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Freiras que matam
Religiosas
vão a julgamento
por participação no
genocídio em Ruanda
Reuters
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| Irmã
Gertrudes (à esq.) e Maria Kisito (à dir.): ajuda na
morte de 5 000 tutsis |
Em
1994, cerca de 800.000 pessoas foram assassinadas num período de
100 dias em Ruanda. Foi como se a cada minuto morressem cinco. O genocídio
foi planejado e executado minuciosamente pelo governo da etnia majoritária
hutu contra a minoria tutsi. Em abril daquele ano, mais de 5 000 tutsis
procuraram proteção num convento beneditino em Butare, a
segunda cidade do país. A madre superiora, irmã Gertrudes,
com a ajuda de outra freira, irmã Maria Kisito, permitiu a entrada
dos refugiados, mas não tinha a intenção de deixá-los
sair dali com vida. Em pouco tempo, ambas os entregaram a uma milícia
hutu que executou quase todos nas horas seguintes. Quem sobreviveu aos
tiros e às machadadas foi trancafiado no centro de saúde
do convento e, com gasolina fornecida pelas irmãs, queimado vivo.
Em Ruanda, durante esses dias de terror, conventos, igrejas e templos
eram os abrigos mais procurados pelos tutsis. Mas ali não encontravam
nada além da morte, porque muitos religiosos hutus tomaram parte
ativa na matança. Na semana passada, Gertrudes e Maria Kisito começaram
a ser julgadas por crime contra a humanidade, na Bélgica.
O julgamento é mais um entre os 2.500 já realizados com
a intenção de passar a limpo um país despedaçado.
Impressiona a quantidade de religiosos que colocaram as rivalidades tribais
acima da fé. Além das duas irmãs, mais de vinte padres
e freiras aguardam julgamento. Dois padres foram condenados pelo massacre
de 2.000 pessoas. O bispo de Kigali era membro do governo hutu que perpetrou
o genocídio. Outro bispo foi julgado pelo assassinato de 800 pessoas,
absolvido e agora vai depor a favor das freiras. Em Ruanda, 1 milhão
de tutsis e quase 7 milhões de hutus vivem ainda em pé de
guerra. Eles falam a mesma língua, têm a mesma religião
e casamentos mistos tornaram difícil dizer quem é hutu e
quem é tutsi. Depois da independência da Bélgica,
em 1962, os hutus formaram o governo e, periodicamente, se põem
a massacrar os tutsis. Mais de 700.000 deles fugiram para o exílio
e formaram guerrilhas para sustentar um clima de guerra civil que arrasaria
o país pelos trinta anos seguintes.
Em 1991, o presidente, Juvenal Habyarimana, um hutu, tentou articular
a reconciliação nacional. Três anos depois, seu avião
foi abatido com mísseis quando aterrissava no aeroporto da capital.
Os hutus (85% da população) responsabilizaram os tutsis
(15% da população), e a matança começou. As
casas dos tutsis, marcadas com tinta vermelha, foram queimadas. Quem não
conseguiu fugir foi torturado e morto a paulada e machadada. Braços,
pernas e restos de corpos ficavam espalhados por vilas e estradas. Apenas
20% da população tutsi sobreviveu. O drama só terminou
mais de três meses depois do início da catástrofe,
quando um exército de exilados tutsis tomou o país. Com
os tutsis no poder, mais de 700.000 exilados a mesma quantidade
de tutsis mortos puderam retornar, refazendo o equilíbrio
demográfico anterior à tragédia. Sete anos mais tarde,
a convivência ainda é difícil. Muitos hutus, como
as freiras de Butare, negam que houve genocídio. O governo tutsi,
por sua vez, fala em nova reconciliação nacional. Na prática,
a vida em Ruanda continua um inferno.
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