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Edição 2105

25 de março de 2009
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Economia
O consenso das elites

Empresários e governos da América Latina convergem, em
geral, sobre vários temas. O Brasil está nesse bom caminho


Diogo Schelp

Ricardo Stuckert/PR
IMUNE, MAS NEM TANTO
Os sinais de recessão afetaram a popularidade do presidente

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Nesta reportagem
Quadro: Como pensam representantes do governo
e empresários

Enquanto a crise financeira se avolumava ao redor do mundo, no fim do ano passado, a aprovação do governo Lula parecia imune aos seus efeitos. Bastou a recessão global se refletir nos empregos dentro do Brasil para o inevitável acontecer: na semana passada, duas pesquisas de opinião registraram a primeira queda na avaliação positiva do governo desde o início do segundo mandato. No Datafolha, o índice caiu 5 pontos porcentuais. Na pesquisa CNI/Ibope, a redução foi de 9 pontos. O fenômeno deve interferir na lua-de-mel entre o governo Lula e os empresários brasileiros, o que foi identificado por uma pesquisa do Núcleo de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri/USP). Segundo essa pesquisa – para a qual foram entrevistadas, entre julho e outubro do ano passado, 829 personalidades influentes de países latino-americanos –, nada menos que 79% dos empresários aprovam a administração Lula. É uma aprovação, ainda assim, reticente. Apenas 30% deles acham que o governo está conseguindo resolver os problemas do país. Deixando de lado o aspecto circunstancial, os dados também indicam que há, no Brasil, maior convergência de ideias entre empresários e representantes do governo do que em países como a Venezuela e o Chile. Por que isso é relevante? Em uma democracia, é saudável o governo agir sempre atento às concepções da elite – aquela parcela da sociedade formada por empresários, líderes políticos, sindicalistas, intelectuais e representantes da sociedade civil. Quando um governo atua sozinho, sem dar ouvidos aos que formam o setor produtivo e pensante, o resultado é um país instável politicamente e, em geral, ameaçado pelo autoritarismo.

O alto grau de convergência entre empresariado e governo não quer dizer, é claro, que um país está necessariamente no rumo certo. Um exemplo é a Argentina, onde 22% dos empresários entendem que é papel do governo limitar o enriquecimento dos poderosos. Isso indica que o empresariado argentino continua à vontade com a tradição peronista do país, perpetuada pela administração de Cristina Kirchner. No Brasil, apenas 7% dos homens de negócio concordam com essa atribuição populista do estado, contra 26% dos representantes do governo Lula. Essa e outras questões demonstram que, tanto política como economicamente, os empresários brasileiros têm uma visão de mundo mais moderna do que os burocratas de Brasília. Eles valorizam elementos da democracia como o respeito às leis e a liberdade de expressão e são menos favoráveis à interferência do estado na economia. "Os empresários, no entanto, não podem estar muito à frente do sistema político porque precisam se adaptar ao meio em que atuam", diz o cientista político Alberto Carlos Almeida, do Instituto Análise.

Quase a metade dos empresários brasileiros se disse favorável ao aumento dos gastos públicos. Uma contradição, porque o inchaço da máquina pública eleva as despesas com custeio, suga os recursos da sociedade e reduz o dinheiro que sobra para fazer investimentos. Como consequência, as oportunidades de negócio diminuem. Uma possível explicação para essa opinião é o período em que as entrevistas foram feitas: exatamente no início da crise que atualmente se abate sobre as nações. Com ela, ressurgiu com força a ideia de que o estado deve estar mais presente na economia. Outra razão é o cacoete histórico de parte dos empresários de agarrar-se ao estado. Entende-se: até vinte anos atrás, o Brasil era uma economia fechada, com leis que engessavam o empreendedorismo, para benefício de alguns poucos. "Mas está havendo uma mudança de mentalidade: os empresários mais jovens esperam menos do governo, comparados com os mais velhos", diz a socióloga Ana Maria Kirschner, da Universidade Federal Fluminense.

Na Venezuela, a distância entre a visão defendida pelo governo e a defendida pelos empresários foi a mais acentuada dos países pesquisados. Parece óbvio em um país em que o presidente, Hugo Chávez, considera confiscos e expropriações medidas corriqueiras. No Chile, um país com uma economia e um sistema político consistentes, as diferenças de opinião entre empresários e representantes do governo podem ser interpretadas como uma peculiaridade histórica. O empresariado chileno tem ainda vivas na memória as desastrosas políticas socialistas adotadas na década de 70. Daí o rechaço total a posturas populistas, como a de achar que o papel do governo é proteger os pobres. Nos temas essenciais à vocação exportadora do Chile, no entanto, governo e empresários convergem. Lá, nem mesmo as crises conseguem abalar os pilares sobre os quais o país está sendo construído.



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