Edição 1834 . 24 de dezembro de 2003

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Especial

A fé antes e depois de Cristo


João Gabriel de Lima

NESTA EDIÇÃO
Quando começamos a crer
Os santos, a fé e a razão
A terapia da prece
A fé por encomenda

Jesus dividiu a história humana em antes e depois dele. A força dessa delimitação, mesmo para a parte da humanidade que não vê nela a mão divina, é aceita por todos, e não apenas pelos 2 bilhões de cristãos, ou um terço da humanidade. Dois mil anos depois, os sinais materiais da existência em carne e osso de Jesus aparecem mais claros nas análises de historiadores e nas escavações arqueológicas. Discute-se menos agora se Jesus existiu mesmo.

O prodígio maior do pregador que viveu na Palestina, cujo fascínio aumenta com a passagem do tempo, é o fato cada vez mais aceito por estudiosos de todas as religiões de que, além de lançar as bases morais e éticas da civilização ocidental, Jesus reinventou a fé. Essa é a chave para entender Sua permanência e a aceitação de Sua doutrina fora da cristandade.

A fé surgiu como um evento único, uma etapa crucial da humanização que deu impulso evolutivo aos povos pré-históricos que a desenvolveram. A fé foi uma vantagem comparativa na competição pelos recursos escassos da pré-história. Ela criou a cooperação, favoreceu a coesão dos clãs e, principalmente, deu-lhes a noção de transcendência, de futuro e, portanto, de planejamento. Por eras, até que Jesus começasse a pregar, os homens expressaram sua fé quase da mesma maneira. Os deuses, e bem mais tarde o Deus único do judaísmo, eram figuras máximas da autoridade. Para agradar a eles, seus adoradores passavam por cima de todas as regras de convivência. Os deuses gregos eram mesquinhos, vingativos, adúlteros e assassinos. As divindades egípcias podiam dizimar as colheitas apenas porque os sacerdotes tiveram um deslize no instante de fazer-lhes a oferenda, imolando o animal errado. Nada expressa melhor esse período religioso do que a história do Velho Testamento em que Deus, como prova de lealdade, determina ao patriarca Abraão que mate o próprio filho, Isaac. Antes do golpe fatal, um anjo segura a mão do patriarca. Deus dera-se por satisfeito. Como prova de amor a Ele, Abraão foi tão longe que esteve a ponto de matar o próprio filho. Jesus inverteu essa lógica milenar com um ensinamento simples: amar a Deus é amar ao próximo.

Depois de Jesus, Deus passou a ser o Deus da misericórdia, da compaixão e do perdão. Nenhuma filosofia ou religião que o precedeu foi tão clara em estabelecer esses preceitos. Por isso a ruptura operada por Jesus separou a humanidade de seu passado de submissão a deuses cruéis e inaugurou uma nova era, que dura até hoje, quando se comemoram 2003 anos de seu nascimento. Ao fazer isso, Jesus influenciou fortemente todas as religiões de Seu tempo e as que viriam a se organizar, como o islamismo, criado seis séculos depois Dele. Para Maomé e os praticantes do islamismo, Jesus foi um dos grandes profetas da humanidade, e como tal é reverenciado pelos muçulmanos. É um desafio para historiadores, teólogos, antropólogos e outros estudiosos explicar como Jesus e seus seguidores conseguiram dar uma guinada tão profunda nos rumos da humanidade e fundar uma fé distinta de tudo o que existira antes. Atualmente se aceita que nos 3.000 anos que precederam a chegada de Jesus o mundo passou por um empuxo civilizatório movido a comércio e melhoria dos meios de transporte marítimos e o estabelecimento de rotas terrestres. Com a troca de mercadorias veio a troca frenética de idéias que permitiram a criação de uma base comum de convivência – a aritmética, o calendário, a realeza, o clero e os infalíveis sistemas de impostos. Os textos sagrados também começaram a se deixar influenciar uns pelos outros. Nessa área, a mais revolucionária invenção antes de Cristo foi o monoteísmo, ou seja, a veneração de um único deus, sistema criado por Zoroastro, na Pérsia, e adotado pelo judaísmo.

A pregação de Jesus, segundo muitos historiadores, compilou o que havia de mais moderno sobrenadando na civilização antiga, do monoteísmo e da observância de regras do judaísmo ao humanismo do grego Platão e até o pacifismo e a tolerância ensinados pelos textos dos Vedas da Índia. No livro As Religiões da Pré-História, o etnólogo francês André Leroi-Gourhan mostra que as religiões tiveram todas o mesmo berço, a caverna gelada dos homens pré-históricos em plena era glacial. Depois elas foram se diferenciando em liturgias e doutrinas diversas. Jesus teria sido, na visão dele, a força que reunificou os inúmeros impulsos religiosos em torno de Sua palavra. Fosse apenas isso, e o cristianismo seria já uma belíssima e avançada filosofia para o seu tempo. Mas foram outros componentes inéditos da fé cristã e o choque que eles provocaram no mundo o verdadeiro milagre da religião colocada de pé por Jesus. Sua expansão foi tão forte, rápida e misteriosa quanto o próprio surgimento da fé na pré-história.

Em sua obra clássica Declínio e Queda do Império Romano, o historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794) defende a tese de que o cristianismo foi o fator interno determinante para a decadência da maior potência da Antiguidade. O fator externo foram os cercos constantes das hordas bárbaras vindas do norte da Europa e da Ásia. Gibbon diz que a aceitação dos ensinamentos do cristianismo, especialmente a pregação pacifista ("ofereça a outra face"), teria amolecido as legiões romanas. Se ajudou a demolir um império global, o cristianismo teria ajudado a criar muitos outros. Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) mostra como os princípios do cristianismo em sua vertente protestante nortearam a construção da potência hegemônica do mundo atual, os Estados Unidos. Na interpretação de Weber, para se mostrarem dignos da graça divina, os capitalistas ingleses e americanos, principalmente, demonstravam sua fé seguindo a ética do trabalho propugnada nos evangelhos e nas epístolas do apóstolo Paulo. Jesus fez isso tudo sem ter deixado uma única linha escrita, sem montar exércitos nem acumular riquezas e sem ter se afastado mais que algumas centenas de quilômetros da cidade de Nazaré, na Palestina, onde foi criado. Para os historiadores, é quase inexplicável o fato de a mensagem de Jesus ter sobrevivido a seu tempo e avançado dois milênios pregando a paz a guerreiros, ensinando o desapego material aos ricos e a tolerância a monarcas incontrastáveis. Para os cristãos, isso é sinal da origem divina de sua igreja.


Com reportagem de
Natália Viana Rodrigues

 
 
 
 
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