Edição 1940 . 25 de janeiro de 2006

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Saúde
Brincadeira e boa forma

Perder os quilinhos extras e relaxar nos
spas agora também é programa de criança


Paula Neiva

 

Fotos Lailson dos Santos

Custódio II (à esq.), 8 anos, brinca com outras crianças na piscina do Spa Sorocaba: o objetivo é perder 3 quilos até o fim do mês


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Endereços dos spas

Quando os spas viraram moda no Brasil, no início dos anos 90, a maioria deles se recusava a receber crianças. O argumento era que elas faziam barulho demais e irritavam os clientes já estressados pela luta contra a balança e com o cardápio à base de alface e peixe magro. Nos últimos tempos, isso mudou. Spa virou programa também para crianças. Dos trinta maiores spas brasileiros, quinze já as aceitam. Mantêm atividades – e às vezes instalações – específicas para elas. A presença infantil nos spas é especialmente intensa nos meses de janeiro e julho, que correspondem às férias escolares. Em vez de levarem a garotada à praia ou à montanha, muitos pais optam pela ida a um spa, sobretudo quando a família inteira precisa perder uns quilinhos. Além disso, essa é uma oportunidade para as crianças tomarem gosto pelas atividades físicas e se habituarem a uma alimentação mais saudável. "Aqui existem muitas opções de lazer e a comida é boa. Eu e meu filho estamos nos divertindo ao mesmo tempo em que cuidamos da saúde", conta o empresário Mauro Angelo Custódio Filho, pai de Mauro Angelo Custódio II, de 8 anos, que há duas semanas tira férias no Spa Sorocaba, no interior de São Paulo. O garoto está um pouco acima do peso e seu objetivo é perder 3 quilos até o fim do mês.

Muitas vezes, a temporada no spa é sugerida pelos próprios filhos, preocupados com a aparência. O ideal de corpo magro e bem torneado, promovido pelas modelos e pelas celebridades, contagia as crianças desde cedo. "Nunca atendemos tantas crianças como nos últimos anos", diz o cardiologista Manoel Carlos Beldi Castanho, diretor clínico do Spa Sorocaba. "Hoje, elas chegam aqui para perder 4 ou 5 quilos, já preocupadas com a estética", comenta ele. Já existem spas voltados especialmente para a criançada. Dois deles, o Shalia Day Spa, em Brasília, e o Nick Name, em São Paulo, seguem o modelo day spa, em que o cliente fica no local apenas um dia para fazer tratamentos estéticos e relaxamento, além de receber orientações de dieta. O Shalia também atende adultos, mas criou uma ala só para a garotada. Oferece banhos relaxantes e massagens em cima de tatames. O spa Nick Name foi inaugurado no ano passado e recebe mais de dez crianças por dia, quase sempre menores de 10 anos. Elas tomam banho de ofurô, fazem massagem e também utilizam serviço de manicure e cabeleireiro. A empresária Márcia De Lucca, dona de um centro de ioga em São Paulo, leva sua neta Lívia Almeida, de 3 anos, pelo menos uma vez por mês ao Nick Name. "Quando ela faz o tratamento, fica mais relaxada o resto do dia e dorme melhor à noite", diz Márcia.

 

Rodrigo, 13 anos, almoça no spa Lapinha: em pouco mais de uma semana, perdeu 3 quilos e, agora, quer enxugar mais 7 Lívia, 3 anos, toma banho de ofurô no spa Nick Name: segundo a avó, ela dorme melhor depois do tratamento

