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Gustavo
Franco
Espertalhões
e tesoureiros
"Como
vivemos num país com
muita gente que gosta de
levar vantagem em tudo, precisamos
de mais pessoas que
entendam os processos pelos
quais as coletividades são
prejudicadas pelo excesso
de esperteza"
Ilustração Ale Setti
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O
economista é um profissional com a alma dividida entre uma fascinação,
que remonta a Adam Smith, com as situações em que indivíduos
atuando de forma egoísta produzem o bem comum e a irritação
com as instâncias em que a prática da esperteza gera confusão
mesmo. Não há nada mais velho em economia que o debate sobre
a exata localização dessa fronteira. Ou seja, até
onde os mercados "organizam" comportamentos individuais movidos por interesses
próprios da melhor forma possível? Em quais situações
exatamente o egoísmo praticado no âmbito de mercados falha
em produzir o melhor resultado para certa coletividade?
O assunto aqui é antigo e facilmente pode tornar-se dogmático
e chato, de tal sorte que convém levar essa discussão para
o terreno da vida cotidiana. Vamos a um exemplo simples de como coletividades
desorganizadas podem comportar-se de forma irracional.
O pessoal da empresa em que você trabalha organiza um jantar de
fim de ano. Todos vão a um restaurante e estão combinados
que a conta será dividida em partes iguais. As pessoas começam
a fazer suas escolhas e logo se percebe que algumas estão pedindo
camarões e lagostas. Muito racional: são os pratos mais
caros do cardápio e, se apenas uns poucos pedirem, vão diluir
o custo pelo número de participantes. Só que, percebendo
o que os espertos estão fazendo, o que o restante das pessoas faz?
Todos pedem camarão e acabam, irritados, pagando uma conta muito
mais alta do que seria razoável.
É
claro que a conta pode ser cobrada individualmente, eliminando a distorção,
mas isso nem sempre é possível e pode não resolver
o problema, como demonstra outro exemplo fornecido por uma jovem leitora
do Amazonas. Rafaela, de 18 anos, teve uma experiência reveladora
como segunda tesoureira da comissão de formatura de sua turma do
curso secundário. A festa ia ser cara e os alunos resolveram estabelecer
contribuições mensais a ser feitas durante um período
de tempo, a fim de juntar o dinheiro. Exatamente como num esquema de poupança
programada: um grupo de pessoas economiza em conjunto durante certo tempo
para constituir um fundo que pode ser usado para fornecer aposentadorias
ou para adquirir um bem, como num consórcio, que serve para automóveis,
viagens e por que não? festas de formatura.
O esquema parecia simples até que começou a inadimplência.
Uma vez que nenhum dos formandos poderia ser excluído da festa,
muitos raciocinaram que ao deixar de contribuir alguém acabaria
pagando pelos inadimplentes de forma a não prejudicar a realização
do evento. Como a inadimplência cresceu demais, nossa tesoureira
teve de se aborrecer com os colegas e forçá-los a fazer
as contribuições devidas. A jovem tesoureira não
sabia que estava diante do clássico problema do "bem público",
extensamente estudado pelos economistas, a ponto de tornar-se uma disciplina
em separado, a "escolha pública", que já produziu um par
de prêmios Nobel.
"Bem
público" é aquele de cujo consumo ninguém pode ser
excluído. Parques e praias são exemplos clássicos,
mas a estabilidade de preços e um sistema previdenciário
universal também cabem na mesma definição. Como o
mundo é feito de espertos, ninguém quer pagar o preço
para a manutenção desses "bens", pois sabe que não
pode ser impedido de consumi-los. O resultado é que a oferta desses
bens, ou sua qualidade, acaba menor que a ideal. Com isso, a própria
coletividade termina prejudicada, ou seja, agindo de forma "irracional"
quando vista em seu conjunto.
Rafaela resolveu cursar economia ao perceber que o problema da festa de
formatura tinha tudo a ver com o problema da Previdência e tantas
outras anomalias econômicas decorrentes de problemas de decisão
coletiva. Problemas que os mercados não resolvem. Como vivemos
num país com muita gente que gosta de levar vantagem em tudo, precisamos
de mais "tesoureiros", vale dizer, pessoas que entendam os processos pelos
quais as coletividades são prejudicadas pelo excesso de esperteza
e, fundamentalmente, se irritam com isso.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)
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Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)
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