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Colômbia
ENTRE O SANGUE E O
PÓ
A vida num
país onde a cocaína virou um
novo ciclo do ouro
Paulo
Moreira Leite, de Bogotá
Quem imagina a
Colômbia como um país de bandoleiros e marginais só
precisa sair por Bogotá para descobrir uma cidade menos
insegura do que São Paulo. As pessoas param o carro com
vidro aberto no semáforo e as mulheres andam na rua com
colares de ouro. Bogotá era um matadouro, no início da
década. Para obrigar uma Assembléia Constituinte a
aprovar um decreto que proibia sua extradição para
julgamento nos Estados Unidos, os traficantes de droga
transformaram o país num inferno. Encomendaram
assassinatos de políticos, seqüestros de empresários,
bombas em redação de jornal. Três candidatos a
presidente da República e dois ministros foram mortos.
As legendas de esquerda, que acabavam de assinar um
acordo de paz, perderam 3.000 militantes. Nos partidos
políticos tradicionais, as vozes renovadoras foram
massacradas. Enviado à Embaixada de Budapeste, na
esperança de que a segurança do então bloco comunista
pudesse protegê-lo do narcotráfico, um ministro da
Justiça foi alvejado quando ligava o motor do automóvel
tomou um tiro na cabeça, outro na
boca, mais um no tronco, salvando-se por milagre. De lá
para cá, a vida mudou.
A violência
deslocou-se para o interior, alimentada em choques entre
uma antiga guerrilha de esquerda, grupos paramilitares e
o Exército. Os traficantes sofreram derrotas pesadas
os muito audaciosos estão no cemitério, um punhado foi
extraditado para os Estados Unidos, uma parcela cumpre
pena em Bogotá. A Colômbia é um país bonito, capaz de
surpresas como fechar 1997 com um recorde de
investimentos estrangeiros. Mas sua tragédia segue sendo
o negócio da cocaína. Todo colombiano sente à flor da
pele o fracasso de todas as políticas tentadas até
aqui, em seu próprio país e também fora dele, para
encarar esse pesadelo.
A maioria das
pessoas conhece a cocaína pela destruição da
juventude, o desmanche dos bairros populares, a
criminalização da vida noturna, a violência e a
corrupção. Na Colômbia, onde o consumo é
insignificante, a droga é riqueza em estado puro.
"É um novo ciclo do ouro", explica o professor
Salomon Kalmanovitz, diretor do Banco da República, o
banco central, lembrando o período em que os metais
preciosos da América ergueram catedrais de riqueza na
Europa. "Com a vantagem de que exigiu menos
investimento, para um retorno maior e mais rápido."
A naturalidade com que se fala da cocaína na Colômbia
só impressiona recém-chegados. No cotidiano, o tema
alimenta teses universitárias, debates na imprensa e
até a imaginação popular. Nos cemitérios de
Medellín, onde estão enterrados os matadores
profissionais de Pablo Escobar que tombaram em serviço,
os amigos mandaram escrever em suas lápides:
"Muertos por la patria".

Plantação
de papoula Fácil de armazenar,
relativamente segura de transportar, a droga é dinheiro
ao alcance da mão. A matéria-prima para se fazer 1
quilo custa perto de 750 dólares no interior, que se
transformam em 23.000 no desembarque dos atacadistas em
Nova York e chega na marca de 135.000 no varejo. Ainda
que a cocaína injete 2,5 bilhões de dólares por ano no
país, é bobagem achar que a economia inteira é movida
a narcotráfico. Apenas o maior grupo privado da
Colômbia, o Santo Domingo, com investimentos em
alimentação, bebidas e telecomunicações, fatura uma
quantia equivalente. Outra bobagem é imaginar que é
fácil resolver uma questão que envolve tanto dinheiro e
gera tanto poder. Todos os anos o governo colombiano
gasta 1 bilhão de dólares para combater o tráfico e
ainda recebe 300 milhões de ajuda americana. Mesmo
assim, o negócio até se ampliou. Antes, a Colômbia
importava a matéria-prima da Bolívia e do Peru,
reservando-se a função de refino e exportação. Agora,
também dedica-se ao plantio
conforme satélites do governo americano, já é a maior
produtora mundial. A última dos traficantes é plantar
papoula para vender heroína
estima-se que já tenham um terço do mercado americano.
