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Internacional
Novos-ricos do Leste
A Europa Oriental ganha cor
com os bilhões dos investidores

José Eduardo Barella
Sean Gallup/Getty Images
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| Fábrica de componentes eletrônicos
na República Checa: impostos baixos Estudantes em universidade
de Riga: 78% querem emigrar |
O
que faz o Leste Europeu receber mais investimentos externos que
o Brasil? Apenas quinze anos atrás, esses países viviam
sob o jugo do comunismo a tradução disso, em
termos de produção de riquezas, eram um sistema econômico
ineficiente e um parque industrial improdutivo. O cenário
atual é inteiramente diferente. Perdeu o tom cinzento e ganhou
cor. Juntos, Polônia, Hungria, República Checa, Eslováquia,
Eslovênia, Lituânia, Estônia, Letônia, Romênia
e Bulgária receberam 26 bilhões de dólares
de investimentos externos em 2004, um aumento de 22% em relação
a 2000. Entre as nações em desenvolvimento, só
a China recebeu mais. O Brasil, que tem quase o dobro da população
somada de todos e um território quase do tamanho da Europa,
ficou com 18 bilhões de dólares. O crescimento médio
das economias da Europa Oriental em 2005 é estimado em 5,2%,
quatro vezes superior ao dos países europeus que adotam o
euro como moeda comum.
O efeito imediato desse salto
econômico pode ser sentido no fluxo migratório dentro
da União Européia. Quando oito países da Europa
Oriental aderiram ao bloco, em 2004 (Romênia e Bulgária
vão entrar em 2007), os membros mais antigos temiam uma invasão
de mão-de-obra barata vinda do Leste. O que se vê,
na verdade, é um fluxo no sentido contrário
não de pessoas, mas de multinacionais que estão instalando
fábricas e escritórios no Leste Europeu. Três
fatores transformaram a região na queridinha dos investidores
externos. O primeiro são a abundância e o baixo custo
da mão-de-obra qualificada. Os regimes comunistas do Leste
Europeu deixaram como herança boas universidades, com foco
acadêmico em ciências exatas e na formação
de técnicos para o setor industrial. A juventude da Polônia
está entre as mais instruídas do mundo. No ano passado,
460.000 poloneses receberam o diploma de curso superior o
Brasil, com uma população quatro vezes maior, formou
530.000 universitários no mesmo período. Para completar,
o salário médio de um engenheiro na Polônia
é apenas um décimo do pago na Alemanha, e sua produtividade
(em horas de trabalho semanais), 30% maior. Empresas como IBM, Intel,
Motorola e Siemens perceberam as vantagens e instalaram, só
na Polônia, trinta centros de pesquisa e desenvolvimento de
produtos.
O segundo fator que explica o
boom econômico são a proximidade geográfica
e a integração com a União Européia,
que abriu para o Leste um mercado de 500 milhões de consumidores
com alto padrão aquisitivo. O terceiro fator são os
baixos impostos cobrados das empresas. A média da região
é de 19%, contra 29% na Europa Ocidental e 34% no Brasil,
o que reflete a preocupação do bloco em atrair capital
estrangeiro. Os dez países oferecem ainda estabilidade política,
economia desregulamentada e investimentos em infra-estrutura de
transporte e de telecomunicações. Nada mais lógico
para uma multinacional do que se instalar no Leste para vender a
produção na Europa Ocidental. Pelo menos sete fabricantes
automobilísticos e outras 400 indústrias de autopeças
montaram linhas de produção nos países da região.
As facilidades estão estimulando a chegada de empresas voltadas
para o setor de serviços e de tecnologia de ponta. A DHL,
a gigante americana de entregas expressas, instalou em Praga, na
República Checa, um de seus três centros mundiais.
A maior parte dos investimentos estrangeiros na Bulgária
é de empresas de desenvolvimento de software.
Os investimentos são muito
recentes para resolver em definitivo alguns problemas do Leste Europeu,
como o desemprego elevado. O índice médio nesses países
fica entre 10% e 15%. Na Polônia, chega a 20%. Uma das razões
são as mudanças no mercado de trabalho, resultado
dos ajustes exigidos pela transição do comunismo para
a economia de mercado. A indústria obsoleta não resistiu
à concorrência ocidental depois da queda do Muro de
Berlim. Os governos desses países investiam basicamente na
formação de mão-de-obra para a indústria
pesada e muito pouco para os setores de serviços e administrativo,
duas áreas nas quais hoje há grande oferta de emprego.
Essa distorção ainda não foi corrigida. A demanda
por algumas profissões cresceu, enquanto outras perderam
importância. Na Hungria, sobram engenheiros. Já na
República Checa, na Eslovênia, na Bulgária e
na Eslováquia há mais vagas disponíveis para
administradores do que candidatos capacitados. Outra razão
para o desemprego elevado está no peso da economia informal,
entre 30% e 40% da população economicamente ativa
nesses países. "A economia informal é estimulada por
outra conseqüência do boom econômico da região:
a invasão de imigrantes de países próximos,
como Ucrânia, Moldávia, Bielo-Rússia, Macedônia
e Rússia, em busca de trabalho", disse a VEJA o economista
Ben Slay, diretor do Programa de Desenvolvimento Regional das Nações
Unidas para o Leste Europeu, sediado em Bratislava, na Eslováquia.
A maioria não tem qualificação nem situação
legalizada. Por isso, acaba aceitando o trabalho braçal que
a população local não quer mais fazer. A Polônia
abriga 600.000 imigrantes. Na República Checa, eles chegam
a 300.000. Apesar do número elevado, a maior parte encontra
trabalho com facilidade. Ao passar de exportadores para importadores
de mão-de-obra, esses países confirmam o sucesso da
transição para a economia de mercado.
| Ninguém
quer ficar na Letônia
Os investimentos externos dobraram na
Letônia nos últimos dois anos e a economia
deve crescer 7% em 2006, o maior índice previsto
entre os 25 países da União Européia.
Há, no entanto, um parodoxo letão: falta
mão-de-obra para dar continuidade ao crescimento.
Uma pesquisa recente mostrou que, depois de formados,
oito em cada dez estudantes universitários pretendem
deixar a Letônia, uma das três pequenas
repúblicas bálticas. Nos últimos
dois anos, 50 000 letões, o equivalente a 2%
da população, foram trabalhar no exterior.
Em algumas áreas rurais, só restaram velhos
e crianças. A maioria foi tentar a sorte na Irlanda,
Inglaterra ou Suécia os únicos
entre os países da porção ocidental
da Europa que abriram as fronteiras para imigrantes
do Leste. Uma explicação para o êxodo
são os baixos salários na Letônia,
incompatíveis com o aumento do custo de vida
após a incorporação do país
à União Européia. Até o
maior ídolo esportivo letão, o esquiador
olímpico Jekabs Nakums, agora lava carros na
Irlanda. A debandada inclui profissionais capacitados,
que preferem ir embora mesmo com empregos de sobra na
terra natal. Para substituir a mão-de-obra em
fuga, a Letônia está acolhendo imigrantes
de países vizinhos, como Moldávia, Ucrânia
e Bielo-Rússia. Os recém-chegados são
uma complicação extra. Muitos letões
vêem a minoria russa, que representa 34% da população,
como uma ameaça à identidade nacional.
Agora, com a migração em massa dos trabalhadores,
a Letônia tem cada dia menos letões.
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