Edição 1834 . 24 de dezembro de 2003

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Especial
A fé por encomenda


Alexandra Gonsalez e Manuela Aquino

NESTA EDIÇÃO
Quando começamos a crer
A fé antes e depois de Cristo
Os santos, a fé e a razão
A terapia da prece

Junto com a convicção de que o direito mais sagrado da vida civilizada é a privacidade está a conquista da idéia de que, no mundo contemporâneo, a fé pode ser construída ao gosto do cliente.

No Japão atual se aceita que o ideal é viver como budista e se preparar para a velhice e a morte como xintoísta. É uma prova de sabedoria, pois o budismo não aceita a noção da eternidade da alma. Já o xintoísmo, até 1945 a religião oficial do Japão, oferece um céu cheio de almas eternas, em que teoricamente qualquer um pode ser um deus depois da morte, sem passar por julgamentos morais em que serão sobrepesados seus bons e maus atos em vida. "O budismo é a religião mais adequada à vida no seu auge, pois considera o desejo a fonte de todo sofrimento e não manda reprimi-lo, mas satisfazê-lo", diz John Stevens, autor do livro Luxúria para Iluminação: Budismo e o Sexo. Em outras palavras, faça amor até a terceira idade e, então, quando a natureza esfriar sua capacidade de desejar e ter prazer, passe a sonhar com a pureza e o paraíso eterno.

 
Museu Thomas Henry
AS ALMAS LEVES
A sofrida conversão de Santo Agostinho, neste quadro de Fra Angelico pintado no século XV: hoje é mais fácil

Viver budista e morrer xintoísta é aceitável entre os japoneses porque as duas religiões, depois de séculos de convivência, têm seus cultos de tal forma imbricados que não parece esperteza abandonar a fé de toda uma vida por outra que dá mais conforto sob determinada situação. "As pessoas hoje se sentem no direito de examinar diversas vertentes da fé e escolher em cada uma o componente que lhes parece mais apropriado", diz o antropólogo José Guilherme Magnani, da Universidade de São Paulo (USP). Não é preciso dizer que esse é um hábito que não conta com a aprovação das hierarquias religiosas. Também não deve ser confundido com a fusão de cultos do sincretismo religioso.

Fala-se aqui do que os antropólogos definem como o "supermercado da fé". Assim explica Magnani: "A pessoa adquire ensinamentos e rituais de diversas crenças para compor uma forma personalizada de venerar o sagrado". Ao mesmo tempo que era educada em um colégio de freiras, a dona-de-casa paulistana Fátima de Oliveira Costa, 48 anos, iniciava-se na umbanda, com sua avó. Na adolescência, converteu-se ao espiritismo kardecista, que freqüenta até hoje. Mas também estuda o budismo, acredita em anjos, lê tarô e faz cursos de cabala judaica. Em sua casa, imagens de São Jorge e do deus hindu Ganesh são rodeadas de velas e incensos. "Nenhuma religião sozinha me deu as respostas que busco. Mesclá-las me traz mais conforto espiritual", diz Fátima.

Um exemplo espantoso de adaptação da fé a suas circunstâncias particulares foi dado recentemente pelo escritor Norman Mailer, um dos maiores escritores americanos de todos os tempos. Aos 80 anos, Mailer resolveu aceitar a idéia da reencarnação. "Tenho agora crenças que tornam a velhice mais suportável. Eu creio em reencarnação", disse Mailer no início do ano. Para tornar sua escolha de elementos da fé ainda mais adequada a sua conveniência, Mailer não faz pregação da vida depois da morte e não quer convencer ninguém disso. "Não acho que reencarnação seja para todo mundo, mas para alguns escolhidos. Eu sou um deles", afirma o escritor. Como todo construtor de crenças de ocasião, Mailer não quer perder o vínculo com sua religião original. Embora os cabalistas acreditem na transmigração das almas, a reencarnação não faz parte da essência da fé judaica. Não é mencionada na Bíblia nem na literatura rabínica. "Continuo sendo judeu", diz o escritor. "Mailer é tão esperto que pretende derrotar até a morte", observa Paul Auster, também escritor e seu vizinho no bairro do Brooklyn, em Nova York.

 
 
 
 
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