A grana do pó é dinheiro vivo, pronto para virar
negócio e gerar mais dinheiro
seja um edifício, uma fazenda, uma loja de armas. Às
vezes, é caso de salvação nacional. A Colômbia foi o
único país sul-americano que não quebrou nos anos 80
os dólares que compravam a droga em Nova York faziam
caixa no câmbio negro de Bogotá. Mas esse dinheiro
contamina os bons investimentos. Os traficantes criam
empresas de fachada que concorrem de forma desleal com
firmas tradicionais, montam esquemas de contrabando que
oferecem preços impensáveis no comércio honesto.
"Do ponto de vista global, as vantagens e
desvantagens acabam se compensando", afirma
Kalmanovitz, lembrando que a economia colombiana crescia
mais em sua fase pré-cocaína do que hoje. O tráfico
encareceu as terras férteis, inviabilizando qualquer
projeto de desenvolvimento da agricultura e de reforma
agrária. Comprando fazendas e latifúndios, os
traficantes encontram agricultores que ocupavam o lugar
para livrar-se deles montam grupos paramilitares. Lavando
dinheiro nos imóveis, fizeram surgir apartamentos de 2
milhões de dólares em Bogotá.
Treinada
para executar
Com recursos concentrados no combate à droga, a polícia
deixa os pequenos delinqüentes de mãos livres. Eles
respondem pelo crime em ascensão, o seqüestro, grande
parte envolvendo resgates modestos, de 5.000 e até 1.000
dólares. Com 89 homicídios para cada 100.000
habitantes, a Colômbia segue sendo o país mais
violentos do mundo, ainda que essa taxa já tenha sido
maior, no início da década. Esses números surpreendem
num povo educado e atencioso, mas se explicam como
herança da violência e banditismo que nasceram e
engordaram em volta do tráfico, das armas que se
tornaram baratas, da mão-de-obra dos bairros pobres que
foi treinada para executar.
Com todo esse
poder, o negócio da cocaína dá sinais de vida até na
cúpula da Igreja Católica, que, em Medellín,
abençoava as obras filantrópicas de Pablo Escobar. Faz
tempo, também, que anda perto dos palácios
presidenciais. O ex-presidente Belisario Betancur chegou
a assinar lista de presença em festas de traficantes. Na
campanha de 1982, assessores do ex-presidente López
Michelsen, entre os quais se encontrava o atual
presidente Ernesto Samper, foram a Medellín receber
dinheiro das mãos dos barões do pó. Em 1994, na
campanha de Samper, o dinheiro da cocaína apareceu entre
o primeiro e o segundo turno. Investigando o Cartel de
Cali com auxílio da DEA, a polícia antidrogas dos EUA,
chegou-se a um assessor de Samper. Seu telefone foi
grampeado quando se descobriu que acertava ajuda para a
campanha.
Contemporâneo de
presidentes que perderam o mandato, como Fernando Collor
e Carlos Andrés Perez, da Venezuela, Samper permaneceu
no cargo sem ter sido muito convincente em sua defesa. As
investigações demonstraram como o dinheiro foi
empacotado embrulhado em papel de
presente , quem o recebeu, onde. Uma senadora
chegou a dizer que o próprio Samper lhe dera
instruções para recolher sua parte. Nos papéis de um
contador do cartel a polícia encontrou comprovantes de
pagamentos regulares feitos a um auxiliar do presidente,
que embolsava 10.000 dólares mensais. A única defesa de
Samper foi alegar que não sabia de nada, mas, preso e
condenado, um ministro declarou em juízo que, sim, o
presidente sabia de tudo. Samper também demonstrou
razoável falta de escrúpulos para se defender,
distribuindo verbas e concessões de rádio a quem o
apoiava, perseguindo quem o atacava
até um programa de TV do prêmio Nobel Gabriel García
Márquez saiu do ar. Uma dúzia e meia de políticos de
alto escalão foi parar na cadeia, mas é errado supor
que Samper se salvou apenas porque distribuiu favores,
cargos e dinheiro. Tão sério em seus propósitos
nacionalistas como Bill Clinton em suas proclamações
feministas, Samper conseguiu transformar a investigação
num caso de soberania nacional.
