Com uma carreira construída
quase que só de pequenas participações
em produções independentes, a atriz americana
Melissa Leo é um rosto desconhecido da maioria da plateia
e um rosto ao mesmo tempo fechado e mutável,
vincado por marcas profundas e infinitamente interessante,
cuja expressividade é o principal alicerce sobre o
qual se sustenta Rio Congelado(Frozen River,
Estados Unidos, 2008), desde sexta-feira em cartaz no país.
No filme muito bem escrito e dirigido pela estreante Courtney
Hunt, um desses dramas que servem como lembrete para que não
se reclame da vida sem boa razão, Melissa é
Ray, funcionária em meio período de uma loja
de bugigangas, mãe de um menino de 15 anos e de outro
de 5. E também, como se depreende da primeira e belíssima
cena, mulher de um homem que acaba de sumir com o dinheiro
que ela economizara para trocar seu trailer caindo aos pedaços
por um melhor. O marido provavelmente vai voltar, quando sair
de seu transe de apostador compulsivo. Mas Ray sabe que ele
voltará sem o dinheiro, e tarde demais: dentro de alguns
dias, o depósito que ela deu para o novo trailer será
embolsado pelo vendedor por quebra de contrato.
AS INDICAÇÕES
• Atriz - Melissa Leo • Roteiro original
Rodando ansiosa pela cidadezinha
gélida em que mora, vizinha à fronteira com o
Canadá, Ray descobre que o marido abandonou o carro na
rua e que Lila, uma jovem mohawk que mora na reserva indígena
ao lado, se apossou dele sem maior cerimônia. A partir
de um encontro inicial belicoso, Ray e Lila firmam uma parceria,
transportando imigrantes ilegais por sobre o rio que separa
os Estados Unidos do Canadá e que, no inverno, se torna
transitável ao menos para motoristas de sangue
frio ou em completo desespero de causa, como as duas mulheres.
Além do rosto de Melissa e da figura vulnerável
e meio aturdida de Misty Upham, que interpreta Lila, este é
o contraponto que torna o filme uma experiência tão
capaz de se apropriar da atenção e das emoções
do espectador: o contraste entre a intensidade desse desespero
e a aspereza das duas mulheres, entre o desejo materno de proteger
os filhos que move as duas e os riscos insensatos que elas correm,
e entre a pungência da história e a austeridade
com que ela é encenada. Rio Congelado, é
verdade, tem chances próximas de zero de ganhar os Oscar
a que concorre, de atriz e roteiro. Mas que uma produção
tão pequena sequer conste das indicações
é testemunho da força que diretora e intérprete
foram capazes de imprimir a ela.