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Internacional
A primeira-mulher do Chile
Presidente eleita, a socialista Michelle Bachelet representa a continuidade

Diogo Schelp
Fotos Santiago Llanquin/AP
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 | Continuidade
no socialismo chileno: acima, Michelle Bachelet com o presidente Ricardo Lagos.
À esquerda, eleitores comemoram a vitória de Bachelet, em Santiago.
É consenso entre os políticos chilenos,de direita e de esquerda,
que os fundamentos da política econômica iniciada pelo general Pinochet
devem ser preservados | Um bom indicador da solidez das instituições
de um país é o impacto econômico dos períodos de troca
de governo. Em democracias estáveis existe a segurança de que a
escolha de um novo mandatário não será acompanhada de reviravoltas
nas regras do mercado. Na América Latina, segundo esse critério
de estabilidade política, o Chile é o país mais avançado.
Ao elegerem a socialista Michelle Bachelet, na semana passada, os eleitores chilenos
sabiam que os fundamentos do modelo vigente seriam preservados independentemente
de quem ganhasse nas urnas – o candidato derrotado representava um partido de
centro-direita –, mas optaram por não mexer no time que está dando
certo. Seguida por sucessivos governos de centro-esquerda, uma receita que inclui
austeridade fiscal, controle da inflação e abertura comercial fez
do Chile o único país sul-americano com a chance de, mantido o ritmo
de crescimento por mais uma dúzia de anos, ultrapassar a linha que o separa
das nações desenvolvidas. A Concertación,
a coalizão de partidos de centro e de esquerda pela qual Bachelet foi eleita,
governa o Chile desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet, em 1990.
De lá para cá, a economia do país cresceu a uma taxa anual
de 5,5% e a proporção de pobres na população caiu
pela metade. Os dois primeiros presidentes da redemocratização foram
democrata-cristãos, centristas. Ricardo Lagos, de quem Bachelet foi ministra
da Saúde e, em seguida, da Defesa, foi o primeiro socialista a chegar ao
Palácio de la Moneda, a sede da Presidência chilena, depois do golpe
militar que derrubou o socialista Salvador Allende, em 1973. É obviamente
um paradoxo ideológico, mas os socialistas chilenos regam hoje a semente
plantada pelo ditador Pinochet. Com a economia aos frangalhos nos primeiros anos
da ditadura, o general resolveu dar carta branca a um grupo de jovens economistas
chilenos alinhados com o pensamento liberal da Escola de Chicago. Esses economistas
implantaram o modelo atual, baseado em privatizações, abertura da
economia para o comércio internacional e austeridade fiscal. Em regimes
militares próximos, incluindo o do Brasil, generais nacionalistas preferiram
estatizar, estabelecer reservas de mercado e afundar o país em dívidas,
políticas cujos resultados desastrosos para o desenvolvimento são
sentidos até hoje. No Chile, há um
consenso entre esquerda e direita de que os fundamentos do modelo estabelecido
sob Pinochet, com alguns aprimoramentos, são o melhor para o país.
Socialista moderada, Bachelet representa a continuidade, mas com algumas promessas
de mudanças que soaram bem aos ouvidos dos eleitores. Ela pretende, por
exemplo, encontrar soluções mais efetivas para melhorar a vida daquela
parcela de chilenos que permanece na pobreza, apesar do desenvolvimento do país.
Em lugar de adotar uma política assistencialista típica do esquerdismo
latino-americano, Bachelet estuda mudar esse quadro com melhorias no sistema de
ensino e maiores oportunidades de crédito para os pequenos empresários.
Médica pediatra, separada duas vezes e mãe
de três filhos, Bachelet é a primeira mulher que chega ao poder na
América Latina por méritos próprios, e não como viúva
de um político ilustre. Seu pai, um general leal a Allende, morreu de ataque
cardíaco ao ser torturado pelos golpistas, em 1974. Ela própria,
com sua mãe, foi presa, torturada e exilada. Primeiro esteve na Austrália.
Depois estudou medicina na Alemanha Oriental. Já ministra da Defesa do
Chile, a médica viveu a inusitada situação de ter como vizinho,
no mesmo prédio, um coronel que a havia maltratado na prisão.
A eleição de Bachelet menos de um mês depois da escolha de
Evo Morales como presidente da Bolívia reforçou a impressão
de que a América do Sul está se tornando um bastião de governos
esquerdistas. A eleição chilena, na verdade, sinaliza a existência
de um fosso entre dois tipos de governo de esquerda no continente. Bachelet representa
o modelo democrático, caracterizado pelo respeito às regras de mercado.
O governo Lula é parecido com o chileno no que se refere à condução
responsável da economia, mas se diferencia na política externa e
comercial. Ao contrário do Brasil, que tenta se destacar como líder
terceiro-mundista, o Chile esforça-se para fazer o maior número
possível de acordos e negócios com os países ricos. Bachelet
já avisou que não vê nada errado em entrar para a Alca, o
tratado de livre-comércio com os Estados Unidos que o Itamaraty vê
como abominação. O sistema
que funciona bem no Chile está agora sendo seguido pelo presidente Tabaré
Vázquez, do Uruguai. Em oposição, há o "modelo venezuelano",
batizado pelo presidente Hugo Chávez de "socialismo do século XXI".
Significa, basicamente, canalizar os recursos do Estado (que na Venezuela são
abundantes graças às exportações de petróleo)
para projetos sociais de cunho clientelista, sob o controle feroz do aparato oficial.
"A esquerda chilena, com seu pragmatismo, destoa de praticamente tudo o que boa
parte da esquerda latino-americana admira em Chávez: a postura antiamericana,
o populismo e o assistencialismo", disse a VEJA o cientista político chileno
Miguel Angel López, da Universidade do Chile. Causa espanto que tantos
esquerdistas brasileiros façam cara feia para o sistema chileno, que reduziu
pela metade seus pobres, mas aplaudam Chávez, que com suas extravagâncias
só fez aumentar a pobreza na Venezuela.
| NEM TODAS AS ESQUERDAS SÃO
IGUAIS
Fernando Llano/AP  |
Desde a democratização,
em 1990, com uma política responsável, o governo de centro-esquerda
do Chile reduziu a proporção de pobres na população
de 39% para 19%
No
poder desde 1999, o populista Hugo Chávez aumentou a proporção
de pobres na Venezuela de 43% para 54% | |
Com reportagem
de Ruth Costas |