eles fizeram isso inúmeras
vezes e nada aconteceu. Por que agora?", perguntava-se Christiane,
a dor indizível apenas entorpecida por tranqüilizantes.
"Não sei mais o que será de mim sem eles." Caio
estava na 7ª série. Era um garoto meigo, capaz
de expressar a paixão pelo avô Ítalo de
forma comovente. "Vovô, você nem sabe quanto eu
te amo", disse ele ao deixar Porto Alegre. Rafaella, a quem
Caio chamava de "anjo da guarda", gostava de música
e de sair com as amigas. Em janeiro, tinha passado no vestibular
para o curso de rádio e TV.
Quatro meses de felicidade
e muitos planos
Há quatro meses, o gaúcho
Peter Max Finzsch, 28 anos, casou-se com Helena Braga, 26,
namorada desde a faculdade. Eles tinham acabado de comprar
um apartamento em Porto Alegre. No domingo, dois dias antes
de ele embarcar no Airbus da TAM, o casal passeou pelo bairro
onde fica o imóvel. Na ocasião, ele confidenciou
à mulher: "Nunca fui tão feliz". Analista de
sistemas na siderúrgica Gerdau, Peter tinha planos
de morar nos Estados Unidos, para onde viajava freqüentemente
a trabalho. "Ele estava no melhor momento profissional da
sua vida e muito contente com o casamento", lembra o pai,
Horst Max Finzsch. Na terça-feira, minutos antes de
embarcar no fatídico vôo da TAM, Peter conversou
pelo celular com o pai. Disse que acabara de entrar no avião
e, assim que chegasse a São Paulo, ligaria de volta.
Uma família inteira
riscada do mapa
Férias de inverno na florida
Gramado, vida consolidada na ensolarada Natal. No percurso
de volta, o aeroporto de Congonhas seria apenas uma escala
para a família Cunha. Ivanaldo Arruda da Cunha, de
51 anos, tinha o perfil do homem que vai atrás de oportunidades.
Nascido em Santana do Matos, no interior do Rio Grande do
Norte, mudou-se para São Paulo aos 17 anos, em busca
de trabalho. Na capital paulista conheceu Zenilda. Casaram-se,
tiveram dois filhos, deram-lhes nomes imponentes Caio
Felipe e Ana Carolina. Em 2003, com medo da violência,
a família decidiu se estabelecer em Natal, onde o empresário
era dono de dois postos de gasolina. Nos últimos meses,
Caio havia descoberto as corridas de kart. "Apesar de ser
um empresário ocupado, Ivanaldo encontrava tempo para
se divertir com a família. Eles apareciam aqui todos
os fins de semana", conta Ribamar Cavalcante, administrador
do kartódromo de Natal. Um dia antes do acidente, na
segunda-feira, Cavalcante recebeu um telefonema de Gramado.
Era Caio, feliz da vida, contando que o pai havia lhe dado
um kart de presente. Ele estava com 13 anos; Ana Carolina,
com 10.