Espelho
retardado "Na hora de ir para
a rua, ninguém estava convencido de qual lado tinha
razão", diz o professor Juan Gabriel Tokatlian, da
Universidade Nacional. "Os intelectuais ficaram
divididos, os estudantes também." Samper foi eleito
fazendo críticas à abertura da economia e à
globalização. Na Colômbia, a CUT estava no governo:
fez o ministro do Trabalho e apoiou um pacto social,
cruzando os braços na hora de protestar contra a
corrupção. Samper tornou-se um morto-vivo, mas, no
início da campanha por sua sucessão, que será
disputada pelo sistema de dois turnos, o primeiro em
maio, o segundo em julho, quem lidera as pesquisas é o
ex-ministro Horacio Serpa, seu escudeiro fiel.
Longe de ser um
país destruído, a Colômbia já completou quatro
décadas de estabilidade e crescimento, com uma taxa
média de 4% ao ano a melhor do continente.
Possui um índice de alfabetização superior a 90% e
suas universidades formam 650.000 estudantes por ano
considerando uma população de 40 milhões, é um
índice típico de país desenvolvido. Cercada de
vizinhos democraticamente instáveis, completou quarenta
anos de estabilidade, sem golpes nem generais em
palácio. Com uma renda per capita modesta, de 2.300
dólares, tem as maiores minas de esmeralda do planeta,
sua produção de ouro e de petróleo é respeitável, o
café ganhou fama de saboroso e as flores são fonte de
divisas. Essa surpreendente saúde econômica explica o
apetite das empresas multinacionais, que despejaram um
pacote de 5 bilhões de dólares em investimentos no ano
passado o segundo do continente.
"Nossos problemas são conhecidos, mas os
investidores são profissionais: seriam os primeiros a
cair fora se o retorno não fosse compensador",
explica Jeronimo Castro, diretor da Coinvertir, entidade
destinada a atrair capital estrangeiro. Uma vantagem para
investir na Colômbia é a mão-de-obra, considerada
muito bem-educada. Outro ponto a favor é uma tradição
econômica sem inflações catastróficas nem agonias
recessivas. O temor óbvio é a segurança dos
executivos, instruídos a levar a vida mais discreta
possível. Muitas multinacionais vendem seus produtos na
Colômbia com nome de fantasia
pois temem que uma marca muito conhecida alimente a
inspiração de sabotagem da guerrilha. Entre as grandes
do petróleo, alvo preferencial de atentados, a Texaco
chega a ser apontada como exemplo de coragem
não tem um único posto camuflado. Os executivos dessas
empresas passeiam pelas grandes cidades seguidos por
peruas de guarda-costas em regime de cortejo muito
semelhante ao que se vê, também, no Brasil. A
diferença é que, ali, a segurança privada deu um passo
a mais e chega a interromper o trânsito
para dar passagem a seus clientes.
Católicos
aplicados, que lotam as igrejas aos domingos, os
colombianos são anônimos heróis da resistência, que
tocam a vida, criam os filhos, freqüentam parques e
andam de bicicleta nas manhãs de domingo enquanto
acumulam uma história de sangue e fúria. Nos conflitos
de terra, os grupos paramilitares promoveram setenta
massacres no ano passado um
crescimento de 30% em relação a 1996. O total de mortos
em confronto de natureza política já foi maior, mas
segue altíssimo em 1997 foram 840
vítimas até setembro, último dado disponível. Todo
ano milhares de agricultores são expulsos das terras
onde trabalhavam, passando a vagar à procura de pouso.
