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Cinema Falso
cinema-verdade Munique, de
Steven Spielberg, erra ao casar entretenimento com a história da caçada
de Israel aos terroristas que mataram seus atletas nos Jogos Olímpicos
de 1972  Isabela
Boscov
Divulgação
 | Kurt
Strumpf/AFP
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Os cinco agentes secretos preparam-se para a caçada
a mais um terrorista (à esquerda, a imagem real de um deles,
na Vila Olímpica): muita ação, nenhum ponto de
vista |
Na madrugada
de 5 de setembro de 1972, oito homens vestidos com agasalhos de ginástica
pularam uma grade na Vila Olímpica de Munique, invadiram o alojamento da
delegação israelense e fizeram a maior parte de seus atletas
onze ao todo, todos aqueles que não conseguiram fugir reféns.
Dois foram mortos na reação inicial. Os outros nove viraram moeda
de troca: de acordo com as exigências dos seqüestradores, recrutados
na Síria, na Jordânia e no Líbano, eles só sairiam
com vida mediante a libertação de 234 palestinos presos em Israel,
além de dois terroristas alemães, membros do grupo Baader-Meinhof,
aprisionados na própria Alemanha. O governo israelense foi taxativo
não negociaria com terroristas. Mas as autoridades alemãs, para
quem era um pesadelo ter judeus ameaçados de morte em seu território,
no primeiro grande evento internacional que o país sediava desde a II Guerra,
decidiram tentar alguma saída. As 21 horas seguintes foram uma demonstração
estarrecedora de inépcia e erros de julgamento por parte dos alemães.
Elas culminariam numa batalha num dos aeroportos da cidade, com o saldo de todos
os reféns israelenses assassinados, cinco terroristas mortos e os três
restantes encarcerados. As conseqüências do atentado especificamente
a caça do Mossad, o serviço secreto de Israel, aos direta ou indiretamente
envolvidos nele são o tema de Munique (Munich,
Estados Unidos, 2005), de Steven Spielberg, que estréia nesta sexta-feira
no país. Uma coisa, ao menos, o filme tem em comum com a realidade dos
fatos: é confuso e causa grande insatisfação.
O atentado de Munique foi um dos pontos decisivos da história recente.
Foi ele que transformou a causa palestina em tema global, e não meramente
regional. Foi ele que esclareceu que o terrorismo não mais transitava entre
fronteiras geográficas, mas ia aonde seus alvos estivessem. E foi ele também
que deu origem a um tipo de ação que tornaria o Mossad célebre:
o assassinato seletivo de terroristas. Essa estratégia, sancionada pela
então primeira-ministra Golda Meir, nasceu em boa medida do que se julgou
ser uma resposta decepcionante, se não ofensiva, ao crime cometido contra
Israel. No serviço fúnebre realizado na Vila Olímpica em
6 de setembro (durante o qual as bandeiras de muitos dos países árabes
não desceram a meio mastro em sinal de luto), o presidente do Comitê
Olímpico Internacional não fez sequer menção aos atletas
mortos. O chamado do secretário-geral da ONU, Kurt Waldheim, para uma ação
mais decisiva contra o terrorismo foi derrotado pela tese de que essa era uma
forma de luta legítima contra males maiores. Os cinco terroristas mortos
foram enterrados com honras de Estado. E, dois meses depois daquele dia fatídico,
os três palestinos presos na Alemanha foram trocados pelos passageiros de
um jato seqüestrado da Lufthansa no que, tem-se razoável certeza,
foi uma armação dos alemães para se livrar daquela batata
quente. Diante desses dados, Golda Meir decidiu
que era preciso que Israel fizesse sua própria justiça. Criaram-se,
para tanto, comandos os kidon, ou baioneta, em hebraico com
a missão de localizar os responsáveis pelo atentado e eliminá-los
com precisão tão cirúrgica quanto possível. Outro
fator crucial era que os kidon fossem "avulsos", sem ligação
detectável com o Estado israelense. É a formação e
atuação de uma dessas células que Spielberg dramatiza (com
base no depoimento de um suposto participante delas) em Munique, do recrutamento
de Avner (Eric Bana), ex-guarda-costas de Meir, para liderá-la, ao seu
relacionamento com os quatro companheiros e a perseguição tortuosa,
sob intenso risco de vida, aos onze alvos de sua lista. E lista, aqui, é
a palavra-chave. De início, o procedimento do kidon guarda interesse
considerável. Mercenários são atraídos para revelar
o paradeiro dos terroristas; organizam-se operações que dependem
até nos menores detalhes da versatilidade e da sintonia entre os membros
do grupo; e assassinam-se alvos com métodos que não fariam má
figura nos mais imaginativos filmes de espionagem um deles é morto
ao atender o telefone, com sua mulher e filha cuidadosamente colocadas fora do
alcance da bomba. Não demora, porém, para que essa sucessão
de operações comece a parecer tão emocionante quanto riscar
os itens de uma lista de supermercado, e as inevitáveis dores de consciência
que começam a surgir entre os israelenses não fazem nada para atenuar
a sensação de que se está vendo apenas mais da mesma coisa.
