Edição 1940 . 25 de janeiro de 2006

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Cinema
Falso cinema-verdade

Munique, de Steven Spielberg, erra ao casar
entretenimento com a história da caçada de
Israel aos terroristas que mataram seus
atletas nos Jogos Olímpicos de 1972


Isabela Boscov

 
Divulgação
Kurt Strumpf/AFP

Os cinco agentes secretos preparam-se para a caçada a mais um terrorista (à esquerda, a imagem real de um deles, na Vila Olímpica): muita ação, nenhum ponto de vista


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Fotos do filme

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Trailer

Na madrugada de 5 de setembro de 1972, oito homens vestidos com agasalhos de ginástica pularam uma grade na Vila Olímpica de Munique, invadiram o alojamento da delegação israelense e fizeram a maior parte de seus atletas – onze ao todo, todos aqueles que não conseguiram fugir – reféns. Dois foram mortos na reação inicial. Os outros nove viraram moeda de troca: de acordo com as exigências dos seqüestradores, recrutados na Síria, na Jordânia e no Líbano, eles só sairiam com vida mediante a libertação de 234 palestinos presos em Israel, além de dois terroristas alemães, membros do grupo Baader-Meinhof, aprisionados na própria Alemanha. O governo israelense foi taxativo – não negociaria com terroristas. Mas as autoridades alemãs, para quem era um pesadelo ter judeus ameaçados de morte em seu território, no primeiro grande evento internacional que o país sediava desde a II Guerra, decidiram tentar alguma saída. As 21 horas seguintes foram uma demonstração estarrecedora de inépcia e erros de julgamento por parte dos alemães. Elas culminariam numa batalha num dos aeroportos da cidade, com o saldo de todos os reféns israelenses assassinados, cinco terroristas mortos e os três restantes encarcerados. As conseqüências do atentado – especificamente a caça do Mossad, o serviço secreto de Israel, aos direta ou indiretamente envolvidos nele – são o tema de Munique (Munich, Estados Unidos, 2005), de Steven Spielberg, que estréia nesta sexta-feira no país. Uma coisa, ao menos, o filme tem em comum com a realidade dos fatos: é confuso e causa grande insatisfação.

O atentado de Munique foi um dos pontos decisivos da história recente. Foi ele que transformou a causa palestina em tema global, e não meramente regional. Foi ele que esclareceu que o terrorismo não mais transitava entre fronteiras geográficas, mas ia aonde seus alvos estivessem. E foi ele também que deu origem a um tipo de ação que tornaria o Mossad célebre: o assassinato seletivo de terroristas. Essa estratégia, sancionada pela então primeira-ministra Golda Meir, nasceu em boa medida do que se julgou ser uma resposta decepcionante, se não ofensiva, ao crime cometido contra Israel. No serviço fúnebre realizado na Vila Olímpica em 6 de setembro (durante o qual as bandeiras de muitos dos países árabes não desceram a meio mastro em sinal de luto), o presidente do Comitê Olímpico Internacional não fez sequer menção aos atletas mortos. O chamado do secretário-geral da ONU, Kurt Waldheim, para uma ação mais decisiva contra o terrorismo foi derrotado pela tese de que essa era uma forma de luta legítima contra males maiores. Os cinco terroristas mortos foram enterrados com honras de Estado. E, dois meses depois daquele dia fatídico, os três palestinos presos na Alemanha foram trocados pelos passageiros de um jato seqüestrado da Lufthansa – no que, tem-se razoável certeza, foi uma armação dos alemães para se livrar daquela batata quente.

Diante desses dados, Golda Meir decidiu que era preciso que Israel fizesse sua própria justiça. Criaram-se, para tanto, comandos – os kidon, ou baioneta, em hebraico – com a missão de localizar os responsáveis pelo atentado e eliminá-los com precisão tão cirúrgica quanto possível. Outro fator crucial era que os kidon fossem "avulsos", sem ligação detectável com o Estado israelense. É a formação e atuação de uma dessas células que Spielberg dramatiza (com base no depoimento de um suposto participante delas) em Munique, do recrutamento de Avner (Eric Bana), ex-guarda-costas de Meir, para liderá-la, ao seu relacionamento com os quatro companheiros e a perseguição tortuosa, sob intenso risco de vida, aos onze alvos de sua lista. E lista, aqui, é a palavra-chave. De início, o procedimento do kidon guarda interesse considerável. Mercenários são atraídos para revelar o paradeiro dos terroristas; organizam-se operações que dependem até nos menores detalhes da versatilidade e da sintonia entre os membros do grupo; e assassinam-se alvos com métodos que não fariam má figura nos mais imaginativos filmes de espionagem – um deles é morto ao atender o telefone, com sua mulher e filha cuidadosamente colocadas fora do alcance da bomba. Não demora, porém, para que essa sucessão de operações comece a parecer tão emocionante quanto riscar os itens de uma lista de supermercado, e as inevitáveis dores de consciência que começam a surgir entre os israelenses não fazem nada para atenuar a sensação de que se está vendo apenas mais da mesma coisa.

