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Edição 2018

25 de julho de 2007
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RENAN CALHEIROS TEM UMA GRANDE VIRTUDE: FAZ O PIOR DA PIOR MANEIRA POSSÍVEL

NOHTAS CONTEMPORÂNEAS

Pois é; entre o dentista, que diz que não vai doer nada, e a mãe de sempre, que diz que em mim – lá nela – dói muito mais, muitas cesarianas se passaram. Como contar, narrar, analisar tudo isso, sem resvalar do precípuo ao prepúcio? Eu vinha vindo, assim, naquela velocidade baiana toda minha, nem trem-bala nem burro-sem-rabo, quando fecharam o sinal. Fecharam, tacaram o cadeado, botaram grade, meteram lá uma: avaliação de sintomas pra verificar a corrupção dos meus órgãos públicos. Quando acordei não consegui saber se estava num avião internacional ou num CTI, a coisa é exatamente igual. Tanto no CTI quanto no avião você espera o tempo sem fim passar monotonamente, tem gente dando ordens o tempo todo, você é forçado a uma intimidade e proximidade desagradáveis com absolutos desconhecidos, come mal, corre risco de vida. Embora, honestidade fale, servido sempre por mulheres hábeis e gentis. O incrível, porém, é sair dali (dalis, plural) com vida. Não, eu não estava num avião internacional nem num CTI. Estava numa CPI (Comissão Pralamentar o Inquérito), dentro de um Brasil de luxo e de queima geral de todo o estoque, com desconto de 71%. Um alívio. Podia ter voltado a mim no Paraguai.

Presta atenção, ó turma – à vida não se pede tempo, como no vôlei. Não dão mais tempo à frente nem restituem algum desperdiçado atrás. Não há generosidade na destruição à frente, e não se devolvem os "bons tempos", aqueles que existem apenas na memória. E se te derem mais tempo à frente todo juntado da reserva do pior? Se você já gastou todo o melhor sem se dar conta?

Não adianta pedir arreglo. Ele, o tempo, não está nem aí. Indiferente a você e às baratas nos ralos, sem pressa nem vagar. No sol e na chuva, o tempo não se queima nem se molha. Sem velocidade visível (exceto a do relógio, mas é mentirosa), sem som audível (exceto o do relógio, mas é mentiroso), o tempo não é nada. Quer dizer, é tudo.

Como dizia o Millôr: não existe o tempo. Só existe o passar do tempo.

 

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