As atividades programadas para as crianças nos spas de emagrecimento são semelhantes às dos adultos. A diferença é que a dieta dos pequenos costuma ser mais calórica e os exercícios físicos mais recreativos, incluindo jogos coletivos. A Lapinha Clínica e Spa Naturista, perto de Curitiba, oferece um programa para pré-adolescentes no período das férias escolares. Quando o programa foi implantado, há oito anos, reunia de dez a quinze pré-adolescentes a partir dos 11 anos. Hoje, são mais de sessenta. "Muitos pais trazem seus filhos porque querem incentivá-los a comer mais verdura e tirá-los da frente da TV e da internet", diz Dieter Brepohl, presidente do Lapinha. Duas semanas atrás, o paulista Rodrigo Schroeder Ribeiro, de 13 anos, foi com os pais à Lapinha porque a família inteira (com exceção de uma irmã) precisava perder peso. Durante nove dias, o grupo fez muito exercício e recebeu orientação de nutricionistas e psicólogos sobre como se alimentar direito e controlar a ansiedade para não assaltar a geladeira. Nesse período, Rodrigo perdeu 3 quilos e, agora, quer perder mais 7. "Vou continuar seguindo uma dieta e fazer muito exercício", ele promete.

Os médicos especialistas em emagrecimento vêem os tratamentos infantis em spas com ressalvas. Durante a fase de crescimento, é natural e saudável que as crianças engordem gradualmente. Perder muito peso num curto espaço de tempo pode prejudicar esse processo e até afetar a estatura final. "Mesmo que a criança emagreça no spa, se a família não mudar seus hábitos no dia-a-dia, ela engordará tudo de novo", adverte Antonio Roberto Chacra, professor titular de endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo. Ainda assim, para as crianças, conseguir em pouco tempo um corpo esbelto é uma idéia irresistível.

 

 

O fim do efeito sanfona?

Photodisc


O maior desafio de quem emagrece é continuar magro. Calcula-se que até 80% das pessoas que fazem regime e perdem peso voltam a engordar. Mas esse indesejado emagrece-engorda, mais conhecido como efeito sanfona, pode estar com os dias contados. A ciência encontrou evidências de que o hormônio leptina, produzido pelas células de gordura, guarda uma relação estreita com a manutenção do peso – o que poderá ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos para o problema. Um estudo publicado por médicos da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos, mostrou que a redução de 10% ou mais do peso corporal provoca uma baixa nos níveis de leptina no sangue. A queda interfere na produção de enzimas e outros hormônios, como os da tireóide, o que dá início a uma série de reações orquestradas pelo sistema nervoso central. Esse tumulto é traduzido pelo organismo como uma ameaça às suas reservas energéticas, e o resultado é a diminuição em até 30% do gasto calórico. A lógica é simples: com o metabolismo desacelerado, fica mais difícil manter-se magro.

Para chegar a essas conclusões, os médicos americanos acompanharam um grupo de voluntários que incluía obesos e pessoas que nunca haviam tido problemas com a balança. Todos foram submetidos a uma dieta de baixa caloria e perderam 10% do peso corporal. Depois de atingir a meta, apenas uma parte deles recebeu duas injeções diárias de leptina, com a quantidade exata para restabelecer as taxas individuais do hormônio verificadas antes do emagrecimento. Esse foi o grupo com a maior taxa de sucesso na manutenção do novo peso. Ou seja, a leptina, ao que tudo indica, pode ser uma forte aliada contra o efeito sanfona. "O trabalho mostra que os sistemas corporais que regulam o peso são muito sensíveis às variações de leptina", diz o endocrinologista Geraldo Medeiros, professor da Universidade de São Paulo. "Essa conclusão abre um novo caminho para os tratamentos contra a obesidade."

O nome leptina deriva do termo leptos, que em grego significa "magro". A substância ficou conhecida em meados da década de 90 como o "hormônio da saciedade", depois que um estudo com ratos mostrou que doses extras de leptina evitavam o ganho de peso. Criou-se, então, a expectativa de que ela proporcionaria a fabricação de um remédio que seria a bala mágica contra a obesidade. As esperanças nesse sentido foram torpedeadas quando ficou demonstrado que o hormônio funcionava apenas para um pequeno número de obesos e que, na maioria dos casos, eles desenvolviam resistência à sua ação depois de algumas semanas. Com isso, as pesquisas sobre os efeitos positivos da leptina caíram em descrédito. Agora, o estudo da Universidade Colúmbia a reabilita – não como bala mágica, mas como uma possível linha auxiliar na manutenção de quem já perdeu os quilos a mais.

 
 
 
 
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