Ficam felizes quando o governo arruma casinhas de madeira
e uma área para plantar milho e arroz, como acontece em
Ibagué, a três horas de carro de Bogotá, onde vivem
cinqüenta famílias expulsas de uma província a
milhares de quilômetros. "Os paramilitares
arrombaram a porta de casa, mataram meu marido e o marido
de minha irmã", conta Elizabeth Contreras, 21 anos.
"Eu levei três tiros", diz, mostrando as
cicatrizes.
Quando se liga a TV
no horário nobre aparecem anúncios de 1,5 milhão de
dólares pela captura de personalidades como o líder
guerrilheiro Manuel Marulanda Vélez, conhecido pelo
apelido de "Tiro Fijo" em função de sua
pontaria. Sessentão e barrigudo, Tiro Fijo comanda as
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc,
com 10.000 integrantes, que pagam as contas no fim do
mês roubando fazendeiros e vendendo segurança privada a
agricultores que plantam cocaína
com isso, seus adeptos embolsam mais de um salário
mínimo mensal, uma ajuda preciosa nas zonas mais pobres
do país. A organização também se dedica a seqüestrar
e assassinar prefeitos de pequenas cidades, acusados de
"enemigos del pueblo". Outro tipo é um certo
Cura Perez, missionário espanhol que abandonou a batina
e se tornou comandante do Exército de Libertação
Nacional, o ELN, que tem outra especialidade: extorquir
grandes empresas, seqüestrar executivos, dinamitar
obras. Os oleodutos colombianos já sangraram mais do que
a mancha de petróleo do superpetroleiro Exxon Valdez
no Alasca. Esses grupos seqüestraram dois engenheiros da
Andrade Gutierrez e um técnico da Odebrecht, embolsando,
nas duas operações, uma bolada de 2,7 milhões de
dólares. Vez por outra, desmoralizam o Exército,
seqüestrando soldados em postos de fronteira
que mais tarde são devolvidos às suas famílias sob os
holofotes da TV.
"Os
guerrilheiros têm uma base real no campo e aí é
difícil derrotá-los", admite Gilberto Echeverri, o
ministro da Defesa. Interlocutor de oficiais estrangeiros
que visitam o país, toda vez que um deles se mostra
muito intrigado diante das dificuldades para apanhar os
líderes guerrilheiros, Echeverri retruca, bem-humorado:
"Os americanos também tiveram dificuldades no
Camboja. Passaram trinta anos atrás de Pol Pot". A
violência, na Colômbia, é antiga, mas cada época tem
sua motivação. No início do século, os liberais e os
conservadores, famílias que governam o país desde a
independência, promoveram uma guerra civil com 100.000
mortos numa população de 4 milhões. Na década de 40,
quando havia Juan Domingo Perón na Argentina e Getúlio
Vargas no Brasil, o similar colombiano, Jorge Gaitán, um
advogado de jaquetão e pele de índio, foi abatido a
tiros antes de chegar ao palácio. Como resposta, uma
massa enfurecida foi à rua para incendiar, quebrar,
saquear, esfaquear e matar. Depois disso, abriu-se uma
fase de perseguição política que fez 300.000 mortos em
duas décadas e ficou conhecida como La Violencia.
O debate sobre
cocaína, na Colômbia, é um espelho atrasado da
política do governo americano. Quando Jimmy Carter
acenava com a descriminação das drogas e um Estado, o
Alasca, chegou a legalizar até a produção de maconha,
os colombianos faziam o mesmo. O próprio Ernesto Samper,
na época um promissor tecnocrata com curso de
pós-graduação em Columbia, era um ativo militante
dessa causa. Mais tarde, o governo chegou a autorizar
qualquer pessoa a fazer o câmbio de moeda estrangeira no
país, sem pedir explicações sobre a origem
era um forma de legalizar os fundos do narcotráfico. Uma
década e meia depois que o governo americano transformou
o combate à cocaína numa questão militar, o Exército
colombiano passou a atuar sob supervisão de oficiais dos
Estados Unidos, que também monitoram a atuação da
polícia comum. De passagem por Bogotá, parlamentares
americanos palpitam sem constrangimento sobre virtudes e
defeitos de candidatos à sucessão presidencial. Numa
atitude destinada a rebaixar Samper, o governo americano
chegou a retirar seu visto de entrada no país.

