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Brasil
15 milhões de dólares
Esse é o valor que o publicitário
Duda Mendonça, seus familiares
e sua sócia receberam desde 1993
no Bank of America, em Miami,
em contas não declaradas

Marcio Aith
Valter Campanato/ABR
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| O publicitário: ele publicou anúncios
contra VEJA, diz que vai processar a revista e chorou muito.
Mas explicação que é bom, nada |
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Há duas semanas, VEJA revelou que o publicitário Duda
Mendonça tem uma segunda conta no exterior além daquela
que admitiu, às lágrimas, durante uma tumultuada sessão
da CPI dos Correios. O publicitário negou, estrilou, rodou
a baiana. E mentiu feio. Duda, seus familiares e sua sócia
Zilmar Fernandes da Silveira receberam pelo menos 15 milhões
de dólares em cinco contas de uma agência do Bank of
America em Miami. Tudo dinheiro de caixa dois. Duas dessas contas
têm o próprio publicitário baiano como beneficiário.
Uma é a já famosa Düsseldorf, criada única
e exclusivamente para receber 10,5 milhões de reais (3 milhões
de dólares à época) do valerioduto. A outra
foi aberta em 1993, dez anos antes do início do governo Lula,
em nome de uma empresa das Bahamas cujo único beneficiário
também é Duda Mendonça. Essa conta mais antiga
ficava inicialmente no BankBoston, que se fundiu em 2003 com o Bank
of America. O publicitário, portanto, começou como
cliente do BankBoston e acabou como cliente do Bank of America.
Ao longo de dez anos, Duda recebeu por meio dela cerca de 8 milhões
de dólares, das mais suspeitas e remotas origens. Como nunca
a declarou ao Fisco, pode-se dizer que sua incursão no mundo
do caixa dois não nasceu com o petismo, como jura às
lágrimas. Já dura pelo menos treze anos. As outras
três contas do "dudaduto" no Bank of America não são
propriamente do publicitário. São (ou foram) de empresas
nas Bahamas que têm ou tiveram as seguintes pessoas como beneficiárias:
sua filha Eduarda Mendonça; alguém identificado pelo
banco como sendo "sua mulher"; e sua sócia Zilmar Fernandes
da Silveira.
Desde meados de 2003, todos esses personagens
vêm sendo monitorados pelo governo americano. Naquele ano,
transferências altamente suspeitas chamaram a atenção
do Bank of America e do Fincen (Financial Crimes Enforcement Network),
a versão americana do Coaf, o xerife dos saques esquisitos.
Foi nesse período que Zilmar fechou a conta que abrira na
década de 90, e que chegou a ter alguns milhões de
dólares. Ela transferiu o saldo para outros bancos de menor
tamanho e critérios mais elásticos. Foi também
nesse período que a filha de Duda, Eduarda, e uma pessoa
identificada como sendo "a mulher" do publicitário abriram
contas na mesma agência do Bank of America, em Miami. VEJA
não viu nenhum documento com o nome dessa titular, mas é
praticamente certo que ela seja a terceira mulher de Duda, Aline
Mendonça. Ela já estava casada com o publicitário
quando a conta foi aberta.
Desde que a crise do mensalão
o atingiu, em agosto do ano passado, Duda tenta transmitir uma imagem
de recluso, uma espécie de prisioneiro amargurado em seu
recanto na Bahia. A verdade é outra. Desde então,
ele e seu grupo fiel tentam freneticamente sacar o que sobrou dessas
contas – um valor que hoje pode chegar a 12 milhões de dólares.
Duas tentativas já fracassaram. A primeira ocorreu dez dias
após o constrangedor episódio do choro na CPI e foi
protagonizada por sua filha, Eduarda. Grávida, acompanhada
de um advogado e falando grosso, deu ordens na agência de
Miami do Bank of America para que a maior parte do saldo fosse transferida
para outras instituições financeiras – algumas delas
em paraísos fiscais. Não só fracassou como
também provocou o bloqueio administrativo da conta de Duda,
de sua própria e da terceira, "da mulher" do publicitário.
