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Um Suplicy para
cada lado

Marta encerra união de 36 anos,
Eduardo faz ar de abandonado

Thaís Oyama

Beto Barata/Folha Imagem
Patricia Santos/Folha Imagem
Suplicy contou com o apoio dos amigos: "A separação foi por outro motivo", diz o senador Marta, com o anel dado pelo ex: fiel ao histórico de desafio às convenções

Marta Suplicy, a prefeita de São Paulo, terminou o casamento de 36 anos com o senador Eduardo Suplicy desafiando as probabilidades. Primeiro, porque uma união desse tipo costuma ser praticamente indestrutível – depois de tanto tempo, todas as crises já foram vividas, todos os problemas acomodados, todas as alianças seladas. Segundo, porque o casal de maior projeção política do país, ambos petistas de material presidenciável, conseguiu escapar do escândalo e do achincalhe que tantas vezes acompanha os percalços conjugais dos poderosos, e isso num ambiente em que ronda a sombra máscula do consigliere de Marta, Luis Favre. Por fim, contrariando mais uma vez as estatísticas da maioria das separações, o papel de "vítima" não foi da mulher. Desde a divulgação da notícia, na segunda-feira passada, esse manto foi vestido pelo marido abandonado, o senador Eduardo Suplicy. Com seu ar de homem sensível, do tipo que evoca impulsos de proteção, o senador virou alvo de múltiplas manifestações de solidariedade. Os irmãos fecharam um círculo de apoio em torno dele, os amigos comoveram-se, admiradores anônimos se mobilizaram. Do filho mais velho, Supla, veio a reação mais enfática. Parentes do casal contam que, no domingo de Páscoa, dia em que a prefeita paulista contou aos três filhos a decisão de se separar, o roqueiro estremeceu. Gritou para a mãe que aquilo era uma "loucura" e se angustiou ao ver as lágrimas do pai. "Não chora, pai! Agüenta, pai!", invocava Supla. Passado o impacto inicial, Supla reequilibrou-se. "Não estou tomando partido de ninguém", disse. "Não esperava que tivesse acontecido a separação. Mas acho até legal o que eles fizeram: ter a coragem de assumir assim, terminando."

Clique na carta para vê-la ampliada

O coração partido do senador rendeu dividendos políticos: a separação imprimiu surpreendente fôlego a seu projeto de disputar com Luís Inácio Lula da Silva a candidatura petista à Presidência da República. Do início de abril – quando passou a perguntar, via internet, se devia ou não manter seu nome nas prévias do partido – até a segunda-feira fatídica, Suplicy havia recebido apenas 150 mensagens. Nos quatro dias posteriores ao rompimento, esse número saltou para 800 – sendo mais de 90% das respostas de estímulo à candidatura. Entre as mensagens, não faltaram críticas a Marta, "que não merece o excelente homem que o senhor é", como dizia um dos e-mails. No embate entre a prefeita voluntariosa e determinada, que toma a iniciativa de terminar o casamento, e o senador ético e sentimental, involuntariamente alijado do lar, não é difícil adivinhar de que lado fica a torcida. "As pessoas tendem a polarizar, e o papel de vítima quase sempre cabe àquele que é mais frágil, menos poderoso e emocionalmente mais dependente", analisa a psicóloga Lídia Aratangy. Para tornar ainda mais delicada a situação de Marta, no PT e no círculo de amigos mais próximos da família fala-se abertamente do envolvimento com Luis Favre, argentino naturalizado francês que atuou como colaborador especial, quase uma eminência parda, durante a campanha dela para a prefeitura. Na época, Suplicy admitiu com sua franqueza característica ter sentido ciúme do estrangeiro bonitão.

Seria simplificação demais, no entanto, atribuir o fim de uma relação de quase quatro décadas, envolvendo pessoas sofisticadas, maduras e psicanalisadas, a um único e isolado motivo, seja ele uma suposta paixão extramuros, seja ele a discordância sobre a oportunidade de uma CPI municipal, razão da última briga do casal. O próprio senador descarta o elemento político. "A separação não foi por isso. Foi por outro motivo", disse ele na sexta-feira. Mas há também, obviamente, o peso da mudança de status de Marta, dentro e fora de casa. Na visão de pessoas da família, o casamento vinha patinando havia tempos – e não resistiu à notável ascensão da prefeita no cenário político, para a qual o senador contribuiu. "Marta passou a se sentir incomodada com um marido que se tornou politicamente menos expressivo que ela e Eduardo não soube lidar com uma mulher que ficou muito mais poderosa que ele", avaliou um parente.

Como mulher em posição política de destaque, a prefeita de São Paulo se equilibra em campo movediço. Se sofrer, chorar ou, pior ainda, se deixar a impressão de que acabou o casamento num impulso emocional, será vista como irracional e fraca – atributos historicamente invocados para incompatibilizar as mulheres com posições de comando. Demonstrando firmeza e a habitual autoconfiança, como fez na semana passada, pode ser acusada do oposto. "Quem se separa e não fica abatido é insensível", avaliou a cunhada Vera Suplicy, casada com Roberto, irmão mais novo do senador. É nesse terreno que viceja o ar de desamparo do senador, que voltou a morar na casa da mãe, passou a semana inteira usando o mesmo terno e não esconde a esperança de reconciliação. Suas emoções obviamente nada têm de forjadas. Na terça-feira, quando se preparava para dar uma entrevista ao vivo, Eduardo Suplicy calou-se subitamente ao ver a imagem de Marta em um monitor de TV. A reportagem dizia que a prefeita havia substituído a aliança de casamento pelo vistoso anel de ametista que tem usado em ocasiões especiais. Ao ver a jóia, o senador sorriu, emocionado: "Fui eu que dei para ela". Além das sessões de psicanálise que passou a freqüentar dois meses atrás, ele tem buscado apoio na religião. No mesmo dia, convidou o dominicano frei Betto e um casal de amigos para jantar em seu apartamento em Brasília e, ao final, pediu uma oração coletiva. "Rezamos pela felicidade de toda a minha família", generalizou.