Cultivos
alternativos
Com sua juventude ameaçada, é natural que o governo
americano promova um combate sem trégua mesmo que os
resultados sejam irrisórios. O preço, para os
colombianos, é um Exército sem soberania e
desmoralizado, uma guerrilha que arrumou um ganha-pão
regular, paramilitares que agem na impunidade.
"Assim como a humanidade acabou aceitando o álcool,
é difícil pensar em outra saída que não seja o fim da
repressão e a legalização", diz o jornalista
Antonio Caballero, um dos mais respeitados do país. Para
quem procura utopias, debate-se, na Colômbia, a proposta
de subsidiar cultivos alternativos para convencer o
agricultor que planta coca a mudar de ramo. Ninguém sabe
quanto custaria um investimento desse porte
pela simples razão de que não se conhece negócio tão
lucrativo como a cocaína.
Na prática, os
colombianos assistem ao tempo fazer seu serviço. O
número de quadrilhas de traficantes aumenta, o que
significa que o negócio pode prosperar como fonte de
renda, mas se torna menos centralizado, menos poderoso e
menos perigoso. Surgiram concorrentes internacionais,
como grandes cartéis mexicanos que controlam a fronteira
com os Estados Unidos. É provável que dentro de dez ou
vinte anos o negócio do pó seja menos lucrativo e menos
trágico do que hoje. A questão é saber como estará a
Colômbia até lá.
Correndo
atrás do dinheiro
Surgiram
pedras no caminho dos grandes traficantes de
cocaína. Do triunvirato do Cartel de Medellín,
o único sobrevivente é Carlos Lehder, que
cumpre pena nos Estados Unidos. José Gonzalo
Rodríguez Gacha, que fundou os primeiros grupos
paramilitares com auxílio de mercenários
israelenses e acumulou uma fortuna tão colossal
que ao morrer deixou 63 milhões de dólares em
dinheiro vivo e barras de ouro enterrados em suas
fazendas para "qualquer eventualidade",
foi morto numa operação dirigida pela CIA.
Depois de fugir de uma prisão que ele próprio
havia construído, Pablo Escobar morreu
metralhado num telhado de Medellín, sendo
localizado graças a um grampo telefônico
instalado num hotel de Bogotá onde sua família
se hospedara. Juan Pablo, o filho mais velho de
Escobar, leva uma vida discreta na Colômbia
foi notícia quando tentou, e não conseguiu, um
visto de residência nos Estados Unidos.
Os irmãos
Rodríguez, do Cartel de Cali, que cumprem pena
em Bogotá, são considerados os profissionais do
ramo. Têm fama de civilizados, mas aí já é
injustiça, pois são suspeitos de encomendar 194
mortes. Eles são mais discretos, subornam com
freqüência e generosidade. Também adoram
montar armadilhas para desmoralizar autoridades
que tentam realizar um trabalho sério. Um
oficial do Exército, casado, que andava muito
perto do bando, foi seduzido por uma prostituta
de luxo e, quando chegou a hora conveniente, um
vídeo com cenas de sua noitada entre lençóis
foi enviado para uma emissora de TV e exibido no
horário nobre por um telejornal.
Ninguém
sabe calcular o tamanho da fortuna da família,
mas é verba suficiente para que nem os
tataranetos tenham de se preocupar com a
geladeira, a conta do restaurante, o carro
último tipo e a cobertura em Miami. Aplicados em
manter negócios legais e até produtivos, os
irmãos Rodríguez investem pesado na indústria
química e possuem uma rede de farmácias
bastante conhecida na Colômbia, La Rebaja. Com
uma incorrigível mania de organização, Miguel
Rodríguez mantinha uma contabilidade
organizadíssima sobre seus negócios. Quando
esses papéis caíram nas mãos da polícia, não
foi difícil desvendar a rede de seus sócios.
