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Enganando a fome

No combate à gordura, balão inflado instalado no estômago produz
sensação de saciedade

Aida Veiga


Antonio Milena
Luca, com 37 quilos a menos: tentativa de reeducação alimentar


Para os muito gordos, balão deixou de ser apenas uma descrição de sua condição anatômica. Ainda neste ano, o Ministério da Saúde deve autorizar a prática no país de uma técnica de emagrecimento que vem sendo realizada em caráter experimental desde novembro: o balão intragástrico, uma esfera de silicone que é introduzida no estômago dos obesos para ocupar espaço e enganar a fome. Sua principal indicação é para os chamados obesos mórbidos, aqueles com 45 quilos ou mais de excesso de peso. "Não tem nada de milagroso. É só uma ajuda da ciência para as pessoas que não aprendem a comer espontaneamente", diz Arthur Garrido, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Obesidade.

Se a idéia de ter um balão inflado na barriga causa arrepios, a forma como ela nasceu não fica atrás. Em 1982, um médico alemão observou que pacientes com distúrbios psiquiátricos que comiam cabelo sempre emagreciam. Investigou e percebeu que a causa era o bolo de fios que se formava no estômago, ocupando espaço que seria da comida e provocando sensação de saciedade. Desde então, vários balões artificiais de diferentes formas e materiais foram testados. Uns eram grandes demais e bloqueavam a passagem para o intestino, outros furavam com facilidade, outros ainda provocavam úlceras. O modelo mais recente, apelidado de BIB (BioEnterics Intragastric Balloon), é feito de um silicone semelhante ao utilizado nas próteses para aumentar seios e, até agora, tem apresentado bons resultados. Ainda não recebeu o aval do FDA, o órgão americano que inspeciona medicamentos, mas já foi aprovado pela União Européia e vem sendo empregado na Europa desde o final dos anos 90. No Brasil, os três médicos (em São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba) que participam do estudo já usaram o método do balão em oitenta pessoas.

Cinco meses, 37 quilos – O procedimento é relativamente simples e rápido (veja quadro). "Quando o estômago está vazio e encolhido, o balão ocupa 70% do espaço destinado à comida", explica o cirurgião José Afonso Sallet, coordenador do processo de aprovação do BIB. "É por isso que a pessoa fica saciada com apenas 30% do que comia antes." A perda média é de 5 a 7 quilos por mês. Uma das desvantagens do balão é sua vida útil, de no máximo seis meses – depois disso, as enzimas presentes no estômago começam a destruí-lo e ele tem de ser removido através de um aparelho de endoscopia, que o perfura, suga o conteúdo e puxa a esfera vazia. Outra é o enjôo nos primeiros dias, causado pela presença de um corpo estranho na barriga. Mas funciona. Em cinco meses, o biólogo paulistano Armando de Luca, 43 anos, perdeu 37 dos seus 183 quilos. "Não sinto mais tanta fome e não consigo me imaginar comendo tanto quanto antes", elogia ele. Mesmo com esse recurso radical, porém, o processo de reeducação alimentar muitas vezes não finca raízes – 40% dos pacientes recuperam o peso depois de um ano. A 8.000 reais cada tratamento, não dá para ficar repondo balões indefinidamente.

 
Foto J. Miranda


   
   
   
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