Edição 1940 . 25 de janeiro de 2006

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Exposição
Ossos que fascinam

Com fósseis vindos de várias
partes do mundo, os dinossauros
são tema de uma mostra como
nunca se viu no Brasil


Marcelo Marthe


Fotos divulgação
SUCHOMIMUS
Encontrado no Deserto do Saara, seu crânio lembra o de um crocodilo. Alimentava-se de peixes de 2 metros

EXCLUSIVO ON-LINE
Outras imagens de dinossauros
Serviço

O americano Stephen Jay Gould, que morreu em 2002 e foi um dos principais teóricos da biologia no século XX, gostava de contar que teve o primeiro lampejo de sua vocação aos 5 anos de idade, numa visita ao Museu de História Natural de Nova York. Assombrar-se com o esqueleto de um tiranossauro rex, o mais famoso predador da era dos dinossauros, fez com que anos mais tarde ele se voltasse à exploração dos fósseis (muito embora sua especialidade fossem modestos caramujos). Como Gould, os brasileiros – sobretudo as crianças – também terão uma chance de se maravilhar com os grandes répteis que dominaram a Terra há mais de 65 milhões de anos. A mostra Dinos na Oca, que será inaugurada em São Paulo nesta quinta-feira, é o maior evento sobre o tema já realizado no país. Numa época em que as idéias do naturalista inglês Charles Darwin estão novamente sob bombardeio de religiosos, nada mais oportuno que uma exposição como essa. Pois, para além de diversão, trata-se de ciência: como o próprio Jay Gould ajudou a demonstrar em suas pesquisas, a ascensão e queda dos dinossauros ilustra de maneira enfática a teoria da evolução proposta por Darwin. Parte do acervo de 400 peças vem do Project Exploration, fundação americana que tem como diretor o paleontólogo Paul Sereno, um misto de cientista e Indiana Jones (o aventureiro vivido por Harrison Ford no cinema). De lá foram trazidas réplicas em tamanho natural de grandes dinossauros, entre outros itens. Orçada em 7 milhões de reais, a mostra terá ainda fósseis oriundos da Argentina e uma panorâmica dos achados brasileiros nessa área.


AMAZONSAURO
Oriundo do Maranhão, é o dinossauro herbívoro mais antigo do Brasil. Pesava 10 toneladas
TIRANOSSAURO REX
A mostra terá uma réplica do crânio do mais famoso dinossauro carnívoro

Nos últimos anos, foram feitas muitas descobertas sobre os hábitos e a evolução desses bichos, graças a escavações em lugares até então inexplorados, como a África e a América do Sul, e a novas técnicas de pesquisa, como a tomografia computadorizada. "O estudo dos dinossauros passou por uma revolução", diz Luiz Eduardo Anelli, paleontólogo da Universidade de São Paulo (USP) e curador brasileiro da mostra. Como se verifica em Dinos na Oca, Paul Sereno foi um dos grandes responsáveis por essas novidades, por suas descobertas e suas teses sobre a evolução dos dinossauros. Além de cientista de verdade, Sereno – que deverá visitar o Brasil em fevereiro – é um mestre do marketing. Já foi eleito uma das cinqüenta pessoas mais bonitas dos Estados Unidos pela revista People e está à frente de uma instituição lucrativa: o Project Exploration fatura com as palestras de seu criador, a franquia de suas exposições e a venda de réplicas de dinossauros a museus e colecionadores.

As expedições de Sereno ao Deserto do Saara, nos anos 90, trouxeram à luz espécies como o Jobaria, réptil herbívoro que habitava os bosques que existiam no local há 135 milhões de anos, no período cretáceo. Com 22 metros de comprimento, é o maior bicho da exposição. Ao lado da réplica de seu esqueleto, poderão ser vistos os fósseis de seus fêmures, de 1,5 metro de altura (o que é um privilégio: as ossadas originais desses animais são de transporte arriscado e raramente deixam os museus a que pertencem). Os dinossauros carnívoros também estão representados. Embora o acervo inclua apenas a réplica do crânio de um tiranossauro rex – bicho que ganhou certa aura pop com o filme Parque dos Dinossauros (1993), de Steven Spielberg –, a fundação de Sereno emprestou fósseis de outros que rivalizavam com ele em tamanho e ferocidade. É o caso do afrovenator, um bípede de cabeça enorme e 8 metros de comprimento que viveu na época do Jobaria e era predador deste. Há ainda o Suchomimus, que tinha 11 metros e cujo crânio lembra o dos crocodilos. Como estes, ele ficava na beira dos rios, à espreita de suas presas: peixes com mais de 2 metros de comprimento.


Scott Olson/Getty Images
Paul Sereno, com uma de suas descobertas: cientista respeitado – e bom de marketing

Junto com pesquisadores argentinos, Sereno também fez explorações importantes na Patagônia – região que, aparentemente, foi o berço dos dinossauros. Ali foram encontrados, nos anos 90, os fósseis do eoraptor e do herrerassauro, os dois representantes mais antigos desses répteis de que se tem notícia. Eles remontam a 225 milhões de anos e eram predadores de pequeno porte, se comparados aos dinos que lhes sucederam – o maior deles não passava de 2,5 metros de altura. Na exposição, será mostrada uma reconstituição do ambiente em que viviam.

O Jobaria, descoberto na África: o maior esqueleto da mostra, com 22 metros

O Brasil foi habitat de muitas espécies pré-históricas e também assistiu a avanços nas explorações nos últimos anos. Durante os 160 milhões de anos em que os dinossauros dominaram a Terra, boa parte do território brasileiro era ocupada por um imenso deserto. Na área onde hoje é o interior paulista viviam crocodilos gigantes como o Baurusuchus salgadoensis – do qual serão exibidos os ossos originais e uma réplica do crânio. Com 3 metros de comprimento, ele se alimentava de tudo o que passasse a seu alcance, inclusive pequenos dinossauros. Da região do atual Maranhão se origina outro fóssil: o amazonsauro, réptil herbívoro que existiu há 110 milhões de anos, tinha 10 metros de comprimento e pesava 10 toneladas. O destaque da ala brasileira são as descobertas feitas na Chapada do Araripe, no Ceará, um dos campos de estudo mais importantes do mundo – foi um grande reduto, por exemplo, dos pterossauros. Além de fósseis desses répteis alados que eram parentes dos dinossauros, também vem de lá uma coleção de mais de 100 peixes fossilizados em rochas, predadores que atingiam 2 metros de comprimento. A nota triste é que essas últimas peças só chegaram ao Museu de Geociências da USP por ter sido apreendidas com contrabandistas – um crime que vem dilapidando esse patrimônio.

 
 
 
 
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