Edição 1940 . 25 de janeiro de 2006

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Internacional
A primeira-mulher do Chile

Presidente eleita, a socialista
Michelle Bachelet representa
a continuidade


Diogo Schelp

 
Fotos Santiago Llanquin/AP
Continuidade no socialismo chileno: acima, Michelle Bachelet com o presidente Ricardo Lagos. À esquerda, eleitores comemoram a vitória de Bachelet, em Santiago. É consenso entre os políticos chilenos,de direita e de esquerda, que os fundamentos da política econômica iniciada pelo general Pinochet devem ser preservados


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Diferenças nacionais

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Dia: A ditadura no Chile
Em Dia: Queda de Pinochet
Arquivo: Dias incertos em Santiago

Um bom indicador da solidez das instituições de um país é o impacto econômico dos períodos de troca de governo. Em democracias estáveis existe a segurança de que a escolha de um novo mandatário não será acompanhada de reviravoltas nas regras do mercado. Na América Latina, segundo esse critério de estabilidade política, o Chile é o país mais avançado. Ao elegerem a socialista Michelle Bachelet, na semana passada, os eleitores chilenos sabiam que os fundamentos do modelo vigente seriam preservados independentemente de quem ganhasse nas urnas – o candidato derrotado representava um partido de centro-direita –, mas optaram por não mexer no time que está dando certo. Seguida por sucessivos governos de centro-esquerda, uma receita que inclui austeridade fiscal, controle da inflação e abertura comercial fez do Chile o único país sul-americano com a chance de, mantido o ritmo de crescimento por mais uma dúzia de anos, ultrapassar a linha que o separa das nações desenvolvidas.

A Concertación, a coalizão de partidos de centro e de esquerda pela qual Bachelet foi eleita, governa o Chile desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet, em 1990. De lá para cá, a economia do país cresceu a uma taxa anual de 5,5% e a proporção de pobres na população caiu pela metade. Os dois primeiros presidentes da redemocratização foram democrata-cristãos, centristas. Ricardo Lagos, de quem Bachelet foi ministra da Saúde e, em seguida, da Defesa, foi o primeiro socialista a chegar ao Palácio de la Moneda, a sede da Presidência chilena, depois do golpe militar que derrubou o socialista Salvador Allende, em 1973. É obviamente um paradoxo ideológico, mas os socialistas chilenos regam hoje a semente plantada pelo ditador Pinochet. Com a economia aos frangalhos nos primeiros anos da ditadura, o general resolveu dar carta branca a um grupo de jovens economistas chilenos alinhados com o pensamento liberal da Escola de Chicago. Esses economistas implantaram o modelo atual, baseado em privatizações, abertura da economia para o comércio internacional e austeridade fiscal. Em regimes militares próximos, incluindo o do Brasil, generais nacionalistas preferiram estatizar, estabelecer reservas de mercado e afundar o país em dívidas, políticas cujos resultados desastrosos para o desenvolvimento são sentidos até hoje.

No Chile, há um consenso entre esquerda e direita de que os fundamentos do modelo estabelecido sob Pinochet, com alguns aprimoramentos, são o melhor para o país. Socialista moderada, Bachelet representa a continuidade, mas com algumas promessas de mudanças que soaram bem aos ouvidos dos eleitores. Ela pretende, por exemplo, encontrar soluções mais efetivas para melhorar a vida daquela parcela de chilenos que permanece na pobreza, apesar do desenvolvimento do país. Em lugar de adotar uma política assistencialista típica do esquerdismo latino-americano, Bachelet estuda mudar esse quadro com melhorias no sistema de ensino e maiores oportunidades de crédito para os pequenos empresários.

Médica pediatra, separada duas vezes e mãe de três filhos, Bachelet é a primeira mulher que chega ao poder na América Latina por méritos próprios, e não como viúva de um político ilustre. Seu pai, um general leal a Allende, morreu de ataque cardíaco ao ser torturado pelos golpistas, em 1974. Ela própria, com sua mãe, foi presa, torturada e exilada. Primeiro esteve na Austrália. Depois estudou medicina na Alemanha Oriental. Já ministra da Defesa do Chile, a médica viveu a inusitada situação de ter como vizinho, no mesmo prédio, um coronel que a havia maltratado na prisão.

A eleição de Bachelet menos de um mês depois da escolha de Evo Morales como presidente da Bolívia reforçou a impressão de que a América do Sul está se tornando um bastião de governos esquerdistas. A eleição chilena, na verdade, sinaliza a existência de um fosso entre dois tipos de governo de esquerda no continente. Bachelet representa o modelo democrático, caracterizado pelo respeito às regras de mercado. O governo Lula é parecido com o chileno no que se refere à condução responsável da economia, mas se diferencia na política externa e comercial. Ao contrário do Brasil, que tenta se destacar como líder terceiro-mundista, o Chile esforça-se para fazer o maior número possível de acordos e negócios com os países ricos. Bachelet já avisou que não vê nada errado em entrar para a Alca, o tratado de livre-comércio com os Estados Unidos que o Itamaraty vê como abominação.

O sistema que funciona bem no Chile está agora sendo seguido pelo presidente Tabaré Vázquez, do Uruguai. Em oposição, há o "modelo venezuelano", batizado pelo presidente Hugo Chávez de "socialismo do século XXI". Significa, basicamente, canalizar os recursos do Estado (que na Venezuela são abundantes graças às exportações de petróleo) para projetos sociais de cunho clientelista, sob o controle feroz do aparato oficial. "A esquerda chilena, com seu pragmatismo, destoa de praticamente tudo o que boa parte da esquerda latino-americana admira em Chávez: a postura antiamericana, o populismo e o assistencialismo", disse a VEJA o cientista político chileno Miguel Angel López, da Universidade do Chile. Causa espanto que tantos esquerdistas brasileiros façam cara feia para o sistema chileno, que reduziu pela metade seus pobres, mas aplaudam Chávez, que com suas extravagâncias só fez aumentar a pobreza na Venezuela.

 

NEM TODAS AS ESQUERDAS SÃO IGUAIS

Fernando Llano/AP


• Desde a democratização, em 1990, com uma política responsável, o governo de centro-esquerda do Chile reduziu a proporção de pobres na população de 39% para 19%  

• No poder desde 1999, o populista Hugo Chávez aumentou a proporção de pobres na Venezuela de 43% para 54%

 

Com reportagem de Ruth Costas

 
 
 
 
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