|
|
Brasil
Alerta no Supremo
A possível nomeação de petistas para o tribunal causa
preocupação 
Carlos Graieb
STF  |
Nesta semana, o presidente Lula deverá
nomear um novo juiz para o Supremo Tribunal Federal. A vaga está aberta
desde quinta-feira, quando o ministro Carlos Velloso se aposentou. A lista de
candidatos é gorda. Neste mês, inchou de onze para 28 nomes. Dela
constam advogados, promotores e juízes com ótimas credenciais. Dela
constam também três petistas de carteirinha: o ex-ministro da Educação
Tarso Genro e os deputados Luiz Eduardo Greenhalgh e Sigmaringa Seixas. Lula gostaria
de entregar a toga a um companheiro. Mas descartou-os em prol de uma escolha técnica.
Resta saber se fez isso por convicção a de que o STF não
é lugar para políticos ou apenas por cálculo. Antes
do fim do ano o presidente poderá nomear mais dois ministros. Nelson Jobim,
atual presidente da corte, sai em março. Sepúlveda Pertence emite
sinais de que sua aposentadoria, compulsória em 2007, pode ser antecipada.
O Planalto avalia que indicar um político agora causaria turbulência.
Talvez imagine que daqui a alguns meses haverá clima para aparelhar o STF
com um petista. O sistema de escolha
de ministros do Supremo o presidente nomeia, os senadores ratificam
nasceu com a República. Há quem pense em modificá-lo, seguindo
outros modelos (veja
quadro). É duvidoso que uma revolução dessa
ordem seja necessária. "Não há por que pensar que o sistema
brasileiro é intrinsecamente ruim", diz Cristiano Paixão, professor
da Universidade de Brasília. "Ele se inspira numa experiência bem-sucedida,
a americana. Bastaria aperfeiçoar a ferramenta democrática nele
embutida." Nos Estados Unidos, a aprovação de uma candidatura no
Senado envolve um extenso debate. No Brasil, desde Floriano Peixoto, é
quase que somente uma formalidade. Também é legítimo que
um presidente selecione pessoas com visão de mundo semelhante à
sua e que tenham uma concepção política do trabalho do STF.
A idéia de que o Supremo precisa ser formalista pertence ao passado. Suas
decisões devem pautar-se por princípios, mas é saudável
que tenham o tempero da prudência uma percepção de
seu impacto na vida do país. Os problemas começam quando ministros
do Supremo demonstram um apetite pelo jogo partidário e por cargos administrativos.
Situações como essa desmoralizam a corte. Infelizmente, o Brasil
parece estar estabelecendo uma tradição nesse sentido. Francisco
Rezek saiu do tribunal para participar do governo de Fernando Collor que
depois o reconduziu ao STF. Maurício Corrêa, vestindo sua toga, pensou
em concorrer ao governo do Distrito Federal. Nelson Jobim, deputado e ministro
antes de chegar ao Supremo, nunca se furtou a dar declarações típicas
de congressista sobre os governos FHC e Lula. Nos últimos meses, deixou
correr o boato de que poderia ser candidato a presidente neste ano. Agora, avisa
interlocutores que, deixando a corte, vai voltar ao PMDB. Jura que não
participa de prévias no partido mas isso não significa que
não possa entrar em alguma aliança eleitoral.
Entre os ministros já nomeados por Lula, não se percebe nenhuma
ação combinada de favorecimento ao Planalto. O saldo das indicações,
contudo, é medíocre. O próprio Ministério da Justiça
reconhece que há muita vacilação e inconsistência entre
os juízes. No meio jurídico, o ministro Carlos Ayres Britto começa
a ganhar fama de provinciano e Joaquim Barbosa, de desorientado. Em 2005, quando
o governo federal interveio no sistema de saúde do Rio de Janeiro, Barbosa
deu um voto insustentável que depois teve de retirar. Foi um episódio
constrangedor. O ministro Eros Grau já passou por uma grande crise. Ao
dar-se conta do volume de trabalho que enfrentaria, pensou em renunciar. A exceção
é Antonio Cezar Peluso. Juiz de carreira, ele chegou "pronto" ao Supremo
e começa a se destacar. Seu caso deveria servir de parâmetro a Lula.
Entre os candidatos de perfil partidário e os candidatos de perfil técnico,
a escolha é clara caso ele não queira transformar a oportunidade
de nomear sete ministros para o Supremo em mais um fiasco. |