O problema central de Munique é que ele transpira o pavor de Spielberg de que alguém venha a acusá-lo de ter um ponto de vista – no credo corrente em Hollywood, pontos de vista são péssimos para os negócios. A idéia é agradar a todo mundo, sempre. Surpreendentemente, o roteiro do dramaturgo Tony Kushner, de Angels in America, sofre desse mesmo mal. Na sua simetria previsível e rasteira, que faz aqui as vezes de imparcialidade, tanto israelenses quanto palestinos: a) têm família; b) sentem-se acuados; c) são, no geral, homens de bem pressionados a medidas desesperadas; d) matam porque, em seu julgamento, o inimigo matou antes. Nessa atmosfera benevolente e sufocantemente ingênua, não há idéia atilada que possa respirar ou saída que se possa vislumbrar – a única que Munique tem a oferecer é a tradicional, a do aeroporto, já que ao fim de tudo o líder Avner conclui que Israel não é um lugar seguro e que o melhor é morar no Brooklyn, em Nova York.

Munique é, enfim, um exemplo dos erros que se podem cometer ao casar "mensagens" e assuntos "importantes" com entretenimento em larga escala. Não se alcança nem uma coisa nem outra, e tudo fica com a mesma cara. Seria interessante esclarecer, por exemplo, que hoje se tem quase certeza de que tanto os terroristas libertados na Alemanha quanto os cérebros por trás do atentado se refugiaram atrás da Cortina de Ferro ou nas profundezas dos países árabes mais radicais, onde o Mossad nunca poderia atingi-los – e não foram, portanto, eliminados, como se propagou. Os assassinados pelos comandos seriam, na maior parte, terroristas de segundo escalão que circulavam pela Europa e pelo Líbano. Em casos como o que Munique quer retratar, a realidade é sempre mais intrigante e perturbadora do que a sua ficcionalização. Como programa, a melhor sugestão permanece o documentário Um Dia em Setembro, do escocês Kevin Macdonald, em que o único terrorista sobrevivente, Jamal Al Gashey, saiu pela primeira vez da sombra para dizer: "Não me arrependo".

 

Enquanto isso, em Israel e na Palestina...

Divulgação
Ali Suliman como um dos homens-bomba de Paradise Now: uma guerra moral, e não de terrorismo, surtiria mais efeito, defende o filme palestino


Se Munique padece da falta de um ponto de vista, o mesmo não pode ser dito de dois outros filmes sobre o conflito entre Israel e Palestina que estréiam nesta sexta-feira no país – e que, embora venham dos lados opostos da questão, têm muito em comum a dizer sobre ela. Em Free Zone, do israelense Amos Gitai, uma americana de origem israelense (Natalie Portman, dona de dupla nacionalidade também na vida civil) entra no táxi de uma motorista de Jerusalém e a acompanha numa viagem à Jordânia, onde a taxista vai cobrar uma dívida de uma palestina. De situações mais previsíveis, como as crises pessoais das protagonistas e a diferença de tratamento nas fronteiras – nervoso e volátil na de Israel, amigável e descuidado na da Jordânia –, Gitai prossegue para um entrecho genuinamente rico: o misto de compreensão, intimidação, cumplicidade e sedução com que a palestina e a israelense (Hiam Abbass e Hanna Laslo, ambas excelentes) tratam de seu problema. Tantos recursos para cuidar de negócios – o título se refere a uma zona franca na Jordânia, nas proximidades do Iraque, da Síria e da Arábia Saudita – e, graças ao ciclo de sangue instalado entre os dois povos, tão poucos para negociar qualquer outra coisa.

Mais original ainda é Paradise Now, de Hany Abu-Assad, candidato da Palestina à indicação para o Oscar de filme estrangeiro. Khaled e Said, amigos desde a infância, trabalham juntos numa oficina mecânica, conversam sobre mulheres, brigam e brincam com seus irmãos caçulas, reclamam do emprego – uma normalidade que, de um instante para outro, é alterada com a notícia de que ambos foram escalados para uma missão suicida em Tel-Aviv, no dia seguinte. Nesse pequeno espaço de tempo, Khaled e Said (Ali Suliman e Kais Nashef, também eles excelentes atores) têm de se despedir intimamente de sua vida e, claro, reavaliar a decisão que lhes parecia tão natural antes de se concretizar. O diretor Abu-Assad não endossa o fenômeno dos homens-bomba palestinos. Antes, lamenta-o profundamente, mas não deixa de entender o tipo de fervor, frustração e sentido de injustiça que o alimenta. Em discretos paralelos com a história de Jesus – uma alusão à Santa Ceia, outra ao Jardim das Oliveiras –, ele faz recordar que, nesse mesmo território, há 2 000 anos, também os judeus, que fundavam a nova religião cristã, se rebelaram contra uma ocupação dolorosa. Mas, por intermédio desses mesmos paralelos e da intervenção de Suha, uma jovem cujo pai foi herói da resistência e por isso mesmo a deixou órfã, o diretor lembra que o sucesso do cristianismo residiu em revidar aos romanos não com atos terroristas, mas com uma guerra moral.

 
 
 
 
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