|
|
Brasil
Operação Cuba
Advogados do PT assessoram
motorista que dirigiu carro com
dólares cubanos

Julia Duailibi
Beto Barata/AE
 |
| Éder Macedo confirma que foi ao aeroporto,
mas diz que não viu nada |
O depoimento
do motorista do Ministério da Fazenda Éder Eustáquio
Soares Macedo, na semana passada, em Brasília, foi preparado
para ajudar o PT a se livrar da acusação de ter recebido
ilegalmente 3 milhões de dólares de Cuba para a campanha
do presidente Lula em 2002. Seguindo um roteiro visivelmente ensaiado
pelos advogados, o motorista confirmou que realmente dirigiu um
Omega blindado do Aeroporto dos Amarais, em Campinas, até
São Paulo. Confirmou que os passageiros eram Ralf Barquete
e Vladimir Poleto, ex-assessores de Antonio Palocci, então
coordenador da campanha de Lula à Presidência. Confirmou
que alguma coisa havia sido colocada no porta-malas do carro, mas
ele não viu o que era, já que não se deu ao
trabalho nem de descer para abrir o bagageiro. Finalmente, disse
que tanto os passageiros como a mercadoria foram deixados numa churrascaria
paulistana. Resumindo: encerrado assim, o depoimento não
acrescentava nada e ainda jogava para uma churrascaria o problema
que, até então, era do comitê de campanha de
Lula, na Vila Mariana, onde realmente foram entregues as caixas
com dinheiro cubano. Mas deu tudo errado.
Os senadores da CPI desconfiaram
do extremo nervosismo do motorista e das constantes interferências
de sua advogada. Durante a sessão, alguns parlamentares foram
informados de que Éder, que mora no Rio de Janeiro, havia
antecipado sua ida a Brasília a pedido da assessoria parlamentar
do Ministério da Fazenda. Ele também dispensou o hotel
que seria reservado pelo Senado, trocando-o por um outro mais luxuoso.
Intrigados, os senadores pediram à Polícia Federal
que investigasse. Ainda durante o depoimento, chegou a informação
de que a suíte do hotel havia sido reservada e paga por um
escritório de advocacia de São Paulo, cujo sócio,
Hélio Silveira, é especialista em direito eleitoral.
Entre seus clientes conhecidos estão a ex-prefeita de São
Paulo Marta Suplicy e o próprio Partido dos Trabalhadores.
Em princípio, apenas uma estranha coincidência.
Joedson Alves/AE
 |
| Palocci: ele foge do depoimento há
três meses |
Questionado a respeito, o motorista se confundiu. Primeiro, disse
que havia falado com o advogado apenas pelo telefone, dando a entender
que não o conhecia pessoalmente. Depois, admitiu que tinha
visto o advogado naquele dia. Por último, afirmou que Hélio
era realmente seu advogado e que, inclusive, tinha ido buscá-lo
no aeroporto. Hélio Silveira trabalha para o PT desde 1998.
Ele diz que seu escritório está ajudando o motorista
por puro voluntarismo. "Sou solidário. Esse cidadão
nunca foi a uma delegacia", afirmou o advogado, acrescentando que
o caso "não tem nada a ver com o PT". Ele e o motorista se
conheceram, por coincidência, no comitê eleitoral de
Lula. Hélio Silveira, por coincidência, é advogado
de Ademirson Ariovaldo da Silva, assessor especial do ministro Antonio
Palocci, que, por coincidência, é amigo de Vladimir
Poleto, que, também por coincidência, é amigo
de Rogério Buratti, outro que, por coincidência, confirmou
a existência do dinheiro cubano. Todos, por coincidência,
participaram da Operação Cuba. Falta ouvir o ministro
Palocci sobre o assunto. Não por coincidência, ele
tem conseguido fugir da CPI há quase três meses.
|