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fala de miséria, de favela, de violência e de perda mas, em vez de fazer drama, quer provocar alegria. E consegue
Jamal Malik (o estreante Dev Patel), de 18 anos, nasceu numa favela medonha de Mumbai, criou-se numa miséria desesperadora, foi vítima de exploração abjeta e não tem ninguém senão o irmão Salim e mal o tem, já que Salim (Madhur Mittal) enveredou pelo caminho previsível da bandidagem. Mas, por força de sua resistência e de sua serenidade inata, alçou-se no mundo: tem um emprego como chai wallah, ou seja, serve chá aos operadores de um centro de telemarketing. Quando Jamal é visto pela primeira vez, ele está numa situação ainda mais espantosa: acaba de se tornar o primeiro concorrente de um programa de perguntas e respostas a chegar perto do prêmio máximo de 20 milhões de rúpias. Que um favelado que mal foi à escola tenha acertado todas as questões até ali naturalmente desperta suspeitas; pode ser sorte, ou pode também ser fraude. Enquanto um investigador de polícia (o sempre maravilhoso Irrfan Khan) tenta extrair de Jamal a verdade, primeiro sob tortura e depois, quando esta nada tira dele, em uma longa conversa, a explicação pouco a pouco vem à tona as respostas corretas estavam todas contidas, de alguma forma, na vida pregressa de Jamal, uma saga que Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, Inglaterra, 2008), que começa a ser exibido em esquema de pré-estreia no país nesta sexta-feira e entra em circuito nacional no dia 6 de março, vai recuperando e costurando ao presente.
Trata-se de uma vida que, em estado bruto, renderia não um, mas um punhado de melodramas, indo do assassinato da mãe de Jamal e Salim num ataque contra a população muçulmana da favela e da captura dos dois irmãos por um explorador de crianças até as incontáveis vezes em que Jamal reencontra Latika (Freida Pinto), a menina que ele acredita ser seu destino, para então perdê-la de novo, sempre de forma trágica. Mas este filme irrefreável do diretor inglês Danny Boyle não tem tempo nem temperamento para se demorar no sofrimento; o que ele quer é despertar um estado de fé tão antigo que volta a parecer novo a alegria por um menino que nasceu para mover montanhas. Quem Quer Ser um Milionário? (inspirado no livro Sua Resposta Vale um Bilhão, do indiano Vikas Swarup, lançado no Brasil pela Companhia das Letras) é uma celebração e tem sido quase unanimemente entendido como tal, em uma onda que já lhe rendeu sessenta prêmios, uma bilheteria americana surpreendente para uma produção falada boa parte em hindi e dez indicações ao Oscar, no qual toma a dianteira como o favorito. Como todo ponto fora da curva (e as comparações com Cidade de Deus se tornaram inevitáveis, por nenhum motivo mais razoável do que ambos falarem de pobreza e violência nos trópicos), Quem Quer Ser um Milionário? tem suscitado sua cota de objeções. As mais cansadas e cansativas seguem a linha de que é errado dar tratamento pop à miséria, de que um inglês não tem nada que se pretender tradutor das vicissitudes sociais indianas e, claro, de que a aventura de Jamal é impossível. Perder-se nesses desvios, porém, implica perder também tudo aquilo que o filme tem de melhor. Mais de metade dos 19 milhões de habitantes de Mumbai mora em favelas como a de Dharavi, que serviu de cenário à produção, onde casebres desgraçados se equilibram entre lagoas de excrementos e montanhas de lixo; mas essas favelas assustadoras até para o padrão brasileiro concentram uma parte importante da atividade da cidade e, assim como as nacionais, não são povoadas por gente que só pensa na própria tristeza o tempo todo. À maneira indiana, elas são uma possibilidade tratável de vida.
Além disso, Mumbai é uma espécie de cristalização do instante singular que a Índia atravessa, a meio caminho entre uma pobreza e um modo de vida ancestrais e um desenvolvimento econômico avassalador. Não é, nesse sentido, tão diferente da Londres do século XIX que o escritor Charles Dickens retratou em suas histórias de órfãos infelicíssimos que, no desfecho, terminam por vencer as adversidades e Dickens, filtrado pela lente de um diretor que viveu a adolescência em Manchester, no momento em que a cidade se tornou o epicentro europeu da inovação pop, é a inspiração mais presente em Quem Quer Ser um Milionário?. (Os atores que fazem os protagonistas na infância, recrutados em Dharavi e postos na escola pela primeira vez pelos produtores do filme, são um primor dickensiano, genuínos ao mesmo tempo na miséria e na ebuliência infantil.) Por fim, o fato de a aventura de Jamal ser tão improvável é a razão de ser do filme: o desejo de afirmar que o impossível pode ser um estado relativo, não necessariamente absoluto. Se Quem Quer Ser um Milionário? resulta contagiante e não manipulativo, como poderia ter se tornado é porque é tão franco na sua crença em Jamal que não o humilha com o recurso a algum deus ex machina. Jamal lida com as situações que se apresentam com os meios de que dispõe; não vê a si mesmo como uma vítima, mas também não se conforma. É alguém que quer ir em frente, e mirar no melhor. E, para a incredulidade do apresentador do programa (Anil Kapoor, astro de Bollywood), o melhor para Jamal não é o prêmio de 20 milhões de rúpias é apenas tirar Latika da situação que ele deixou para trás, mas da qual ela ainda não conseguiu escapar. Isso, enfim, é o que um diretor inglês, que, como tal, está sim ligado ao subcontinente indiano tanto pelo passado colonialista como pelo presente de imigração, pode traduzir sobre a Índia: sua admiração honesta e incontida pelo país que Jamal simboliza aqui, e que prefere achar um meio de seguir adiante, com o pouco que tem em mãos, a se comiserar com suas desgraças. Que não são poucas e por muito tempo, mas não mais, foram dadas como absolutas.
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