|
|
Exposição
Ossos que fascinam
Com fósseis vindos de várias partes do mundo, os dinossauros
são tema de uma mostra como nunca se viu no Brasil 
Marcelo Marthe
Fotos divulgação  |
SUCHOMIMUS Encontrado
no Deserto do Saara, seu crânio lembra o de um crocodilo. Alimentava-se
de peixes de 2 metros |
O
americano Stephen Jay Gould, que morreu em 2002 e foi um dos principais teóricos
da biologia no século XX, gostava de contar que teve o primeiro lampejo
de sua vocação aos 5 anos de idade, numa visita ao Museu de História
Natural de Nova York. Assombrar-se com o esqueleto de um tiranossauro rex, o mais
famoso predador da era dos dinossauros, fez com que anos mais tarde ele se voltasse
à exploração dos fósseis (muito embora sua especialidade
fossem modestos caramujos). Como Gould, os brasileiros sobretudo as crianças
também terão uma chance de se maravilhar com os grandes répteis
que dominaram a Terra há mais de 65 milhões de anos. A mostra Dinos
na Oca, que será inaugurada em São Paulo nesta quinta-feira,
é o maior evento sobre o tema já realizado no país. Numa
época em que as idéias do naturalista inglês Charles Darwin
estão novamente sob bombardeio de religiosos, nada mais oportuno que uma
exposição como essa. Pois, para além de diversão,
trata-se de ciência: como o próprio Jay Gould ajudou a demonstrar
em suas pesquisas, a ascensão e queda dos dinossauros ilustra de maneira
enfática a teoria da evolução proposta por Darwin. Parte
do acervo de 400 peças vem do Project Exploration, fundação
americana que tem como diretor o paleontólogo Paul Sereno, um misto de
cientista e Indiana Jones (o aventureiro vivido por Harrison Ford no cinema).
De lá foram trazidas réplicas em tamanho natural de grandes dinossauros,
entre outros itens. Orçada em 7 milhões de reais, a mostra terá
ainda fósseis oriundos da Argentina e uma panorâmica dos achados
brasileiros nessa área.
 |  |
AMAZONSAURO Oriundo
do Maranhão, é o dinossauro herbívoro mais antigo do Brasil.
Pesava 10 toneladas | TIRANOSSAURO REX
A mostra terá uma réplica do crânio
do mais famoso dinossauro carnívoro |
Nos últimos anos, foram feitas muitas descobertas
sobre os hábitos e a evolução desses bichos, graças
a escavações em lugares até então inexplorados, como
a África e a América do Sul, e a novas técnicas de pesquisa,
como a tomografia computadorizada. "O estudo dos dinossauros passou por uma revolução",
diz Luiz Eduardo Anelli, paleontólogo da Universidade de São Paulo
(USP) e curador brasileiro da mostra. Como se verifica em Dinos na Oca,
Paul Sereno foi um dos grandes responsáveis por essas novidades, por suas
descobertas e suas teses sobre a evolução dos dinossauros. Além
de cientista de verdade, Sereno que deverá visitar o Brasil em fevereiro
é um mestre do marketing. Já foi eleito uma das cinqüenta
pessoas mais bonitas dos Estados Unidos pela revista People e está
à frente de uma instituição lucrativa: o Project Exploration
fatura com as palestras de seu criador, a franquia de suas exposições
e a venda de réplicas de dinossauros a museus e colecionadores.
As expedições de Sereno ao
Deserto do Saara, nos anos 90, trouxeram à luz espécies como o Jobaria,
réptil herbívoro que habitava os bosques que existiam no local
há 135 milhões de anos, no período cretáceo. Com 22
metros de comprimento, é o maior bicho da exposição. Ao lado
da réplica de seu esqueleto, poderão ser vistos os fósseis
de seus fêmures, de 1,5 metro de altura (o que é um privilégio:
as ossadas originais desses animais são de transporte arriscado e raramente
deixam os museus a que pertencem). Os dinossauros carnívoros também
estão representados. Embora o acervo inclua apenas a réplica do
crânio de um tiranossauro rex bicho que ganhou certa aura pop com
o filme Parque dos Dinossauros (1993), de Steven Spielberg , a fundação
de Sereno emprestou fósseis de outros que rivalizavam com ele em tamanho
e ferocidade. É o caso do afrovenator, um bípede de cabeça
enorme e 8 metros de comprimento que viveu na época do Jobaria e
era predador deste. Há ainda o Suchomimus, que tinha 11 metros e
cujo crânio lembra o dos crocodilos. Como estes, ele ficava na beira dos
rios, à espreita de suas presas: peixes com mais de 2 metros de comprimento.
Scott Olson/Getty Images  |
| Paul Sereno, com uma de suas descobertas: cientista respeitado
e bom de marketing |
Junto com pesquisadores argentinos, Sereno também
fez explorações importantes na Patagônia região
que, aparentemente, foi o berço dos dinossauros. Ali foram encontrados,
nos anos 90, os fósseis do eoraptor e do herrerassauro, os dois representantes
mais antigos desses répteis de que se tem notícia. Eles remontam
a 225 milhões de anos e eram predadores de pequeno porte, se comparados
aos dinos que lhes sucederam o maior deles não passava de 2,5 metros
de altura. Na exposição, será mostrada uma reconstituição
do ambiente em que viviam.
 |
| O Jobaria, descoberto na África: o maior
esqueleto da mostra, com 22 metros |
O Brasil foi habitat de muitas espécies pré-históricas
e também assistiu a avanços nas explorações nos últimos
anos. Durante os 160 milhões de anos em que os dinossauros dominaram a
Terra, boa parte do território brasileiro era ocupada por um imenso deserto.
Na área onde hoje é o interior paulista viviam crocodilos gigantes
como o Baurusuchus salgadoensis do qual serão exibidos os
ossos originais e uma réplica do crânio. Com 3 metros de comprimento,
ele se alimentava de tudo o que passasse a seu alcance, inclusive pequenos dinossauros.
Da região do atual Maranhão se origina outro fóssil: o amazonsauro,
réptil herbívoro que existiu há 110 milhões de anos,
tinha 10 metros de comprimento e pesava 10 toneladas. O destaque da ala brasileira
são as descobertas feitas na Chapada do Araripe, no Ceará, um dos
campos de estudo mais importantes do mundo foi um grande reduto, por exemplo,
dos pterossauros. Além de fósseis desses répteis alados que
eram parentes dos dinossauros, também vem de lá uma coleção
de mais de 100 peixes fossilizados em rochas, predadores que atingiam 2 metros
de comprimento. A nota triste é que essas últimas peças só
chegaram ao Museu de Geociências da USP por ter sido apreendidas com contrabandistas
um crime que vem dilapidando esse patrimônio. |