Edição 1940 . 25 de janeiro de 2006

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Internacional
Novos-ricos do Leste

A Europa Oriental ganha cor
com os bilhões dos investidores


José Eduardo Barella


Sean Gallup/Getty Images
Fábrica de componentes eletrônicos na República Checa: impostos baixos Estudantes em universidade de Riga: 78% querem emigrar

O que faz o Leste Europeu receber mais investimentos externos que o Brasil? Apenas quinze anos atrás, esses países viviam sob o jugo do comunismo – a tradução disso, em termos de produção de riquezas, eram um sistema econômico ineficiente e um parque industrial improdutivo. O cenário atual é inteiramente diferente. Perdeu o tom cinzento e ganhou cor. Juntos, Polônia, Hungria, República Checa, Eslováquia, Eslovênia, Lituânia, Estônia, Letônia, Romênia e Bulgária receberam 26 bilhões de dólares de investimentos externos em 2004, um aumento de 22% em relação a 2000. Entre as nações em desenvolvimento, só a China recebeu mais. O Brasil, que tem quase o dobro da população somada de todos e um território quase do tamanho da Europa, ficou com 18 bilhões de dólares. O crescimento médio das economias da Europa Oriental em 2005 é estimado em 5,2%, quatro vezes superior ao dos países europeus que adotam o euro como moeda comum.

O efeito imediato desse salto econômico pode ser sentido no fluxo migratório dentro da União Européia. Quando oito países da Europa Oriental aderiram ao bloco, em 2004 (Romênia e Bulgária vão entrar em 2007), os membros mais antigos temiam uma invasão de mão-de-obra barata vinda do Leste. O que se vê, na verdade, é um fluxo no sentido contrário – não de pessoas, mas de multinacionais que estão instalando fábricas e escritórios no Leste Europeu. Três fatores transformaram a região na queridinha dos investidores externos. O primeiro são a abundância e o baixo custo da mão-de-obra qualificada. Os regimes comunistas do Leste Europeu deixaram como herança boas universidades, com foco acadêmico em ciências exatas e na formação de técnicos para o setor industrial. A juventude da Polônia está entre as mais instruídas do mundo. No ano passado, 460.000 poloneses receberam o diploma de curso superior – o Brasil, com uma população quatro vezes maior, formou 530.000 universitários no mesmo período. Para completar, o salário médio de um engenheiro na Polônia é apenas um décimo do pago na Alemanha, e sua produtividade (em horas de trabalho semanais), 30% maior. Empresas como IBM, Intel, Motorola e Siemens perceberam as vantagens e instalaram, só na Polônia, trinta centros de pesquisa e desenvolvimento de produtos.

O segundo fator que explica o boom econômico são a proximidade geográfica e a integração com a União Européia, que abriu para o Leste um mercado de 500 milhões de consumidores com alto padrão aquisitivo. O terceiro fator são os baixos impostos cobrados das empresas. A média da região é de 19%, contra 29% na Europa Ocidental e 34% no Brasil, o que reflete a preocupação do bloco em atrair capital estrangeiro. Os dez países oferecem ainda estabilidade política, economia desregulamentada e investimentos em infra-estrutura de transporte e de telecomunicações. Nada mais lógico para uma multinacional do que se instalar no Leste para vender a produção na Europa Ocidental. Pelo menos sete fabricantes automobilísticos e outras 400 indústrias de autopeças montaram linhas de produção nos países da região. As facilidades estão estimulando a chegada de empresas voltadas para o setor de serviços e de tecnologia de ponta. A DHL, a gigante americana de entregas expressas, instalou em Praga, na República Checa, um de seus três centros mundiais. A maior parte dos investimentos estrangeiros na Bulgária é de empresas de desenvolvimento de software.

Os investimentos são muito recentes para resolver em definitivo alguns problemas do Leste Europeu, como o desemprego elevado. O índice médio nesses países fica entre 10% e 15%. Na Polônia, chega a 20%. Uma das razões são as mudanças no mercado de trabalho, resultado dos ajustes exigidos pela transição do comunismo para a economia de mercado. A indústria obsoleta não resistiu à concorrência ocidental depois da queda do Muro de Berlim. Os governos desses países investiam basicamente na formação de mão-de-obra para a indústria pesada e muito pouco para os setores de serviços e administrativo, duas áreas nas quais hoje há grande oferta de emprego. Essa distorção ainda não foi corrigida. A demanda por algumas profissões cresceu, enquanto outras perderam importância. Na Hungria, sobram engenheiros. Já na República Checa, na Eslovênia, na Bulgária e na Eslováquia há mais vagas disponíveis para administradores do que candidatos capacitados. Outra razão para o desemprego elevado está no peso da economia informal, entre 30% e 40% da população economicamente ativa nesses países. "A economia informal é estimulada por outra conseqüência do boom econômico da região: a invasão de imigrantes de países próximos, como Ucrânia, Moldávia, Bielo-Rússia, Macedônia e Rússia, em busca de trabalho", disse a VEJA o economista Ben Slay, diretor do Programa de Desenvolvimento Regional das Nações Unidas para o Leste Europeu, sediado em Bratislava, na Eslováquia. A maioria não tem qualificação nem situação legalizada. Por isso, acaba aceitando o trabalho braçal que a população local não quer mais fazer. A Polônia abriga 600.000 imigrantes. Na República Checa, eles chegam a 300.000. Apesar do número elevado, a maior parte encontra trabalho com facilidade. Ao passar de exportadores para importadores de mão-de-obra, esses países confirmam o sucesso da transição para a economia de mercado.


Ninguém quer ficar na Letônia

Os investimentos externos dobraram na Letônia nos últimos dois anos e a economia deve crescer 7% em 2006, o maior índice previsto entre os 25 países da União Européia. Há, no entanto, um parodoxo letão: falta mão-de-obra para dar continuidade ao crescimento. Uma pesquisa recente mostrou que, depois de formados, oito em cada dez estudantes universitários pretendem deixar a Letônia, uma das três pequenas repúblicas bálticas. Nos últimos dois anos, 50 000 letões, o equivalente a 2% da população, foram trabalhar no exterior. Em algumas áreas rurais, só restaram velhos e crianças. A maioria foi tentar a sorte na Irlanda, Inglaterra ou Suécia – os únicos entre os países da porção ocidental da Europa que abriram as fronteiras para imigrantes do Leste. Uma explicação para o êxodo são os baixos salários na Letônia, incompatíveis com o aumento do custo de vida após a incorporação do país à União Européia. Até o maior ídolo esportivo letão, o esquiador olímpico Jekabs Nakums, agora lava carros na Irlanda. A debandada inclui profissionais capacitados, que preferem ir embora mesmo com empregos de sobra na terra natal. Para substituir a mão-de-obra em fuga, a Letônia está acolhendo imigrantes de países vizinhos, como Moldávia, Ucrânia e Bielo-Rússia. Os recém-chegados são uma complicação extra. Muitos letões vêem a minoria russa, que representa 34% da população, como uma ameaça à identidade nacional. Agora, com a migração em massa dos trabalhadores, a Letônia tem cada dia menos letões.

 

 
 
 
 
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