O problema central de Munique é que
ele transpira o pavor de Spielberg de que alguém venha a acusá-lo
de ter um ponto de vista no credo corrente em Hollywood, pontos de vista
são péssimos para os negócios. A idéia é agradar
a todo mundo, sempre. Surpreendentemente, o roteiro do dramaturgo Tony Kushner,
de Angels in America, sofre desse mesmo mal. Na sua simetria previsível
e rasteira, que faz aqui as vezes de imparcialidade, tanto israelenses quanto
palestinos: a) têm família; b) sentem-se acuados; c) são,
no geral, homens de bem pressionados a medidas desesperadas; d) matam porque,
em seu julgamento, o inimigo matou antes. Nessa atmosfera benevolente e sufocantemente
ingênua, não há idéia atilada que possa respirar ou
saída que se possa vislumbrar a única que Munique
tem a oferecer é a tradicional, a do aeroporto, já que ao fim de
tudo o líder Avner conclui que Israel não é um lugar seguro
e que o melhor é morar no Brooklyn, em Nova York. Munique
é, enfim, um exemplo dos erros que se podem cometer ao casar "mensagens"
e assuntos "importantes" com entretenimento em larga escala. Não se alcança
nem uma coisa nem outra, e tudo fica com a mesma cara. Seria interessante esclarecer,
por exemplo, que hoje se tem quase certeza de que tanto os terroristas libertados
na Alemanha quanto os cérebros por trás do atentado se refugiaram
atrás da Cortina de Ferro ou nas profundezas dos países árabes
mais radicais, onde o Mossad nunca poderia atingi-los e não foram,
portanto, eliminados, como se propagou. Os assassinados pelos comandos seriam,
na maior parte, terroristas de segundo escalão que circulavam pela Europa
e pelo Líbano. Em casos como o que Munique quer retratar, a realidade
é sempre mais intrigante e perturbadora do que a sua ficcionalização.
Como programa, a melhor sugestão permanece o documentário Um
Dia em Setembro, do escocês Kevin Macdonald, em que o único terrorista
sobrevivente, Jamal Al Gashey, saiu pela primeira vez da sombra para dizer: "Não
me arrependo".
Enquanto isso, em Israel e na Palestina... Divulgação
 | | Ali
Suliman como um dos homens-bomba de Paradise Now: uma guerra moral, e não
de terrorismo, surtiria mais efeito, defende o filme palestino |
Se Munique padece da falta de um ponto de vista, o mesmo não
pode ser dito de dois outros filmes sobre o conflito entre Israel e Palestina
que estréiam nesta sexta-feira no país e que, embora venham
dos lados opostos da questão, têm muito em comum a dizer sobre ela.
Em Free Zone, do israelense Amos Gitai, uma americana de origem israelense
(Natalie Portman, dona de dupla nacionalidade também na vida civil) entra
no táxi de uma motorista de Jerusalém e a acompanha numa viagem
à Jordânia, onde a taxista vai cobrar uma dívida de uma palestina.
De situações mais previsíveis, como as crises pessoais das
protagonistas e a diferença de tratamento nas fronteiras nervoso
e volátil na de Israel, amigável e descuidado na da Jordânia
, Gitai prossegue para um entrecho genuinamente rico: o misto de compreensão,
intimidação, cumplicidade e sedução com que a palestina
e a israelense (Hiam Abbass e Hanna Laslo, ambas excelentes) tratam de seu problema.
Tantos recursos para cuidar de negócios o título se refere
a uma zona franca na Jordânia, nas proximidades do Iraque, da Síria
e da Arábia Saudita e, graças ao ciclo de sangue instalado
entre os dois povos, tão poucos para negociar qualquer outra coisa.
Mais original ainda é Paradise Now, de Hany Abu-Assad, candidato
da Palestina à indicação para o Oscar de filme estrangeiro.
Khaled e Said, amigos desde a infância, trabalham juntos numa oficina mecânica,
conversam sobre mulheres, brigam e brincam com seus irmãos caçulas,
reclamam do emprego uma normalidade que, de um instante para outro, é
alterada com a notícia de que ambos foram escalados para uma missão
suicida em Tel-Aviv, no dia seguinte. Nesse pequeno espaço de tempo, Khaled
e Said (Ali Suliman e Kais Nashef, também eles excelentes atores) têm
de se despedir intimamente de sua vida e, claro, reavaliar a decisão que
lhes parecia tão natural antes de se concretizar. O diretor Abu-Assad não
endossa o fenômeno dos homens-bomba palestinos. Antes, lamenta-o profundamente,
mas não deixa de entender o tipo de fervor, frustração e
sentido de injustiça que o alimenta. Em discretos paralelos com a história
de Jesus uma alusão à Santa Ceia, outra ao Jardim das Oliveiras
, ele faz recordar que, nesse mesmo território, há 2 000 anos,
também os judeus, que fundavam a nova religião cristã, se
rebelaram contra uma ocupação dolorosa. Mas, por intermédio
desses mesmos paralelos e da intervenção de Suha, uma jovem cujo
pai foi herói da resistência e por isso mesmo a deixou órfã,
o diretor lembra que o sucesso do cristianismo residiu em revidar aos romanos
não com atos terroristas, mas com uma guerra moral. | |
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