A vida na redoma
Os turistas
adoram, mas os que vivem
em imóvel tombado têm suas queixas
Leonardo
Coutinho
Christian Knapper
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| Cidade
fantasma em São Luís: o governo financia casas e lojas |
O empresário
mineiro Lício José Lopes investiu 600.000
reais na reforma de um casarão histórico em Ouro Preto,
para montar um hotel, há dois anos. Algumas chuvas depois, parte
da fachada desabou. Lopes foi processado por dano a um bem tombado pela
Unesco como patrimônio histórico da humanidade e chegou a
ter sua prisão preventiva decretada pela Justiça. A obra
ficou embargada por dois meses. Detalhe: a fachada não tinha sido
mexida durante a reforma. A própria lei impedia que isso fosse
feito.
Lopes não
é um caso isolado. Existem no Brasil mais de 16.000
edifícios tombados e em todos esses lugares os proprietários
estão sujeitos a uma legislação dúbia. De
um lado, não podem alterar as características das construções
nem para instalar uma antena de televisão. De outro, são
responsáveis pela manutenção dos prédios.
Para piorar, quando autorizados a fazer uma reforma, são obrigados
a usar os materiais indicados pelo poder público. Não há
nada a fazer. É preciso mesmo policiar e proteger os bens tombados,
mesmo que seja à custa do conforto alheio. Mas não se pode
retirar das vítimas o direito de reclamar, o que muitos fazem.
Araquém Alcântara
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Araquém Alcântara
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| Ouro
Preto: tombamento pioneiro e 1 000 ações na Justiça |
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Somente em
Ouro Preto, que neste ano quase ficou sem desfiles de Carnaval para evitar
vibrações nas estruturas do casario, há mais de 1
000 ações contra proprietários de imóveis
tombados. Algumas porque o dono extrapolou e botou o prédio abaixo,
mas a maioria para discutir detalhes, como a cor das paredes depois de
determinada reforma. Em São Luís, cujo centro histórico
também é patrimônio da humanidade, as restrições
às reformas transformaram o conjunto tombado em um lugar praticamente
deserto. Para repovoar a área, cerca de 100 residências e
lojas foram reformadas pelo Estado e são oferecidas, com financiamento
generoso, a servidores públicos. A cidade pernambucana de Olinda
vive um caso parecido: há mais de 200 construções
consideradas irregulares. No belo Pelourinho de Salvador, que tanto impressiona
os turistas, o Estado só conseguiu fazer as coisas direito porque
gastou 12 milhões de dólares em obras e desapropriações.
Em compensação, os moradores de 104 casas tiveram de se
mudar, muitos deles para bairros distantes.
O Brasil
tem nove desses patrimônios urbanos da humanidade. "O país
ainda não descobriu como unir a preservação às
mudanças reclamadas pela modernidade", diz o professor de história
da arte da Universidade Estadual Paulista, Percival Tirapeli, autor do
livro Patrimônios da Humanidade no Brasil. Mas o problema
não é muito diferente nos chamados patrimônios naturais.
São cinco no território nacional. Nos da Serra da Capivara,
no Piauí, e do Pantanal Mato-Grossense quem morava dentro da área
teve de se mudar. Na reserva de Mata Atlântica da Costa do Descobrimento,
do Espírito Santo à Bahia, ninguém foi despejado,
mas para ampliar uma roça de milho é preciso ter autorização
federal. No Parque Nacional do Iguaçu, o problema é uma
estrada que já tinha três décadas quando o lugar virou
patrimônio natural. Há quinze anos, os moradores brigam para
mantê-la e o Ibama, para destruí-la. O único que não
criou inconvenientes para ninguém foi o Parque Nacional do Jaú,
no Amazonas. Quando o local foi tombado, há menos de um ano, não
havia ninguém vivendo lá.
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