Edição 1834 . 24 de dezembro de 2003

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Especial
Os santos, a fé e a razão


Lia Hama

NESTA EDIÇÃO
Quando começamos a crer
A fé antes e depois de Cristo
A terapia da prece
A fé por encomenda

O que é preciso para ser um santo? O bispo Agostinho, que se tornou santo, dizia que era o pecado. Dos outros, bem entendido. Já que a virtude só pode ser devidamente destacada em um mundo em que outros não a possuem.

Uma vida virtuosa é apenas o começo do caminho para um trono no céu. O Vaticano exige também a comprovação cabal de pelo menos dois milagres feitos pela pessoa de quem se busca provar a santidade. No passado, quando a medicina engatinhava e os métodos de comprovação científica não tinham ainda sido colocados de pé, os testemunhos de confirmação dos milagres eram dados por sábios. A palavra deles valia. Hoje, missionários, mártires, pregadores, freiras e outros candidatos à santificação têm seus milagres submetidos aos modernos procedimentos científicos. Portanto, a pergunta sobre o que é necessário para ser um santo teria como resposta hoje em dia: o tomógrafo, o exame de DNA, a contagem de leucócitos ou as imagens digitalizadas de tecidos. Esses foram os exames realizados em algumas das pessoas que se disseram curadas milagrosamente por um dos santos feitos recentemente pela Igreja Católica, o sacerdote espanhol Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador da congregação Opus Dei, morto em 1975. Os exames permitiram rejeitar dez de doze milagres reivindicados pelos postuladores da santificação de Balaguer. Mas confirmaram dois, o que o elevou aos altares há um ano.

Essa situação configura um dos grandes paradoxos da fé em sua tumultuada mas produtiva relação com a razão. As pesquisas na maioria dos países mostram que acreditar em Deus é a mais unânime das crenças. Nos países ocidentais, o instituto americano Gallup encontrou uma média de 86% de respostas "sim" à pergunta "Acredita em Deus?". O mais interessante, porém, ocorre quando os pesquisadores indagam quais as razões que levam as pessoas a acreditar. Outra pesquisa feita nos Estados Unidos pela revista Skeptic (Cético) mostrou que 28% das pessoas entrevistadas que diziam acreditar em Deus tinham uma forte tendência a defender suas crenças baseando-se em argumentos racionais. O mais citado foi a "perfeição de funcionamento do universo". Segundo essas pessoas, um mecanismo tão harmônico não pode ter nascido por acaso e, portanto, só pode ter sido criado por uma inteligência superior, Deus. Não cabe discutir agora quem está certo, mas é intrigante que o Vaticano nunca tenha confrontado esse paradoxo. Como a maioria das pessoas defende sua fé com argumentos racionais, a Igreja Católica não foge deles quando se trata de comprovar as credenciais milagrosas de um candidato a santo.

Um processo de canonização está custando cerca de 100 000 dólares. A maior parte do dinheiro é gasta com viagens de médicos, exames dos pacientes usados como prova dos milagres e pareceres científicos. Diz Célia Cadorin, principal postuladora do processo da brasileira nascida na Itália madre Paulina, que durou 37 anos e culminou com sua canonização no ano passado: "As evidências científicas são necessárias para comprovar o milagre de Deus". Theresa Sanders, professora de teologia da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, toca em um ponto crucial. Diz ela: "Na verdade, os santos estão aí. Não são feitos. Cabe à Igreja usar de todos os meios, inclusive os científicos, para identificá-los e honrá-los com a canonização".

 
Os gênios falam de Deus

A ciência enfrenta um paradoxo parecido com o da fé. Por mais que avance, não consegue desvencilhar-se da idéia de Deus. O físico Leon Lederman, prêmio Nobel em 1988, é autor de um livro em que defende que a ciência deve estudar a "hipótese teológica". Segundo ele, no atual estágio do conhecimento, o grande desafio dos cientistas é a explicação do fenômeno divino. É uma área em que as mentes mais poderosas do século XX se enredaram. Albert Einstein, o criador da teoria da relatividade, que propôs formas inteiramente diferentes de pensar o tempo, o espaço e a gravitação, quase se rendeu a Deus com o conceito da "constante cósmica" – uma espécie de número mágico que ajudava a fechar suas equações. "Nós vemos um universo maravilhosamente ordenado, e nosso pensamento limitado não pode compreender a força misteriosa que move a constelação", dizia ele. Stephen Hawking, talvez o físico mais influente depois de Einstein, pensa parecido: "Ou encontramos explicações científicas para certos mistérios da criação do universo, ou teremos de aceitar que ele foi feito com o objetivo claro de abrigar a vida humana".

 
 
 
 
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