Edição 1940 . 25 de janeiro de 2006

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Cinema
Da arte de manipular

Crime Delicado se anuncia como transgressivo,
mas fetichiza a amputação de sua atriz


Isabela Boscov

Priscila Prade/divulgação
Antônio (Ricca) tenta seduzir Inês (Lilian): véus que cobrem e descobrem


C
rime Delicado (Brasil, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, é um dos filmes mais arrogantes do cinema brasileiro recente – e também um dos que mais travestem a desonestidade intelectual em provocação. Essa desonestidade aparece na maneira como ele aborda a deficiência física da atriz Lilian Taublib, submetida anos atrás a uma amputação radical da perna direita, na altura do quadril. Num filme que supostamente tem entre seus alvos a hipocrisia, causa indignação constatar a fetichização dessa deficiência. O conceito de fetichização diz respeito ao feitiço que se empresta a algo por meio de um jogo de signos e simulações. É assim que o filme aborda a amputação de Lilian: ele a cobre e descobre de véus. Dessa forma, acaba por impingir ao espectador uma curiosidade mórbida, em vez de simplesmente lhe permitir a angústia ou a tristeza que não haveria vergonha nenhuma em admitir diante de uma extirpação tão extrema, e numa mulher tão jovem e bela. Intimamente ligada a essa manipulação está a arrogância do diretor Beto Brant. Ele se arvora em herdeiro de velhas atitudes modernistas, como a busca do choque e a afronta aos "sentimentos burgueses". Para fazer seu sermão, contudo, não abriu mão de um ator da Globo, do financiamento público, da lógica do marketing e da espetacularização.

Adaptado do romance homônimo de Sérgio Sant'Anna, Crime Delicado traz Lilian como Inês, musa e objeto de paixão do pintor José (o pintor mexicano Felipe Ehrenberg) e do crítico teatral Antônio (Marco Ricca). José é uma figura vívida, enquanto Antônio personifica a esterilidade emocional. Ao conhecer Inês, esse último se apaixona de imediato, porque ela encarna o atrito entre o perfeito e o imperfeito que ele percebe ser, afinal, uma qualidade primordial da arte e da vida. Determinado a proteger Inês do que julga ser sua exploração – suas poses com e para José resultam em cenas de sexo e também na exposição de sua deficiência –, ele termina por insultá-la e então estuprá-la. A relação de Inês com o artista José é de uma fecundidade que Antônio jamais poderá compreender, porque vive de emitir sentenças sobre aquilo que é incapaz de criar. Na contraposição maniqueísta de Antônio e José, o que o filme exalta não é o potencial libertador e transgressivo da arte, mas, sim, narcisicamente, a figura do artista.

Há em Crime Delicado uma espécie de depoimento em que o personagem José se confunde com Ehrenberg (que de fato produziu as pinturas que aparecem no filme). Nesse trecho o artista plástico afirma que posar nu, junto com a modelo, torna ambos idênticos no poder e na vulnerabilidade. De acordo com declarações de Lilian Taublib, a experiência de fazer o filme foi, para ela, tão compensadora e libertadora quanto a de ser retratada em sua nudez é para Inês. O mesmo paralelo entre José e Brant, contudo, é impossível. Em momento nenhum o diretor se desnuda: num filme (uma arte cada vez mais "industrial") o equilíbrio de forças não existe. Induzir à conclusão de que ele se repete na tela da mesma forma que nos quadros de Ehrenberg é impostura.

 
 
 
 
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