Claudio
de Moura Castro
As máquinas
de ensinar
"Ao
pensar nos próximos passos para nossa
educação, os especialistas deveriam prestar
mais atenção nos
êxitos brasileiros do
que nas
falsas promessas tecnológicas vindas
de um
mundo desenvolvido"
Ilustração Ale Setti
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Os arautos da modernidade repetidamente anunciam a nova tecnologia que
fará a revolução definitiva no ensino. Assim foi
com o disco, o rádio, o cinema, o gravador de som, a televisão
e as canhestras "máquinas de ensinar". Agora, entram em cena o
computador e a internet. Infelizmente, há muitos túmulos
e poucos monumentos. Poucas tecnologias foram realmente adotadas de forma
generalizada. Só funcionaram mesmo o mimeógrafo, o retroprojetor
e o xerox, adorados pelos professores. Curioso, o homem gera engenhos
e entretenimentos diabolicamente imaginativos, mas nada disso chega à
educação para desbancar o humilde quadro-negro (só
mudou a cor, ficou verde).
Pela perspectiva dos países ricos, praticamente nada sobreviveu.
Mas o entusiasmo persiste e brotam novas engenhocas, ungidas ao árduo
papel de salvadoras da educação. O computador já
vai ficando para trás. A novidade de plantão é a
internet.
Nós, caudatários das modas internacionais, com leve atraso
repetimos a mesma cantilena e hoje colocamos todos os nossos parcos ovos
no balaio da internet. Mas nessa área, curiosamente, o mundo tropical
tem algumas lições a oferecer. Há extraordinários
e bem-sucedidos experimentos com o uso do rádio na educação.
O Brasil já teve o Projeto Minerva. Guatemala e Bolívia
têm programas de matemática interativa pelo rádio,
com avaliações ótimas e ao preço de 1 dólar
por aluno/ano. O rádio pode ser velho e fora de moda, mas com custo
ridiculamente baixo gera bons resultados.
A televisão educativa americana nunca decolou e hoje é considerada
obsoleta. Os canais educativos a cabo mostram uma imagem feia e granulada
de professores recitando aulas monocórdias na frente de uma câmara
fixa. É voz corrente, presenciamos o ocaso dessas tecnologias da
imagem. Sobram apenas os vídeos que são usados no treinamento
profissional, mas não na educação.
Mas alto lá! Há dois países na contramão.
Ambos são grandes e suficientemente pobres para ter enormes contingentes
de jovens além do alcance das escolas. Ambos têm uma televisão
de nível internacional, pois são grandes exportadores de
telenovelas. E ambos usam a competência gerada por essa televisão
para produzir programas educativos de esplêndida qualidade.
Brasil e México aplicaram a qualidade da imagem televisiva de padrão
comercial para fazer programas educativos, coisa que os países
ricos jamais tentaram (exceto na pré-escola). Entre a Telesecundaria
mexicana, o Telecurso 2000 e a TV Escola, estamos diante
de produtos inovadores e de grande impacto social. Programas como esses
mostram que o anúncio da morte da TV/vídeo é prematuro.
Vão bem, obrigado, nestas paragens tropicais.
A internet e a web são, antes de tudo, condutoras da palavra escrita.
As cores e os movimentos são pura decoração e a largura
de banda possível no futuro imediato nos condena a imagens trêmulas
e diminutas na telinha do computador. Ao fim e ao cabo, são tecnologias
para quem sabe ler com desenvoltura. Lamentavelmente, esse não
é o caso de vastas porções de nosso povo.
Para clientelas menos educadas, o carisma humano de um grande professor
ou de um ator profissional tem um magnetismo inexistente na internet.
Um ator de novela no Telecurso 2000 traz uma mensagem infinitamente
mais forte que a página escrita. Uma aula na televisão,
preparada com competência e amplos recursos, às vezes é
melhor do que a melhor aula ao vivo. Mas é sempre melhor que a
aula improvisada, ou sua ausência.
A internet tem seu lugar e não há como desmerecer esse fabuloso
instrumento. Mas, em um país onde a maioria não opera confortavelmente
com a palavra escrita, a imagem do vídeo e da televisão
se converteu em poderoso instrumento de educação popular.
Ao pensar nos próximos passos para nossa educação,
os especialistas deveriam prestar mais atenção nos êxitos
brasileiros do que nas falsas promessas tecnológicas vindas de
um mundo desenvolvido que abandona a televisão na educação
sem jamais haver aprendido a usá-la.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)
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