Na segunda-feira passada, um dia depois da decisão, ele não entrou na própria casa onde morou durante tantos anos: esperou no portão a professora de ginástica, para o exercício habitual. "Combinamos que esse é um espaço que agora pertence a Marta e a meus filhos", contou o senador a VEJA. Apesar das demonstrações públicas de sofrimento, ele tem-se mantido fiel ao pacto de silêncio sobre o fim do casamento. Marta e Eduardo Suplicy procuraram evitar que um episódio da vida particular se transformasse num espetáculo público, sujeito ao desfrute da multidão ávida por mexericos, como aconteceu com os ex-ministros Zélia Cardoso de Mello e Bernardo Cabral, no governo Collor. Diz Francisco Fonseca, cientista político da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC): "A decisão da prefeita foi anunciada com discrição e transparência. A opinião pública, embora tenha grande interesse pela vida privada de personalidades, acaba respeitando esse tipo de atitude".

E, quanto ao futuro, o que se pode esperar? O papel de vítima pode cair bem para o senador, mas tem um potencial negativo na arena inclemente do embate presidencial. Para Marta, o sonhado e inédito percurso de uma brasileira rumo ao Planalto tem mais um obstáculo: além de mulher, separada e por iniciativa própria. Marta, no entanto, já provou que não está nem aí para convenções. Como sexóloga de TV, falou sobre masturbação e orgasmo numa época em que até censura havia. No Congresso, como deputada federal, empunhou a bandeira da união civil entre homossexuais. Agora, separada e prefeita em início de mandato da maior cidade do país, tem uma parada dura pela frente. É bom lembrar que, mesmo não fazendo papel de mocinha, final feliz costuma ser com ela mesmo.

 

Ricos, bonitos e poderosos

Fotos arquivo pessoal
Arquivo pessoal

Ele, um Matarazzo; ela, bisneta de conde e neta de barão. Flores da elite, ricos e belos, começaram a namorar quando Marta era uma colegial do Des Oiseaux (foto à esquerda) e Eduardo, estudante de administração na Fundação Getúlio Vargas. O casamento (à dir., o casal com a avó de Marta), em 1964, durou 36 anos, produziu três filhos (abaixo à esq., João e Supla) e duas carreiras políticas brilhantes. Entraram no PT, participaram da construção do partido (abaixo à dir., com Lula e o ex-jogador Sócrates) e aprimoraram seus dotes para o marketing político. Suplicy, 59 anos, ostenta o título de segundo senador mais votado da história do país – só perde para Mário Covas. Marta, 56, levou a prefeitura de São Paulo e o título de estrela rósea do PT.

Ana Araujo
Mário Leite/Agência Folhas

 

A importância do fator argentino


Jarbas Oliveira/Folha Imagem


Luis Favre é o tipo de homem que traz a palavra perigo, em suas diversas interpretações, escrita na testa. A variação mais evidente é aquela que costuma deixar as mulheres sem fôlego. Alto, bonito, olhos azuis, poliglota, seguro de si, o consultor de 51 anos que durante a campanha se aproximou da então candidata Marta Suplicy, a ponto de incomodar o agora ex-marido, tem ainda o charme de uma biografia em que política e romance se enroscam. Radicado em Paris desde os 20 anos, Favre, nascido em Buenos Aires como Felipe Warmus, filho de emigrantes judeus poloneses, foi um precoce trotskista profissional. Como enviado da organização comunista que atuava num plano internacional, chegou ao Brasil na década de 80. Deveria aprimorar o desempenho político dos trotskistas nativos do movimento estudantil, agrupados na Libelu (Liberdade e Luta). Coerente com a tradição do movimento, acabou promovendo um racha ao forçar a incorporação da Libelu ao PT.

Nessa época, cultivou simultaneamente inimigos, admiradores e corações apaixonados. Teve um relacionamento sério com Marília Andrade, simpatizante petista e herdeira da empreiteira Andrade Gutierrez. De volta a Paris, os laços com o PT minguaram. "Cheguei a visitá-lo na França e ele parecia um burocrata", conta o irmão, Jorge Altamira, que continuou argentino e trotskista, atualmente deputado estadual. "Estava centrado no trabalho de sua gráfica." O interesse pelo Brasil renasceu com a campanha de Marta, da qual Favre foi peça-chave. Todas as pessoas que os acompanharam nessa fase, ouvidas para esta reportagem, mencionaram em sigilo um envolvimento além da política entre os dois. "Tenho absoluto respeito pelo casal", disse Favre, quando perguntado a respeito. "Não tenho nada a ver com a separação."

 

Com reportagem de Gabriela Carelli,
Adriano Ceolin e Paulo Vieira



   
   
   
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