Edição 1940 . 25 de janeiro de 2006

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Olho de Rei não é um mau romance.
Mas o autor se dá melhor no conto


Beatriz Resende

Divulgação
Edgard Telles Ribeiro: memórias mirabolantes do "pai" francês
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Trecho do livro


O recém-lançado romance Olho de Rei (Record; 272 páginas; 32,90 reais), do escritor e diplomata Edgard Telles Ribeiro, começa com uma curiosa apresentação "editorial". O texto é assinado por um certo E.T.R. (Edgard Telles Ribeiro?) Lafitte, que se diz responsável pela organização das memórias do pai, o francês Jean Lafitte. A estratégia narrativa não é nova: tem rendido alguns dos bons momentos da ficção brasileira, de Memorial de Aires, no qual Machado de Assis assina como "M. de A." a Advertência que antecede o diário do Conselheiro, até o último romance de Bernardo Carvalho, Mongólia. Incompletas, as memórias de Jean Lafitte foram escritas na sua cidade natal, Marselha, à qual ele retornou depois de anos de exílio na América Latina. A velhice e a proximidade da morte desse ex-militante da resistência francesa permitem que seus sonhos e fantasias se misturem aos fatos biográficos. Nessa mistura de imaginação e casos "reais", revela-se a habilidade de um escritor que, desde a estréia com o romance O Criado-Mudo, em 1991, vem alternando narrativas longas e coletâneas de contos. Olho de Rei, porém, também deixa indicações de que é mesmo no conto que Telles Ribeiro está no seu elemento.

A vida do personagem organiza-se por diferentes episódios, determinados sobretudo pelos impulsos eróticos que o reúnem a parceiras interessantíssimas, como a surda-muda que lhe apresenta os subúrbios do Rio de Janeiro. Cada um desses casos revela a destreza do autor em conduzir rapidamente ao clímax, construindo situações e ambientes que seduzem o leitor – como acontecia com os contos de O Livro das Pequenas Infidelidades, de 1994. Só é uma pena que, obrigado a carregar consigo tantos outros personagens e peripécias, o protagonista sucumba ao peso excessivo. Ele perde seu charme maior, o de ser um homem comum – mordomo, cabeleireiro, garçom, dono de restaurante. Vivendo uma profusão de situações arrebatadoras, Jean acaba se parecendo com um improvável herói de filme de ação.

 
 
 
 
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