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A
semana
Do
palácio a uma toca de rato

José
Eduardo Barella
AFP
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Hussein, após ser capturado na semana passada, com aspecto de
indigente desorientado |
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Saddam Hussein, o ungido, Glorioso Líder, Descendente direto
do Profeta, Presidente do Iraque, Presidente de seu Conselho de
Comando da Revolução, Marechal-de-Campo de seus exércitos,
Grande Tio de todos os seus clãs e tribos, Comandante-em-Chefe
da Imortal Mãe de Todas as Batalhas, foi descoberto num buraco,
na noite de sábado 13. O tirano que dispunha de 23 palácios
para uso pessoal tinha se escondido numa cova de 1,80 por 2,40 metros,
com uma tampa de concreto camuflada com lixo. Saddam, que propalava
ser a personificação da tradição guerreira
árabe, estava armado com dois fuzis AK-47 e uma pistola,
mas entregou-se sem resistência. Não engoliu uma cápsula
de cianeto, não se matou com um tiro, como fez Adolf Hitler
em situação similar em 1945, nem atirou nos soldados.
Tentou, isso sim, suborná-los com os 750 000 dólares
que guardava numa maleta. "Sou o presidente do Iraque e quero negociar",
propôs, em inglês.
Poucas
vezes se viu um líder nacional em momento de tal fraqueza
e humilhação. As imagens feitas na prisão o
mostram com aspecto de indigente e aparentando bem mais que seus
66 anos. A barba espessa, os cabelos desalinhados e o olhar embaçado,
enquanto um médico militar americano
o examina minuciosamente com luvas de borracha, denunciam o fim
melancólico de um dos tiranos mais sanguinários dos
tempos modernos. Na semana passada, um jornal jordaniano publicou
uma versão alternativa da prisão. Saddam teria sido
drogado por um parente, que lhe servia de guarda-costas, e entregue
grogue aos americanos. A filha Raghad, exilada na Jordânia,
diz que com certeza seu pai foi drogado. De outra forma teria lutado
como "um leão". Qualquer que tenha sido a razão da
desorientação de Saddam logo depois da prisão,
é sempre uma vingança para qualquer um ver um ditador
cruel "pego como um rato", como disse um general americano.
Fotos AP
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O
ESCONDERIJO
Soldados americanos na entrada do buraco onde Saddam estava
escondido: prisão sem resistência
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DITADOR
EM FUGA
Louça suja na cozinha do casebre onde Saddam se abrigava:
longe do luxo e da mordomia dos palácios
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Obcecado
por seu projeto pessoal de tornar-se o líder do mundo árabe
e se apossar das reservas de petróleo do Golfo Pérsico,
Saddam envolveu o Iraque em três guerras que deixaram mais
de meio milhão de iraquianos mortos e arruinaram a economia
de uma nação próspera e rica em petróleo.
Aproveitou os doze anos de sanções econômicas
internacionais impostas pela ONU desde a Guerra do Golfo, em 1991,
para contrabandear petróleo e alimentos, de modo a ampliar
sua fortuna pessoal estimada em 6 bilhões de dólares
pela revista americana Forbes. Para consolidar o poder interno,
Saddam impôs um reino de terror baseado na tortura e na delação.
Explorou com perversidade a diversidade étnica e as alianças
entre clãs e tribos que marcam a sociedade iraquiana: seu
regime perseguiu os muçulmanos xiitas, que formam mais da
metade da população, e massacrou com armas químicas
a minoria curda do norte do país. Descontente com um grupo
étnico que havia milhares de anos vivia numa região
alagada, deu-se ao trabalho de drenar toda a água, causando
o que a ONU considera o maior desastre ecológico do século
XX.
O ditador de Bagdá começou sua carreira como assassino
profissional a soldo do Partido Baath e chegou à chefia do
serviço secreto, a terrível Mukhabarat. Nessa condição,
pôde assaltar o poder, aterrorizando ou simplesmente matando
os rivais. Ambicioso e sem escrúpulos, Saddam transformou
o Mukhabarat em seu principal esteio de poder. A política
de intimidação da população era oficial
e devidamente documentada pela burocracia. Abusos inimagináveis
em qualquer país eram previstos em lei. Um decreto de 2000
estabelecia que o crime de falar mal do presidente seria punido
com o corte da língua do infrator. "Falar mal" é um
conceito amplo. No Iraque, podia incluir até um comentário
desfavorável sobre a elegância das roupas de Saddam.
No regime do ditador, a delação era estimulada com
recompensas em dinheiro. Se o preso fosse condenado à morte,
o prêmio quadruplicava. Não havia necessidade de apresentar
provas bastava uma confissão por escrito, o que estimulava
a tortura. Este não era o último recurso usado pelo
regime, e sim a primeira providência tomada em relação
a qualquer detido.
