|
|
Especial
A fé por encomenda

Alexandra
Gonsalez e Manuela Aquino
Junto
com a convicção de que o direito mais sagrado da vida
civilizada é a privacidade está a conquista da idéia
de que, no mundo contemporâneo, a fé pode ser construída
ao gosto do cliente.
No
Japão atual se aceita que o ideal é viver como budista
e se preparar para a velhice e a morte como xintoísta. É
uma prova de sabedoria, pois o budismo não aceita a noção
da eternidade da alma. Já o xintoísmo, até
1945 a religião oficial do Japão, oferece um céu
cheio de almas eternas, em que teoricamente qualquer um pode ser
um deus depois da morte, sem passar por julgamentos morais em que
serão sobrepesados seus bons e maus atos em vida. "O budismo
é a religião mais adequada à vida no seu auge,
pois considera o desejo a fonte de todo sofrimento e não
manda reprimi-lo, mas satisfazê-lo", diz John Stevens, autor
do livro Luxúria para Iluminação: Budismo
e o Sexo. Em outras palavras, faça amor até a
terceira idade e, então, quando a natureza esfriar sua capacidade
de desejar e ter prazer, passe a sonhar com a pureza e o paraíso
eterno.
Museu Thomas Henry
 |
AS
ALMAS LEVES
A sofrida conversão de Santo Agostinho, neste quadro de Fra
Angelico pintado no século XV: hoje é mais fácil |
Viver
budista e morrer xintoísta é aceitável entre
os japoneses porque as duas religiões, depois de séculos
de convivência, têm seus cultos de tal forma imbricados
que não parece esperteza abandonar a fé de toda uma
vida por outra que dá mais conforto sob determinada situação.
"As pessoas hoje se sentem no direito de examinar diversas vertentes
da fé e escolher em cada uma o componente que lhes parece
mais apropriado", diz o antropólogo José Guilherme
Magnani, da Universidade de São Paulo (USP). Não é
preciso dizer que esse é um hábito que não
conta com a aprovação das hierarquias religiosas.
Também não deve ser confundido com a fusão
de cultos do sincretismo religioso.
Fala-se aqui do que os antropólogos definem como o "supermercado
da fé". Assim explica Magnani: "A pessoa adquire ensinamentos
e rituais de diversas crenças para compor uma forma personalizada
de venerar o sagrado". Ao mesmo tempo que era educada em um colégio
de freiras, a dona-de-casa paulistana Fátima de Oliveira
Costa, 48 anos, iniciava-se na umbanda, com sua avó. Na adolescência,
converteu-se ao espiritismo kardecista, que freqüenta até
hoje. Mas também estuda o budismo, acredita em anjos, lê
tarô e faz cursos de cabala judaica. Em sua casa, imagens
de São Jorge e do deus hindu Ganesh são rodeadas de
velas e incensos. "Nenhuma religião sozinha me deu as respostas
que busco. Mesclá-las me traz mais conforto espiritual",
diz Fátima.
Um exemplo espantoso de adaptação da fé a suas
circunstâncias particulares foi dado recentemente pelo escritor
Norman Mailer, um dos maiores escritores americanos de todos os
tempos. Aos 80 anos, Mailer resolveu aceitar a idéia da reencarnação.
"Tenho agora crenças que tornam a velhice mais suportável.
Eu creio em reencarnação", disse Mailer no início
do ano. Para tornar sua escolha de elementos da fé ainda
mais adequada a sua conveniência, Mailer não faz pregação
da vida depois da morte e não quer convencer ninguém
disso. "Não acho que reencarnação seja para
todo mundo, mas para alguns escolhidos. Eu sou um deles", afirma
o escritor. Como todo construtor de crenças de ocasião,
Mailer não quer perder o vínculo com sua religião
original. Embora os cabalistas acreditem na transmigração
das almas, a reencarnação não faz parte da
essência da fé judaica. Não é mencionada
na Bíblia nem na literatura rabínica. "Continuo
sendo judeu", diz o escritor. "Mailer é tão esperto
que pretende derrotar até a morte", observa Paul Auster,
também escritor e seu vizinho no bairro do Brooklyn, em Nova
York.
|