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Saúde
O turismo do bisturi
Atraídos por preços
baixos, cada
vez mais estrangeiros vêm ao Brasil
para ir ao médico

Ruth Costas
Fernando Cavalcanti
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ANDREA BOPE
34 anos, americana
A publicitária do
Texas vem todos os anos ao Brasil para visitar a cunhada e
aproveita para fazer aplicações de Botox em
uma clínica paulista
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Um novo tipo de turista estrangeiro
começa a se tornar significativo no Brasil: aquele que, além
de sol, praia e água-de-coco, também está à
procura de um nariz novo, um sorriso perfeito ou tratamento para
um problema de saúde. Os gastos médicos feitos por
esse tipo de visitante triplicaram nos últimos seis anos.
De acordo com a Embratur, 30.000 turistas vêm ao país
exclusivamente para fazer tratamento médico ou estético,
cinco vezes mais que há três anos. Outros tantos vêm
a negócios, para visitar amigos ou simplesmente fazer turismo
e aproveitam para consultar um médico, arrumar os
dentes ou aplicar Botox. "Considerando todos os visitantes que unem
férias convencionais a tratamentos de saúde, o número
pode facilmente dobrar", diz José Antonio de Lima, presidente
da Associação Nacional de Hospitais Privados. O aumento
no número de pacientes estrangeiros é confirmado pelo
movimento em hospitais e clínicas de maior prestígio.
No ano passado, o Hospital Israelita Albert Einstein, de São
Paulo, atendeu 9.000 pessoas residentes no exterior, 10% mais que
no ano anterior.
Quatro fatores incentivam um
estrangeiro a procurar médicos ou hospitais brasileiros.
O primeiro é o custo menor dos serviços de saúde
por aqui, se comparado com o de países desenvolvidos. Uma
cirurgia de redução do estômago chega a ser
três vezes mais cara nos Estados Unidos. Com a diferença
de preço, dá para pagar os gastos com hotel, passagem,
alimentação, passeios e até sobra algum dinheiro.
O segundo motivo é o prestígio de especialistas e
clínicas nacionais em determinadas áreas médicas,
como a cirurgia plástica, de longe a especialidade mais popular.
Em média, 12.000 estrangeiros se submetem a cirurgias plásticas
no Brasil por ano. Outras áreas bastante procuradas são
odontologia, oncologia, reprodução assistida, cardiologia,
medicina estética e cirurgia de redução do
estômago.
Everton Ballardin
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ARNALDO CAMBIAGHI
ginecologista
Especialista em fertilização, ele tem um acordo
com uma agência de viagens que reserva flats e carro e
leva os pacientes para passeios turísticos |
Um terceiro fator é, digamos, o calor humano. "Nossas consultas
são mais demoradas, conversamos mais e somos mais abertos
a entender o que o paciente quer, enquanto na Europa o relacionamento
é mais frio", diz a dermatologista paulista Ligia Kogos,
que tem como clientes muitas alemãs, suecas, dinamarquesas
e holandesas. São principalmente aeromoças, que, quando
passam alguns dias na capital paulista, aproveitam para aplicar
Botox e fazer peelings leves. A cirurgia plástica e estética
foi, por sinal, a primeira especialidade brasileira a chamar atenção
no exterior. Desde os anos 60, a Clínica Ivo Pitanguy, no
Rio de Janeiro, é um centro de referência internacional.
"Nos Estados Unidos, os especialistas brasileiros em tratamentos
estéticos são conhecidos pela qualidade, equivalente
à dos americanos, com a vantagem de cobrarem a metade do
preço", diz a americana Andrea Bope, de 34 anos. Publicitária
no Texas, ela veio visitar uma cunhada que vive em São Paulo
e aproveitou para fazer aplicações de Botox no rosto.
O quarto atrativo da medicina
brasileira é a disposição para adotar novos
tratamentos e procedimentos. Em muitos países, a postura
médica é mais conservadora ou a legislação
impõe restrições que não existem no
Brasil. Na Itália, por exemplo, são proibidos a doação
de esperma, a barriga de aluguel e o embrião congelado. A
inseminação artificial só é autorizada
a casais heterossexuais que comprovem relacionamento estável.
A ausência de restrições desse tipo estimula
casais italianos a cruzar o oceano para fazer tratamentos de fertilização
in vitro no Brasil. Nos Estados Unidos, médicos e dentistas
evitam certas intervenções cirúrgicas arriscadas,
com medo de se verem processados por pacientes insatisfeitos. O
implante dentário, por exemplo, que não dá
o resultado desejado em 15% dos casos, é uma fonte de encrencas.