Não havia limites no catálogo de torturas. Uma prática
usual para quebrar a resistência do preso era estuprar diante
de seus olhos a mãe, mulher, irmãs ou filhas
ou, muitas vezes, como suprema humilhação, o próprio
prisioneiro era sodomizado. A tarefa era conduzida por profissionais
(o cargo se chamava "violador da honra"). Outra prática habitual
consistia em introduzir um ferro incandescente no ânus e em
outros orifícios da pessoa. Há histórias de
crianças que tiveram olhos arrancados diante dos pais e avôs.
Está documentado o episódio em que uma menina de 2
anos teve os ossos dos pés esmagados para que a mãe
revelasse o esconderijo do pai. Pernas e braços eram carbonizados
para forçar uma confissão.
Os requintes de crueldade, agora narrados em profusão pelos
sobreviventes, sugerem que a família Hussein não torturava
apenas por razões práticas. Parece que desfrutava
perverso prazer em provocar sofrimento. Ambos os filhos de Saddam,
Udai e Qusai, participavam pessoalmente do suplício de desafetos.
Jogadores de futebol contam que Udai, filho mais velho do ditador
e manda-chuva nos esportes nacionais, rotineiramente espancava e
torturava os atletas que perdiam partidas internacionais. Muitas
vezes o jogador era trancafiado por dias numa gaiola de ferro, no
formato de corpo humano, a "dama de ferro". De comportamento psicopata,
a ponto de o pai ter sido forçado a substituí-lo pelo
irmão na linha de sucessão, Udai tinha especial predileção
pelo uso de uma de suas criações, uma variação
da cama de pregos dos faquires. Também mandava seqüestrar
qualquer jovem que lhe agradasse e a estuprava no palácio.
É possível que o atentado a tiros que o deixou inválido
em 1996 tenha sido uma vingança pelos estupros.
Na página 40 da revista estão as fotos de três
iraquianos que poderão exibir no tribunal as marcas de punições
bárbaras. O primeiro é Farris Salman, de 23 anos.
Morador de Bagdá, ele discutiu com os fedains, a milícia
paramilitar comandada por Udai, e xingou Saddam. Sua língua
foi amputada com um estilete, diante de uma multidão convocada
especialmente para a ocasião. O seguinte é Kadhim
Sabbit al-Datajji, de 61 anos, acusado de "traição"
e torturado diariamente durante dois anos. Um de seus olhos inchou
devido aos espancamentos e, em lugar de ser tratado, foi arrancado
pelo médico da prisão. O terceiro é Ali Kadhem
Ghanem, soldado de 29 anos, que teve uma orelha cortada por ter
se ausentado de seu posto sem permissão. Isso ocorreu em
1994, quando o regime decretou a mutilação como forma
de conter a onda de deserções provocada pelo rumor
de que Saddam preparava uma nova invasão do Kuwait. Para
os reincidentes havia uma punição adicional: uma marca
de X no rosto, aplicada por um ferro em brasa.
Na prisão, Saddam se mantinha desafiante na semana passada.
Recusou-se a assumir a responsabilidade pelos crimes do regime
em sua versão, as vítimas eram todas "traidoras e
desertoras" e insistia em se declarar o legítimo presidente
do Iraque. Usando uma tática psicológica de interrogatório,
seus carcereiros decidiram confrontá-lo com cenas de tortura
e execuções ordenadas por ele, além da abertura
de covas coletivas de pessoas assassinadas pelo regime. Os filmes
das atrocidades foram feitos pela própria polícia
de Saddam, que os utilizava para ameaçar parentes e amigos
das vítimas. Também está previsto que um grupo
de 25 vítimas de torturas vai visitar o ex-ditador na cadeia
para confrontá-lo com as provas físicas de sua maldade.
Um deles, Abdulwahad al-Obeidi, vai exibir as costas corroídas
por um método bastante utilizado pela polícia secreta:
o banho de ácido. Preso nos anos 70, ele foi pego pelos braços
e pelas pernas por carcereiros e, por um segundo, mergulhado de
costas no banho. Em carne viva, com as vértebras expostas,
foi levado secretamente por parentes para ser tratado na Inglaterra.
Só se dispôs a voltar ao Iraque depois da prisão
de Saddam. Nem ele sabe por que teve a vida poupada. O banho de
ácido era normalmente uma forma de execução.
O mergulho que provocava dores alucinantes era lento e começava
pelos pés.
Outro pilar de sustentação de Saddam eram as relações
de sangue, prática comum em sociedades tribais como a iraquiana.
O ditador cercou-se de parentes nos postos-chave do governo, nos
órgãos de segurança e nas Forças Armadas.
A lealdade era recompensada com mordomias. Quem traísse sua
confiança, porém, sofria castigo terrível.
O caso mais conhecido envolveu os dois genros de Saddam. Eles fugiram
para a Jordânia, em 1995, levando os segredos do programa
de armas proibidas do Iraque, após se desentenderem com Udai.
Convencidos a voltar para Bagdá com a promessa de perdão
por parte de Saddam, retornaram com as filhas e os netos do ditador.
Acabaram executados a tiros três dias depois da chegada. No
total, 51 parentes de Saddam foram assassinados sob acusação
de traição. A maioria estava envolvida nas seis tentativas
de golpe que Saddam abortou antes de ser derrubado pelos americanos.
