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Saúde A
branquinha que dá um branco Um
estudo brasileiro mostra como a cocaína causa danos à atividade
cerebral  Paula
Neiva
A cocaína está entre as
quatro drogas ilícitas mais consumidas no país. Calcula-se que aproximadamente
180.000 brasileiros façam uso abusivo da substância. Ou seja, eles
cheiram ou injetam cocaína no mínimo uma vez por mês
um comportamento perigoso, que pode causar danos irreversíveis ao cérebro.
Para compreender melhor as conseqüências do uso da droga na atividade
cerebral, um grupo de pesquisadores do Programa de Orientação e
Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
desenvolveu um estudo pioneiro, com o uso de exames de neuroimagem. Cerca de trinta
pacientes entre 20 e 40 anos, que utilizavam a droga por no mínimo onze
meses e no máximo três anos, participaram da pesquisa. Trata-se do
maior grupo de usuários já analisado em um trabalho desse tipo.
Os resultados confirmaram que a droga prejudica o funcionamento do cérebro
como um todo, mas mostram que ela compromete principalmente o lobo frontal. Essa
região é responsável, entre outras funções,
pela criatividade, pelo controle da impulsividade e pelo senso crítico.
"Isso explica alguns comportamentos muito comuns entre os viciados, como mudanças
repentinas de humor e surtos de agressividade, por exemplo", diz o psiquiatra
Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do estudo.
A razão para a afinidade da cocaína com a região frontal
do cérebro ainda não foi totalmente desvendada. Os cientistas acreditam
que esteja relacionada à diferença de concentração
de dopamina, um neurotransmissor associado à sensação de
bem-estar, entre as regiões cerebrais. Os receptores de dopamina, aqueles
mais suscetíveis à ação da cocaína, são
mais abundantes no lobo frontal. O que se sabe com certeza é que a cocaína
é um potente vasoconstritor, ou seja, ela provoca uma contração
das artérias, especialmente as cerebrais. Dessa forma, sobra menos espaço
para o sangue circular. Além disso, a constrição agride as
paredes dos vasos e as deixa mais vulneráveis à pressão feita
pelo fluxo sanguíneo. Com isso, a probabilidade de um derrame aumenta.
Ou de vários pequenos derrames, que, embora muitas vezes imperceptíveis,
podem ter um efeito devastador se somados ao longo do tempo. De acordo com os
autores do estudo brasileiro, esses miniderrames são os responsáveis
pela perda gradativa de atividade cerebral notada entre os usuários de
cocaína. Os dados mostraram
ainda que o principal fator de risco para o desenvolvimento de seqüelas é
o tempo de exposição à droga, e não a quantidade de
droga que se utiliza (não se está falando de overdose, evidentemente).
Ou seja, quanto maior o tempo de consumo de cocaína, maiores os prejuízos
para o cérebro. "O estudo brasileiro é uma importante contribuição
para entender os efeitos da cocaína a longo prazo", disse a VEJA o psiquiatra
americano Charles Grob, professor da Universidade da Califórnia. As conclusões
da pesquisa também valem para outras drogas, como o ecstasy e o crack. |