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Edição 1 697 - 25 de abril de 2001
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Gustavo Franco

Espertalhões e tesoureiros

"Como vivemos num país com muita gente que gosta de levar vantagem em tudo, precisamos de mais pessoas que entendam os processos pelos quais as coletividades são prejudicadas pelo excesso de esperteza"

Ilustração Ale Setti

O economista é um profissional com a alma dividida entre uma fascinação, que remonta a Adam Smith, com as situações em que indivíduos atuando de forma egoísta produzem o bem comum e a irritação com as instâncias em que a prática da esperteza gera confusão mesmo. Não há nada mais velho em economia que o debate sobre a exata localização dessa fronteira. Ou seja, até onde os mercados "organizam" comportamentos individuais movidos por interesses próprios da melhor forma possível? Em quais situações exatamente o egoísmo praticado no âmbito de mercados falha em produzir o melhor resultado para certa coletividade?

O assunto aqui é antigo e facilmente pode tornar-se dogmático e chato, de tal sorte que convém levar essa discussão para o terreno da vida cotidiana. Vamos a um exemplo simples de como coletividades desorganizadas podem comportar-se de forma irracional.

O pessoal da empresa em que você trabalha organiza um jantar de fim de ano. Todos vão a um restaurante e estão combinados que a conta será dividida em partes iguais. As pessoas começam a fazer suas escolhas e logo se percebe que algumas estão pedindo camarões e lagostas. Muito racional: são os pratos mais caros do cardápio e, se apenas uns poucos pedirem, vão diluir o custo pelo número de participantes. Só que, percebendo o que os espertos estão fazendo, o que o restante das pessoas faz? Todos pedem camarão e acabam, irritados, pagando uma conta muito mais alta do que seria razoável.

É claro que a conta pode ser cobrada individualmente, eliminando a distorção, mas isso nem sempre é possível e pode não resolver o problema, como demonstra outro exemplo fornecido por uma jovem leitora do Amazonas. Rafaela, de 18 anos, teve uma experiência reveladora como segunda tesoureira da comissão de formatura de sua turma do curso secundário. A festa ia ser cara e os alunos resolveram estabelecer contribuições mensais a ser feitas durante um período de tempo, a fim de juntar o dinheiro. Exatamente como num esquema de poupança programada: um grupo de pessoas economiza em conjunto durante certo tempo para constituir um fundo que pode ser usado para fornecer aposentadorias ou para adquirir um bem, como num consórcio, que serve para automóveis, viagens e – por que não? – festas de formatura.

O esquema parecia simples até que começou a inadimplência. Uma vez que nenhum dos formandos poderia ser excluído da festa, muitos raciocinaram que ao deixar de contribuir alguém acabaria pagando pelos inadimplentes de forma a não prejudicar a realização do evento. Como a inadimplência cresceu demais, nossa tesoureira teve de se aborrecer com os colegas e forçá-los a fazer as contribuições devidas. A jovem tesoureira não sabia que estava diante do clássico problema do "bem público", extensamente estudado pelos economistas, a ponto de tornar-se uma disciplina em separado, a "escolha pública", que já produziu um par de prêmios Nobel.

"Bem público" é aquele de cujo consumo ninguém pode ser excluído. Parques e praias são exemplos clássicos, mas a estabilidade de preços e um sistema previdenciário universal também cabem na mesma definição. Como o mundo é feito de espertos, ninguém quer pagar o preço para a manutenção desses "bens", pois sabe que não pode ser impedido de consumi-los. O resultado é que a oferta desses bens, ou sua qualidade, acaba menor que a ideal. Com isso, a própria coletividade termina prejudicada, ou seja, agindo de forma "irracional" quando vista em seu conjunto.

Rafaela resolveu cursar economia ao perceber que o problema da festa de formatura tinha tudo a ver com o problema da Previdência e tantas outras anomalias econômicas decorrentes de problemas de decisão coletiva. Problemas que os mercados não resolvem. Como vivemos num país com muita gente que gosta de levar vantagem em tudo, precisamos de mais "tesoureiros", vale dizer, pessoas que entendam os processos pelos quais as coletividades são prejudicadas pelo excesso de esperteza e, fundamentalmente, se irritam com isso.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)


 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)


 
 
   
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