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Roberto
Pompeu de Toledo
Caipirismos,
versão Planalto
Dois
episódios recentes
comprovam
um
traço do caráter
nacional
que o
próprio presidente
diagnosticara
O
presidente Fernando Henrique Cardoso disse uma vez que os brasileiros
são caipiras. São mesmo. O próprio governo Fernando
Henrique Cardoso encarregou-se de comprovar esse traço do caráter
nacional com duas recentes manifestações de caipirismo.
Caipirismo
nº 1 "Eu, el-rei, vos envio muito saudar." Assim começavam
as cartas que o rei de Portugal, no tempo da colônia, se dignava
mandar aos súditos destes assombrosos Brasis. Os destinatários
podiam ser capitães-gerais, membros das câmaras municipais
ou simples particulares por exemplo, os broncos paulistas que costumavam
internar-se pelos sertões em busca de ouro, e que o soberano gostava
de adular para que continuassem na perseguição de riquezas
tão do interesse das reais burras. As cartas eram raras, por isso
preciosas. Adivinha-se o arrepio que percorreria quem as lesse ao deparar,
logo na primeira linha, na letra cheia de volteios do escrivão
real, com aquele "Eu, el-rei, vos envio muito saudar".
Hoje não há el-rei para enviar muito saudar, mas há
uma palavrinha que causa arrepio semelhante: dear. Ou melhor: há
el-rei, mas ele escreve em inglês e, em vez de enviar "muito saudar",
começa com um dear "caro", "querido" , com
o mesmo propósito de, logo de saída, cativar o destinatário.
O leitor já se deu conta de que se está fazendo alusão
ao bilhete mandado pelo presidente George Bush a Fernando Henrique, agradecendo-lhe
os préstimos na resolução da pendenga que opôs
os Estados Unidos e a China, por causa do pouso forçado de um avião
espião americano em território chinês. Na verdade
o presidente brasileiro nem teve tempo de interferir. Estava previsto
que diria uma palavra a respeito ao presidente chinês, Jiang Zemin,
que naqueles dias chegaria em visita oficial ao Brasil mas, quando
Jiang Zemin chegou, o caso, ou a parte mais substancial do caso, que era
a libertação dos tripulantes do avião espião,
já se resolvera. Mesmo assim, Bush teve a bondade de mandar um
bilhete.
Não houve perda de tempo. De imediato, o bilhete foi divulgado
pelo Palácio do Planalto, e no dia seguinte o fac-símile
da preciosa peça, produzida de próprio punho pelo remetente,
estava estampado nos jornais. "Dear Fernando Henrique", começava.
El-rei nos enviava muito saudar. O coração caipira da platéia
haveria de se derreter.
Caipirismo
nº 2 "Está servido?" "Quer uma Presidência?"
Na iminência da viagem do presidente da República ao Canadá,
para participar da cúpula dos países americanos, cogitou
o Palácio do Planalto de incluir na comitiva o vice-presidente
Marco Maciel. Dessa forma, ausentes o titular e o vice, a Presidência
da República ficaria com o presidente da Câmara, Aécio
Neves. Seria um ato carregado de simbolismo. No dia 21 de abril, aniversário
da morte de Tancredo Neves, a Presidência que ele deveria ter ocupado,
mas que a fatalidade tão cruelmente lhe negou, estaria entregue
ao neto.
Há nesse caso uma sobreposição de caipirismos. O
primeiro tem origem na regra segundo a qual, ao viajar, o presidente deve
passar o cargo a um substituto. Não se trata apenas de relíquia
dos tempos em que as viagens eram longas e as comunicações,
precárias, de forma que realmente se impunha encarregar alguém
dos assuntos correntes. Trata-se, também, de costume que resulta
num erro de lógica. Se o presidente, ao deixar o posto para uma
missão oficial no exterior, transmite o cargo, isso significa que,
ao chegar à tal missão, não é mais presidente.
No caso presente, Fernando Henrique chegará à conferência
do Canadá, reservada a chefes de Estado, desprovido dessa condição,
que deixou no Brasil. Logo, que estará fazendo lá?
A tal anomalia, que não é culpa do atual governo, mas de
um obsoleto ordenamento legal, soma-se à de, em ocasiões
como essa, fazer viajar também o vice, de modo a oferecer a Presidência
em homenagem a alguém. É então que o mais alto cargo
da República se transforma num mimo. "Está servido?" "Quer
um pouco de Presidência?" É como se fosse um bombom. Nesse
aspecto, sim, o governo Fernando Henrique Cardoso tem-se distinguido especialmente.
Por duas vezes, em 1995, entregou a Presidência ao então
presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães. Em 1998,
foi a vez do pai de Luís Eduardo, o senador Antonio Carlos Magalhães
que, se o leitor se lembra, já foi considerado amigo do
atual governo, e merecedor de sentidas homenagens. Nessa ocasião,
foi um deus-nos-acuda. Não só o presidente e o vice tiveram
de se ausentar, mas também o presidente da Câmara, para que
o presidente do Senado, o terceiro na linha de sucessão, viesse
a assumir. Por oito dias então, em maio de 1998, deixou-se que
o senador Antonio Carlos fruísse o delicioso bombom da Presidência.
Desta vez não deu certo. O vice Marco Maciel não pôde,
ou não quis, ausentar-se, e Aécio Neves ficou sem o bombom.
Mas não perde por esperar. O hábito de oferecer a Presidência
como um mimo não vai desaparecer. Ele decorre dessa característica
tão brasileira que, como o presidente bem sabe, é a alma
caipira.
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