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Especial
Os santos, a fé e a razão

Lia
Hama
O
que é preciso para ser um santo? O bispo Agostinho, que se
tornou santo, dizia que era o pecado. Dos outros, bem entendido.
Já que a virtude só pode ser devidamente destacada
em um mundo em que outros não a possuem.
Uma vida virtuosa é apenas o começo do caminho para
um trono no céu. O Vaticano exige também a comprovação
cabal de pelo menos dois milagres feitos pela pessoa de quem se
busca provar a santidade. No passado, quando a medicina engatinhava
e os métodos de comprovação científica
não tinham ainda sido colocados de pé, os testemunhos
de confirmação dos milagres eram dados por sábios.
A palavra deles valia. Hoje, missionários, mártires,
pregadores, freiras e outros candidatos à santificação
têm seus milagres submetidos aos modernos procedimentos científicos.
Portanto, a pergunta sobre o que é necessário para
ser um santo teria como resposta hoje em dia: o tomógrafo,
o exame de DNA, a contagem de leucócitos ou as imagens digitalizadas
de tecidos. Esses foram os exames realizados em algumas das pessoas
que se disseram curadas milagrosamente por um dos santos feitos
recentemente pela Igreja Católica, o sacerdote espanhol Josemaría
Escrivá de Balaguer, fundador da congregação
Opus Dei, morto em 1975. Os exames permitiram rejeitar dez de doze
milagres reivindicados pelos postuladores da santificação
de Balaguer. Mas confirmaram dois, o que o elevou aos altares há
um ano.
Essa situação configura um dos grandes paradoxos da
fé em sua tumultuada mas produtiva relação
com a razão. As pesquisas na maioria dos países mostram
que acreditar em Deus é a mais unânime das crenças.
Nos países ocidentais, o instituto americano Gallup encontrou
uma média de 86% de respostas "sim" à pergunta "Acredita
em Deus?". O mais interessante, porém, ocorre quando os pesquisadores
indagam quais as razões que levam as pessoas a acreditar.
Outra pesquisa feita nos Estados Unidos pela revista Skeptic
(Cético) mostrou que 28% das pessoas entrevistadas que diziam
acreditar em Deus tinham uma forte tendência a defender suas
crenças baseando-se em argumentos racionais. O mais citado
foi a "perfeição de funcionamento do universo". Segundo
essas pessoas, um mecanismo tão harmônico não
pode ter nascido por acaso e, portanto, só pode ter sido
criado por uma inteligência superior, Deus. Não cabe
discutir agora quem está certo, mas é intrigante que
o Vaticano nunca tenha confrontado esse paradoxo. Como a maioria
das pessoas defende sua fé com argumentos racionais, a Igreja
Católica não foge deles quando se trata de comprovar
as credenciais milagrosas de um candidato a santo.
Um processo de canonização está custando cerca
de 100 000 dólares. A maior parte do dinheiro é gasta
com viagens de médicos, exames dos pacientes usados como
prova dos milagres e pareceres científicos. Diz Célia
Cadorin, principal postuladora do processo da brasileira nascida
na Itália madre Paulina, que durou 37 anos e culminou com
sua canonização no ano passado: "As evidências
científicas são necessárias para comprovar
o milagre de Deus". Theresa Sanders, professora de teologia da Universidade
Georgetown, nos Estados Unidos, toca em um ponto crucial. Diz ela:
"Na verdade, os santos estão aí. Não são
feitos. Cabe à Igreja usar de todos os meios, inclusive os
científicos, para identificá-los e honrá-los
com a canonização".
| Os
gênios falam de Deus |
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A ciência enfrenta um paradoxo parecido com o
da fé. Por mais que avance, não consegue
desvencilhar-se da idéia de Deus. O físico
Leon Lederman, prêmio Nobel em 1988, é
autor de um livro em que defende que a ciência
deve estudar a "hipótese teológica". Segundo
ele, no atual estágio do conhecimento, o grande
desafio dos cientistas é a explicação
do fenômeno divino. É uma área em
que as mentes mais poderosas do século XX se
enredaram. Albert Einstein, o criador da teoria da relatividade,
que propôs formas inteiramente diferentes de pensar
o tempo, o espaço e a gravitação,
quase se rendeu a Deus com o conceito da "constante
cósmica" uma espécie de número
mágico que ajudava a fechar suas equações.
"Nós vemos um universo maravilhosamente ordenado,
e nosso pensamento limitado não pode compreender
a força misteriosa que move a constelação",
dizia ele. Stephen Hawking, talvez o físico mais
influente depois de Einstein, pensa parecido: "Ou encontramos
explicações científicas para certos
mistérios da criação do universo,
ou teremos de aceitar que ele foi feito com o objetivo
claro de abrigar a vida humana".
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