Edição 1834 . 24 de dezembro de 2003

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Especial
A terapia da prece


Tiago Décimo

NESTA EDIÇÃO
Quando começamos a crer
A fé antes e depois de Cristo
Os santos, a fé e a razão
A fé por encomenda

Uma boa notícia: a fé cura. Estudos científicos mostram que há uma intrigante coincidência entre reações positivas a tratamentos médicos e o fato de o paciente ter uma crença religiosa.

Os estudiosos do fenômeno ainda se dividem entre os que explicam os bons resultados pelo estilo de vida, claramente mais saudável das pessoas religiosas, e os que vêem nas curas a intervenção divina. Essa dúvida não se dissipará nunca. Os benefícios para os pacientes dos processos de meditação, oração e reflexão espiritual aparecem de modo tão inequívoco nos exames que a ciência ortodoxa está se mexendo para tentar explicar o que for possível do fenômeno.

O interesse da medicina tradicional pelo tema é cada vez maior. Mais de setenta das 125 escolas de medicina dos Estados Unidos oferecem, em sua grade curricular, cursos que estudam as interações entre a espiritualidade e a saúde. Há dez anos eram apenas quatro. Diz Harold Koenig, do Centro para Estudos da Religião e Espiritualidade da Universidade Duke, uma das instituições mais reputadas dos Estados Unidos na área médica: "Os avanços nessa área são incontestáveis. A fé é um fator determinante não apenas na cura mas também na qualidade de vida das pessoas". Os resultados das pesquisas mais extensas nessa área apontam para duas evidências. A primeira é que pessoas religiosas vivem mais do que as que não acreditam em nada. A longevidade é, em média, 10% maior entre aqueles que professam alguma fé. A segunda é que mulheres e homens que rezam com freqüência se curam com maior facilidade em casos de doenças em que o stress é um fator determinante. Afirma Dale Matthews, do Instituto Nacional de Pesquisas de Saúde dos Estados Unidos: "Pessoas que têm fé em geral são menos propensas a fumar, beber, lidar com drogas e ter comportamento sexual de risco. São também menos ansiosas e mais atentas a fatores de segurança cotidiana, como usar cinto no carro, além de seguir mais fielmente as orientações médicas". Outro estudo, promovido em 1995 pela Faculdade de Medicina de Dartmouth, mostrou que pacientes com convicções religiosas tinham três vezes mais chances de sobreviver a cirurgias cardíacas do que os não religiosos. "Acredito que exista um mecanismo psicológico que faz com que os religiosos lidem melhor com o stress que uma intervenção dessa natureza acarreta", diz o coordenador do estudo, o professor Thomas Oxman.

 

FÉ DESDE AS ORIGENS
Jesus ressuscita Lázaro, em obra do holandês Rembrandt pintada em 1630: a crença nos milagres, estimulada pelo Novo Testamento, está na base da religião católica

Por sua própria natureza, tendem a ser inconclusivos os estudos que tentam desvendar a relação direta entre fé e cura. Essa limitação não inibe a ousadia dos pesquisadores. Recentemente, a Universidade Colúmbia, em Nova York, fez uma pesquisa para testar a efetividade de orações a distância. As cobaias eram mulheres coreanas com dificuldade para engravidar. Elas foram divididas em dois grupos. Para um deles formaram-se grupos de orações nos Estados Unidos e na Austrália. O outro não contou com preces. As mulheres não ficaram sabendo de nada, para que o fator psicológico não interferisse. O resultado: a taxa de concepção foi de 50% entre as pacientes que contaram com orações, contra 23% do outro grupo. A diferença é expressiva, mas o estudo, como era de esperar, não convenceu a todos por ter problemas metodológicos. "Os resultados podem ser entendidos apenas como flutuações estatísticas", diz Massimo Pigliucci, professor da Universidade do Tennessee. A maioria dos estudos leva à conclusão de que acreditar dá aos pacientes uma força extra na hora de enfrentar doenças. A maior parte das religiões admite a intercessão divina em favor de pessoas que rezem por ela. Claramente, essa relação não está compreendida no universo de fenômenos estudáveis pelos cientistas. As curas e os tratamentos bem-sucedidos de pessoas religiosas, porém, são um dado que a ciência médica, mesmo sem explicar cabalmente, está cada vez mais disposta a colocar a seu serviço.

 
Quando a fé mata
Amy Hermanson
Ian Lundman morreu aos 11 anos. Amy Hermanson, aos 7. Matthew Swan foi vitimado pela meningite com apenas 1 ano e 4 meses. Essas crianças americanas tinham algo em comum: seus pais são seguidores de um culto conhecido como Ciência Cristã. Seus pastores recomendam aos fiéis que não procurem médicos para tratar doenças. Em vez disso, eles devem apenas rezar. A morte das três crianças provocou comoção e protestos nos Estados Unidos. O caso mais revoltante foi o de Amy Hermanson, de Sarasota, na Flórida, que foi vítima de diabetes. Manifestantes pediram a prisão dos pais por assassinato. Os Hermanson foram julgados, mas a Suprema Corte da Flórida inocentou-os em 1992, com base na lei que defende a liberdade religiosa. No próprio veredicto, o juiz assinalou que a lei deveria ser modificada, para que casos assim não voltassem a ocorrer. Até hoje, porém, a lei está de pé sem alterações.

 
 
 
 
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