|
|
Cinema Da
arte de manipular Crime Delicado se
anuncia como transgressivo, mas fetichiza a amputação de sua
atriz  Isabela
Boscov
Priscila
Prade/divulgação
 | | Antônio
(Ricca) tenta seduzir Inês (Lilian): véus que cobrem e descobrem
|
Crime Delicado
(Brasil, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, é
um dos filmes mais arrogantes do cinema brasileiro recente e também
um dos que mais travestem a desonestidade intelectual em provocação.
Essa desonestidade aparece na maneira como ele aborda a deficiência física
da atriz Lilian Taublib, submetida anos atrás a uma amputação
radical da perna direita, na altura do quadril. Num filme que supostamente tem
entre seus alvos a hipocrisia, causa indignação constatar a fetichização
dessa deficiência. O conceito de fetichização diz respeito
ao feitiço que se empresta a algo por meio de um jogo de signos e simulações.
É assim que o filme aborda a amputação de Lilian: ele a cobre
e descobre de véus. Dessa forma, acaba por impingir ao espectador uma curiosidade
mórbida, em vez de simplesmente lhe permitir a angústia ou a tristeza
que não haveria vergonha nenhuma em admitir diante de uma extirpação
tão extrema, e numa mulher tão jovem e bela. Intimamente ligada
a essa manipulação está a arrogância do diretor Beto
Brant. Ele se arvora em herdeiro de velhas atitudes modernistas, como a busca
do choque e a afronta aos "sentimentos burgueses". Para fazer seu sermão,
contudo, não abriu mão de um ator da Globo, do financiamento público,
da lógica do marketing e da espetacularização.
Adaptado do romance homônimo de Sérgio Sant'Anna, Crime Delicado
traz Lilian como Inês, musa e objeto de paixão do pintor José
(o pintor mexicano Felipe Ehrenberg) e do crítico teatral Antônio
(Marco Ricca). José é uma figura vívida, enquanto Antônio
personifica a esterilidade emocional. Ao conhecer Inês, esse último
se apaixona de imediato, porque ela encarna o atrito entre o perfeito e o imperfeito
que ele percebe ser, afinal, uma qualidade primordial da arte e da vida. Determinado
a proteger Inês do que julga ser sua exploração suas
poses com e para José resultam em cenas de sexo e também na exposição
de sua deficiência , ele termina por insultá-la e então
estuprá-la. A relação de Inês com o artista José
é de uma fecundidade que Antônio jamais poderá compreender,
porque vive de emitir sentenças sobre aquilo que é incapaz de criar.
Na contraposição maniqueísta de Antônio e José,
o que o filme exalta não é o potencial libertador e transgressivo
da arte, mas, sim, narcisicamente, a figura do artista.
Há em Crime Delicado uma espécie de depoimento em que o personagem
José se confunde com Ehrenberg (que de fato produziu as pinturas que aparecem
no filme). Nesse trecho o artista plástico afirma que posar nu, junto com
a modelo, torna ambos idênticos no poder e na vulnerabilidade. De acordo
com declarações de Lilian Taublib, a experiência de fazer
o filme foi, para ela, tão compensadora e libertadora quanto a de ser retratada
em sua nudez é para Inês. O mesmo paralelo entre José e Brant,
contudo, é impossível. Em momento nenhum o diretor se desnuda: num
filme (uma arte cada vez mais "industrial") o equilíbrio de forças
não existe. Induzir à conclusão de que ele se repete na tela
da mesma forma que nos quadros de Ehrenberg é impostura. |