Edição 1940 . 25 de janeiro de 2006

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Saúde
A branquinha que dá um branco

Um estudo brasileiro mostra
como a cocaína causa danos
à atividade cerebral


Paula Neiva

A cocaína está entre as quatro drogas ilícitas mais consumidas no país. Calcula-se que aproximadamente 180.000 brasileiros façam uso abusivo da substância. Ou seja, eles cheiram ou injetam cocaína no mínimo uma vez por mês – um comportamento perigoso, que pode causar danos irreversíveis ao cérebro. Para compreender melhor as conseqüências do uso da droga na atividade cerebral, um grupo de pesquisadores do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveu um estudo pioneiro, com o uso de exames de neuroimagem. Cerca de trinta pacientes entre 20 e 40 anos, que utilizavam a droga por no mínimo onze meses e no máximo três anos, participaram da pesquisa. Trata-se do maior grupo de usuários já analisado em um trabalho desse tipo. Os resultados confirmaram que a droga prejudica o funcionamento do cérebro como um todo, mas mostram que ela compromete principalmente o lobo frontal. Essa região é responsável, entre outras funções, pela criatividade, pelo controle da impulsividade e pelo senso crítico. "Isso explica alguns comportamentos muito comuns entre os viciados, como mudanças repentinas de humor e surtos de agressividade, por exemplo", diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do estudo.

A razão para a afinidade da cocaína com a região frontal do cérebro ainda não foi totalmente desvendada. Os cientistas acreditam que esteja relacionada à diferença de concentração de dopamina, um neurotransmissor associado à sensação de bem-estar, entre as regiões cerebrais. Os receptores de dopamina, aqueles mais suscetíveis à ação da cocaína, são mais abundantes no lobo frontal. O que se sabe com certeza é que a cocaína é um potente vasoconstritor, ou seja, ela provoca uma contração das artérias, especialmente as cerebrais. Dessa forma, sobra menos espaço para o sangue circular. Além disso, a constrição agride as paredes dos vasos e as deixa mais vulneráveis à pressão feita pelo fluxo sanguíneo. Com isso, a probabilidade de um derrame aumenta. Ou de vários pequenos derrames, que, embora muitas vezes imperceptíveis, podem ter um efeito devastador se somados ao longo do tempo. De acordo com os autores do estudo brasileiro, esses miniderrames são os responsáveis pela perda gradativa de atividade cerebral notada entre os usuários de cocaína.

Os dados mostraram ainda que o principal fator de risco para o desenvolvimento de seqüelas é o tempo de exposição à droga, e não a quantidade de droga que se utiliza (não se está falando de overdose, evidentemente). Ou seja, quanto maior o tempo de consumo de cocaína, maiores os prejuízos para o cérebro. "O estudo brasileiro é uma importante contribuição para entender os efeitos da cocaína a longo prazo", disse a VEJA o psiquiatra americano Charles Grob, professor da Universidade da Califórnia. As conclusões da pesquisa também valem para outras drogas, como o ecstasy e o crack.

 

 
 
 
 
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