O ditador é casado desde 1963 com Sajida, mãe de seus
cinco filhos. Ele tem outras três mulheres, como permite a
religião muçulmana. Uma delas é Samira Shahbandar,
com quem casou em 1986 e tem um filho de 21 anos, Ali. Numa entrevista
ao jornal inglês Sunday Times, há duas semanas,
Samira contou que era casada com um piloto da Força Aérea
e tinha um casal de filhos quando conheceu o ditador, no início
dos anos 80. Eles começaram a namorar e logo depois Saddam
seqüestrou seu marido para coagi-lo a se divorciar. Em troca,
deu a ele o cargo de presidente da companhia aérea iraquiana.
No último encontro, duas semanas após a queda de Bagdá,
Saddam lhe entregou 5 milhões de dólares em dinheiro
e uma caixa com 10 quilos de barras de ouro, além de passaportes
falsos, para que ela fugisse para a Síria com Ali. De lá,
os dois seguiram para Beirute, onde vivem. Em 2000, aos 63 anos,
o ditador encantou-se com Iman, 40 anos mais jovem e filha de um
assessor. Em troca do consentimento para o matrimônio, o pai
da noiva foi nomeado ministro da Indústria Militar.
A captura do tirano encerra uma fase da guerra no Iraque. Os Estados
Unidos invadiram o país em março com a missão
explícita de depor Saddam Hussein e desbaratar seu estoque
de armas de destruição em massa. Apesar de terem procurado
atrás de cada pedra, os americanos até agora não
encontraram vestígio do tal arsenal. É um tanto constrangedor
para a Casa Branca, mas não altera na essência o objetivo
da guerra, que era eliminar um foco de instabilidade no coração
do Oriente Médio. Não foi o armamento proibido que
transformou Saddam num perigo global, e sim seu insaciável
apetite por conquistar territórios vizinhos e patrocinar
o terrorismo. O que os americanos têm atrás das grades
é um troféu relativamente raro: um tirano culpado
de genocídio. A questão é o que fazer com ele.
O julgamento de Saddam, que pode se transformar num grande show
com transmissão direta pela televisão, é importante
para mostrar aos iraquianos e ao mundo todas as atrocidades cometidas
pelo regime e dar legitimidade à invasão militar americana
que o derrubou.
Ainda não se sabe como isso será feito. Como lidar
com um ditador deposto é um problema de grande complexidade
para os países vitoriosos. Ditadores foram líderes
de um país soberano, mesmo que tenham tomado o poder pela
força. Desde o século XVII, incorporou-se ao direito
internacional o princípio de que líderes de Estados
soberanos não podem ser julgados por outros países.
Um precedente foi aberto após a II Guerra. Os crimes de Hitler
e seus cúmplices eram tão gigantescos que os países
aliados, vencedores do conflito, não queriam permitir que
escapassem impunes. A solução foi criar um novo corpo
de leis, baseado na idéia de uma justiça natural universal,
sob a qual eles poderiam ser considerados culpados, e um tribunal
específico para julgar os acusados. Mais recentemente, a
ONU instalou o Tribunal Internacional Penal, em Haia, na Holanda,
para julgar os crimes de guerra cometidos na ex-Iugoslávia.
Há outro, também organizado pela ONU, que julga os
responsáveis pelo genocídio em Ruanda, na África.
Seja qual for o tribunal para o qual o ex-ditador será levado,
suas chances de escapar de uma punição rigorosa são
reduzidas. Estima-se em 300 000 o número de iraquianos desaparecidos
nos porões da ditadura.
A captura de Saddam, ocorrida depois da morte de seus dois filhos
em confronto com os americanos, pode convencer os iraquianos de
que o velho regime está realmente morto e que a preocupação
deles agora deve ser com um novo futuro. Mas a espiral de violência
após a prisão do ditador foragido mostra que ainda
há uma quantidade suficiente de iraquianos dispostos a continuar
a lutar contra a ocupação americana. Saddam poderia
ter se livrado das sanções internacionais impostas
pela ONU, que empobreceram seu povo, e da própria invasão
americana simplesmente concordando em entregar suas armas de destruição
em massa arsenal que aparentemente destruiu por iniciativa
própria depois de derrotado na Guerra do Golfo, em 1991.
Só o delírio causado pelo poder absoluto, aliado à
depravada indiferença para com a desgraça de seu próprio
povo, pode explicar por que ele preferiu o confronto. Depois da
invasão do Kuwait, em 1990, até mesmo os países
árabes lhe deram as costas. Saddam iludiu-se com sua ambição
até o fim. Certo de que os Estados Unidos não invadiriam
o país, apesar da mobilização militar determinada
por Bush, Saddam mandou etiquetar todos os móveis do principal
palácio presidencial, em Bagdá. Ele acreditava que,
após os bombardeios, o presidente americano desistiria de
derrubá-lo e ele poderia retomar sua rotina de ditador. Acabou,
como resumiu o secretário de Estado americano, Colin Powell,
"como um detrito esperando para ser coletado". Agora, resta apenas
jogá-lo na lata do lixo da história.
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