Quando percebeu que o plano do chefe era
deixá-lo no sereno, o contador de Rodríguez fez
um acordo com a Justiça americana para falar o
que sabia em troca de redução de sua pena. Com
seis filhos de três casamentos, Miguel
Rodríguez fez um único herdeiro em sua
profissão, o primogênito William, cujo batismo
de fogo ocorreu há dois anos
ele foi almoçar num restaurante de Cali, onde
surgiram oito homens armados com pistolas e
metralhadoras que mataram seus dois
guarda-costas. Outros filhos têm curso no
exterior, diploma em Harvard e o projeto de
cuidar dos negócios que o pai conseguir
legalizar.
Indo atrás
do patrimônio dos traficantes, a polícia
encontrou mansões, carros de luxo, hotéis,
lanchas e iates o
total não chega a 2.000 bens, cujo valor fica em
torno de 1,5 bilhão de dólares. Não é grande
coisa. Em 1987 a revista Forbes calculou
que apenas a fortuna de Pablo Escobar alcançara
a marca de 2 bilhões de dólares
e não há dúvida, hoje, de que os irmãos
Rodríguez reuniram um patrimônio ainda maior. A
dificuldade é apontar o dono de verdade por
trás de tantos testas-de-ferro e contas
secretas. Pablo Escobar, por exemplo, era um
cliente tão familiarizado com bancos suíços
que chegava a indicá-los a traficantes
recém-chegados à profissão.
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Os
candidatos
|
O
General
Olhos azuis e ternos
elegantes, o general Harold Bedoya
entrou para a política assim que vestiu o pijama
da reserva, após 42 anos no quartel. Fora dos
partidos tradicionais, construiu uma entidade com
3.500 militantes e, na campanha presidencial, faz
barulho com um discurso radical. Os concorrentes
falam em acordos de paz com a guerrilha, Bedoya,
ao contrário, promete guerra. "Não temos o
que negociar com eles. Temos de submetê-los à
lei, sem medo de usar a força quando
preciso", diz. Bedoya foi o principal
comandante militar sob o governo Samper, mas
deixou o posto metralhando o comandante-chefe.
"Os acordos com a guerrilha fizeram aumentar
a área de plantio da coca", diz ele.
"Por isso somos os primeiros produtores do
mundo."
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A
lutadora
Longe da campanha de
1998, que irá assistir de casa, sem concorrer a
cargo algum, Gloria Quartas tem
38 anos, uma biografia de 343 páginas,
intitulada Por que Não Tem Medo, e um
prêmio de Prefeita da Paz da Unesco por sua
gestão de três anos em Apartadó, cidade de
100.000 habitantes no centro da violência
colombiana. "Foram 1 200 assassinatos em
três anos", conta. "Dezessete
auxiliares meus foram mortos." Glória é
uma militante de esquerda que nunca colocou uma
arma na mão. Na prefeitura, enfrentou
paramilitares que degolaram um menino de menos de
10 anos e depois metralharam uma escola. Para se
proteger com um grupo de crianças, ela se
escondeu embaixo dos móveis, enquanto
funcionários chamavam uma ambulância.
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O herdeiro
O ex-ministro Horácio
Serpa é uma surpresa. Aliado do
presidente Ernesto Samper, desmoralizado pelos
dólares da cocaína, deveria estar em último
lugar nas pesquisas
está em primeiro. Num país onde a política se
faz com sobrenomes tradicionais, com presidente
na árvore genealógica e um jornal em nome da
família, Serpa tem amigos no movimento sindical
e na guerrilha. Para a Colômbia, os Estados
Unidos são o principal parceiro comercial e
também o grande irmão político, que fiscaliza
a polícia e o Exército. Desconfiado de seus
laços com o tráfico, o governo dos EUA já
deixou claro que Serpa terá o mesmo tratamento
dispensado a Samper, que não tem nem visto de
ingresso ao país. Em Bogotá, parlamentares
americanos atacaram sua candidatura. O que
aconteceu? Serpa subiu nas pesquisas.
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