Terapia com células-tronco
sem comprovação
científica fez com que um garoto desenvolvesse
tumores no cérebro e na medula espinhal
Anna Paula Buchalla
Mikhail Metzel/AP
SALADA RUSSA Em clínicas e hospitais
de Moscou, os pacientes funcionavam como cobaias, a exemplo
do que aconteceu com o menino israelense
Pela primeira vez,
um estudo científico associou o uso de células-tronco
fetais ao surgimento de tumores em um ser humano. A vítima
é um garoto israelense, de 17 anos, portador de uma doença
neurodegenerativa rara, a ataxia-telangiectasia. De origem genética,
o distúrbio compromete os movimentos, a fala e tende
a evoluir para a paralisia e a morte. Em 2001, aos 9 anos, contrariando
a opinião de seus médicos, o menino foi levado
por seus pais a Moscou para se submeter a um tratamento sem
nenhuma comprovação científica, para conter
o avanço da doença: o uso de células-tronco
de fetos abortados. Sem apresentar melhoras significativas em
seu quadro clínico, ele voltaria ao hospital russo mais
duas vezes uma em 2002 e outra em 2004. No ano seguinte,
por causa de fortes dores de cabeça, o menino foi submetido
a uma ressonância magnética. Os médicos
do Centro Médico Sheba, de Tel-Aviv, encontraram um tumor
no cérebro e outro na medula espinhal justamente
os locais onde foram implantadas as células-tronco fetais.
Em artigo publicado na última edição da
revista científica PLoS Medicine, os médicos
relatam que, mediante a análise dos genes dos tumores,
encontraram pelo menos duas linhagens diferentes de células.
Uma delas era de origem feminina e a outra não apresentava
a mutação característica da ataxia-telangiectasia.
Ou seja, ambas são fruto das células fetais transplantadas.
"Ao que tudo indica, esse rapaz recebeu um coquetel de
células-tronco de origens diversas", diz a geneticista
Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo.
Há pelo menos
duas centenas de clínicas espalhadas em países
como China, Rússia e Ucrânia que se utilizam de
células-tronco para o tratamento das mais diferentes
doenças, sem nenhum aval da ciência. Algumas vendem
até o fim das rugas e da celulite. As células-tronco
são aquelas capazes de se transformar em praticamente
quaisquer tecidos do corpo humano. As mais versáteis
são as embrionárias e as fetais. É delas
que esses médicos se valem para vender falsas esperanças
a pacientes vítimas de males crônicos e incuráveis.
O problema é que até hoje nenhum protocolo sério
de pesquisa atestou a segurança dessas terapias em seres
humanos. Isso porque tais células se multiplicam de maneira
rápida e desordenada, o que pode acarretar o surgimento
de tumores, como no caso do garoto israelense. As únicas
experiências clínicas válidas foram feitas
com células-tronco adultas, retiradas da medula do próprio
paciente o que evita o risco de rejeição
e outras complicações. "Os doentes têm,
sim, muito a perder com as terapias que não são
fruto de pesquisas científicas sérias", diz
a geneticista Lygia da Veiga Pereira. As primeiras pesquisas
com células-tronco embrionárias em seres humanos,
sob estrito controle científico, devem ter início
ainda neste ano nos Estados Unidos e na Inglaterra.
De alto risco
e sem o aval da ciência
Cerca
de 200 clínicas e hospitais oferecem tratamentos
à base de células-tronco embrionárias
e fetais
Os mais
procurados ficam na Rússia, China e Ucrânia
A maioria
dos pacientes é portadora de doenças neurológicas,
distúrbios cardiovasculares e doenças genéticas
40%
desses centros oferecem também tratamentos estéticos,
especialmente contra rugas e celulite