Além disso, criou um delicado problema para si: tornou-se
suspeita de fraude. Numa comunicação externa a que
VEJA teve acesso, um dos advogados do Bank of America, David Chenkin,
diz que Eduarda tentou transferir parte do dinheiro do banco "de
forma a ocultar seu verdadeiro beneficiário". A promotoria
de Nova York, que auxilia o governo brasileiro nas negociações,
afirma que uma das contas tinha um saldo aproximado de 2 milhões
de dólares. Por telefone, Chenkin confirmou a VEJA toda a
história, mas disse que não comenta casos de clientes
da instituição. A segunda tentativa de saque ocorreu
um mês depois, em setembro passado, quando Duda tentou trazer
uma parte do dinheiro para o Brasil, alegando que precisava pagar
os 4,3 milhões de reais que devia ao Fisco. Não conseguiu
porque a legislação brasileira só autoriza
contratos de câmbio quando o interessado consegue provar a
origem do dinheiro. Duda teve de se virar com a fortuna que possui
aqui mesmo. Pobrezinho.
Celso Junior/AE
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Reprodução
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| A sócia Zilmar: ela fechou a conta
no Bank of America em meados de 2003. Seu dinheiro foi para
instituições com critérios mais elásticos
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Eduarda, no aeroporto de Miami: ela tentou
transferir uma bolada. Foi impedida |
Não se sabe ao certo o saldo
atual das contas do dudagate nos Estados Unidos. Em 2003, quando
Zilmar ainda era cliente do Bank of America, esse valor atingiu
15 milhões de dólares. Era a soma de depósitos
oriundos de quase todos os países e partidos políticos
da América Latina – uma espécie de caixa dois suprapartidário.
Nos anos 90, Duda realizou sete campanhas eleitorais na Argentina
e foi contratado para melhorar a imagem do então presidente
Carlos Menem. No mesmo período, fez a campanha vitoriosa
de Paulo Maluf à prefeitura de São Paulo e depois
emplacou a eleição de Celso Pitta. A revelação
das contas de Duda no Bank of America ajuda a entender o complexo
sistema financeiro montado pelo publicitário para burlar
o Fisco e receber por todas essas campanhas eleitorais. Mas restam
dúvidas:
Se Duda Mendonça
já tinha uma conta no exterior em 2003, por que abriu outra
para receber os 10,5 milhões de reais pagos pela campanha
do presidente Lula? Há várias explicações
possíveis. Pode ser que simplesmente não quisesse
revelar a Marcos Valério e a doleiros que tinha outra conta.
Essa é a versão benigna. Existe outra. Duda pode ter
aberto a Düsseldorf porque já pensava em repartir o
dinheiro que receberia do valerioduto com alguém, talvez
um sócio oculto, talvez um membro do próprio governo
petista. As movimentações bancárias fortalecem
essa segunda hipótese. Logo depois de receber os 10,5 milhões
de reais na Düsseldorf, Duda transferiu a maior parte desse
valor para sua conta mais antiga, para a de sua filha e a de sua
mulher. O restante, enviou para lugares onde, segundo alguns investigadores,
estaria o mais bem guardado segredo do escândalo do mensalão.
Por que Duda negou com
tanta ênfase que tivesse outras contas no exterior além
da Düsseldorf? É difícil entender a mente de
um publicitário. Principalmente a de um gênio criativo
como Duda Mendonça. Quando abriu sua primeira conta em Miami,
no início dos anos 90, Duda escolheu uma PIC (Private Investment
Corporation), que permitia a seu beneficiário, na época,
esconder-se atrás de uma pessoa jurídica de fachada
criada nas Bahamas. Nem o banco podia saber quem era o verdadeiro
dono do dinheiro. Em 2000, no entanto, as regras mudaram nos Estados
Unidos, num esforço para coibir a lavagem de dinheiro e diferenciar
o território americano dos paraísos fiscais. Duda,
então, foi obrigado a revelar seu nome para os gerentes,
assim como os de familiares com contas na mesma instituição.
Ao negar a existência de outras contas à imprensa,
pode ser que pensa que ainda esteja sob a proteção
do formato PIC. Mas talvez Duda esteja apenas tentando ser esperto.
Afinal de contas, já que os titulares formais das contas
são pessoas jurídicas, e não publicitários
de carne e osso ou familiares, ele pode dizer que não tem
conta no exterior. Faz sentido. Quem tem são as empresas
de fachada que ele próprio cria. Eta publicitário
criativo.
Colaborou
Juliana Linhares
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