"Atendo um bom número de pacientes indicados por colegas
americanos, que preferem recusar determinados tratamentos", diz
o dentista paulista Mario Lutfi Filho. Ele oferece aos americanos
um pacote completo, que inclui, além do tratamento dentário,
a hospedagem em flat e carro com motorista. A Sociedade Brasileira
de Odontologia Estética estima que, no ano passado, 1.500
turistas vieram fazer implantes, clarear os dentes e colocar facetas
de porcelana, os serviços mais procurados. "O Brasil também
exporta um padrão de beleza, que é representado por
modelos como Gisele Bündchen", analisa o dentista carioca Marcelo
Fonseca. "Isso ajuda a atrair a atenção para nossa
medicina estética."
Oscar Cabral
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FEFA FERNANDEZ
PEREZ
74 anos, espanhola
Veio ao Brasil só para fazer cirurgia plástica
com uma médica indicada por amiga brasileira
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Muitos médicos e hospitais brasileiros oferecem comodidades
especiais aos pacientes estrangeiros. Graças a uma parceria
estabelecida com uma agência de viagens, o ginecologista paulista
Arnaldo Cambiaghi, especialista em reprodução assistida,
providencia para seus pacientes desconto em hotéis, carros
com motorista, intérpretes para as consultas e passeios turísticos.
Ele recebe em média três clientes estrangeiros por
mês. "Nossos índices de sucesso na fertilização
in vitro equivalem aos alcançados na Europa e nos Estados
Unidos, com a vantagem de sair mais barato", diz Cambiaghi.
Europeus e americanos procuram
sobretudo cirurgias plásticas e clínicas de dermatologia
especializadas em tratamentos de beleza. Sul-americanos em geral
estão atrás de especialidades como oncologia e cardiologia.
A permanência média dos pacientes estrangeiros no Brasil
é de 22 dias e o gasto médio diário per capita
é de 120 dólares, mais alto que o de qualquer outro
grupo de turistas. O fluxo mais bem organizado vem dos Estados Unidos,
onde opera meia dúzia de agências especializadas. Uma
delas, a Cosmetic Vacations, com sede em Miami, enviou nos últimos
dois anos 2.000 pacientes americanos para cirurgiões plásticos
brasileiros. A maioria dos turistas, contudo, ainda vem por conta
própria, atraída pela propaganda boca a boca. A espanhola
Fefa Fernandez Perez, de 74 anos, está aproveitando o Rio
depois de fazer um pacote completo de cirurgia plástica com
uma médica indicada por uma amiga brasileira. Ela retocou
os olhos, o nariz e o pescoço, colocou silicone nos seios
e, para arrematar, submeteu-se a uma lipoaspiração.
"Volto para casa com a aparência de uma mulher dez anos mais
nova", comemora Fefa.
Saeed Khan/AFP
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Família árabe
deixa o Hospital Bumrungrad, na Tailândia, que recebe
350 000 pacientes estrangeiros por ano: hospital com serviço
de hotel cinco-estrelas
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Apesar do crescimento nos últimos anos, o Brasil permanece
muito distante da Tailândia, a líder mundial desse
mercado entre os países em desenvolvimento. No ano passado,
o país asiático faturou meio bilhão de dólares
com serviços médicos prestados a estrangeiros. O mega-hospital
Bumrungrad, em Bangcoc, que recebe 350.000 pacientes estrangeiros
por ano, oferece o conforto de um hotel cinco-estrelas a quem aguarda
cirurgias ou faz um check-up. A maioria dos clientes vem da Ásia,
do Oriente Médio e dos Estados Unidos. Os 40 milhões
de americanos que não dispõem da cobertura de um plano
de saúde e precisam pagar do próprio bolso por tratamentos
médicos são, por sinal, os clientes mais cobiçados
pelos médicos do Terceiro Mundo. O governo indiano recentemente
criou um visto especial para os turistas em busca de tratamentos
de saúde. Mais simples de ser obtido, permite ao paciente
e acompanhante estender o prazo de estada por até um ano.
No ano passado, cinco hospitais o Hospital do Coração,
o Sírio-Libanês e o Samaritano, em São Paulo,
o Hospital Brasília, no Distrito Federal, e o Moinhos de
Vento, em Porto Alegre criaram um consórcio que investirá
1,5 milhão de reais na divulgação dos serviços
de saúde brasileiros na América Latina, na África
e no Oriente Médio. São regiões cheias de clientes
em potencial para médicos e hospitais do Brasil.
Com reportagem de
Letícia Sorg e José Eduardo Barella
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