Perfil
O
arquiteto do impossível
Fotos
Michael Klinkhamer, Getty Images e Bitter Bredt
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POESIA
CONCRETA Na prancheta de Libeskind, a
coordenação do projeto do Marco Zero, em Nova York (no centro),
e os recortes do Museu de Berlim |
Escolhido
para ser coordenador-geral do complexo (memorial, museu e prédios comerciais)
que ocupará o lugar do World Trade Center, em Nova York, o arquiteto polonês-americano
Daniel Libeskind, 62 anos, foi professor universitário até que se
inscreveu no primeiro concurso o projeto do Museu de Berlim em 1989,
ganhou e não parou mais, seja de concorrer, seja de vencer competições.
Hoje, ao lado de Frank Gehry, Rem Koolhaas e Zaha Hadid, é considerado
um dos expoentes da chamada nova arquitetura, que se caracteriza por subverter
formas estabelecidas. "Por alguma razão, todos os prédios que
eu faço criam algum tipo de controvérsia. Não sei por quê.
Mesmo quando faço uma casinha, ela provoca debates", brinca Libeskind,
que falou, de Nova York, à editora assistente Bel Moherdaui, dias antes
de embarcar para o 7º Fórum Internacional de Arquitetura e Construção
em São Paulo
MARCO ZERO
O
novo projeto é uma responsabilidade imensa. É preciso ter fé
e paciência. Fizemos muito progresso, diante de tantas controvérsias
iniciais. Mas é uma maratona de muito esforço.
AS
DORES DO SÍNDICO
Acho que ninguém tinha a real dimensão
da complexidade do projeto. É bem mais fácil quando há um
governo totalitário por trás, decidindo como vai ser e funcionar
o prédio. Nós temos justamente o contrário, um consórcio
muito democrático. Precisamos lidar com a política, com emoções,
com as complexidades da cidade de Nova York, o prefeito, o governador, as famílias
das vítimas, os investidores. É complicado, mas, ao mesmo tempo,
estimulante.
EFEITOS DA CRISE
É
claro que, de alguma forma, o novo Marco Zero, um empreendimento muito complexo
e de longo prazo, está sendo afetado pelo que acontece ao seu redor. Mas
a ideia principal, não: o fato de que não é um lugar qualquer,
mas uma construção cheia de simbologias e que será espetacular.
Acho que a crise vai atrasar um pouco a construção, por exemplo,
dos prédios comerciais grandes.
MERCADO
IMOBILIÁRIO
Temos tido bastante sorte e até recebido novos
investimentos. Nesta crise os investidores e construtores estão dispensando
os projetos comuns e mantendo os que são importantes e fazem diferença.
Não é hora de abandonar ambições, mas de realizar
projetos audaciosos. Falta dinheiro para projetos sem graça, mas sempre
haverá necessidade de abrigar as pessoas, criar cidades e lugares bonitos,
e essa necessidade crescerá.
ESTILO
PRÓPRIO
Faço algo que não é apenas mais do
mesmo, não segue um estilo, não pretende deixar as pessoas simplesmente
acomodadas, mas provocar opiniões. Não gosto de imparcialidade.
Meus projetos sempre provocam emoções. É uma arquitetura
que não é fria, indiferente. Não é uma continuidade
do cinza, mas uma nova cor, uma nova experiência. A arquitetura, como a
arte, deve provocar reações sinceras, e não só uma
anestesia comercial.
NOVO E ANTIGO
Todos os prédios que projetei foram construídos. Dizer que
os meus projetos são "inconstruíveis" é um clichê
que as pessoas adotam por achar que arquitetura é coisa pronta, acabada.
Não é. Eu parto de uma outra ideia sobre o que é possível
construir. No meu trabalho, respondo às complexidades da vida e crio espaços
que são novos, mas ao mesmo tempo estão conectados a uma tradição,
que têm embutida uma verdadeira compreensão do passado. É
assim que há oportunidade de abrir um novo caminho.
REI
DOS CONCURSOS
Ganhar um concurso pode ser muito fácil, mas muitas
vezes não leva a lugar algum. O que vem depois é que importa, como
você construirá o que propôs. Meu primeiro prédio, o
Museu Judaico de Berlim, demorou quase treze anos para ficar pronto. Ele expressa
a tragédia do passado e a esperança no futuro. Nas paredes não
fiz janelas, mas recortes que remetem, de uma forma muito especial, ao que havia
ao redor desse prédio na velha Berlim, que foi destruída. São
como traços invisíveis do passado projetados dentro do prédio.
Por sua vez, o visitante, do lado de dentro, pode se comunicar por esses ângulos
especiais com os lugares onde os judeus alemães viviam antes de a tragédia
ser iniciada.
PROCESSO CRIATIVO
Trabalho de forma muito tradicional. É até poética. Não
gosto simplesmente de sentar com o equipamento e a equipe. Preciso ser movido
por algo fantástico. Preciso desenvolver, com desenhos e modelos simples,
ideias bem complexas. E obviamente é necessario contar com equipes ótimas
no mundo todo, mas muito depende do meu esforço pessoal. É como
escrever um poema ou compor uma música. Pode acontecer a qualquer momento,
em qualquer lugar, até num pedaço de guardanapo.
LIMITES
Todo projeto tem suas restrições. O preço, a localização,
a proposta. Não é uma fantasia. E esse limite dá força
criativa, é a moldura que fornece a tensão necessária.
RECONSTRUIR,
NUNCA
Na arquitetura, não é possível voltar no tempo,
e ele é muito determinante no resultado final do projeto. Por isso é
importante pensar bastante antes. É impossível refazer. Você
pode reescrever um livro, talvez refazer um filme, até a música
dá para transformar. Mas a arquitetura, como custa muito dinheiro e demanda
o esforço de muita gente, não.
PASSADO
MUSICAL
Vim para os Estados Unidos com minha família, aos 13 anos,
por causa da minha habilidade para tocar acordeão. Ia seguir carreira musical,
mas preferi outro caminho. Mais do que eu, minha mulher lamenta o fato de eu ter
trocado a música pela arquitetura. Ela acha a vida de músico calma,
bonita. Provavelmente eu não precisaria viajar tanto, trabalhar tanto.
ARQUITETURA
E ARTE
Arquitetura é uma arte cívica. Uma arte pública.
Não é para galerias, para ser admirada em privado, ou para ser arquivada
e guardada. Ela é parte da consciência coletiva. E a arquitetura
está fundada no desenho. O desenho é a forma mais antiga e mais
direta de comunicação entre o olho, a mão e o coração.
É insubstituível.
TECNOLOGIA
Eu não uso computador. Aliás, raramente uso iPod ou telefone.