Edição 1834 . 24 de dezembro de 2003

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A semana
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A semana

Do palácio a uma toca de rato


José Eduardo Barella

AFP
Saddam Hussein, após ser capturado na semana passada, com aspecto de indigente desorientado
NESTA EDIÇÃO
Uma família destroçada pela ambição
E nem parecia Bush...
NA INTERNET
Em Profundidade: A Era Saddam


Saddam Hussein, o ungido, Glorioso Líder, Descendente direto do Profeta, Presidente do Iraque, Presidente de seu Conselho de Comando da Revolução, Marechal-de-Campo de seus exércitos, Grande Tio de todos os seus clãs e tribos, Comandante-em-Chefe da Imortal Mãe de Todas as Batalhas, foi descoberto num buraco, na noite de sábado 13. O tirano que dispunha de 23 palácios para uso pessoal tinha se escondido numa cova de 1,80 por 2,40 metros, com uma tampa de concreto camuflada com lixo. Saddam, que propalava ser a personificação da tradição guerreira árabe, estava armado com dois fuzis AK-47 e uma pistola, mas entregou-se sem resistência. Não engoliu uma cápsula de cianeto, não se matou com um tiro, como fez Adolf Hitler em situação similar em 1945, nem atirou nos soldados. Tentou, isso sim, suborná-los com os 750 000 dólares que guardava numa maleta. "Sou o presidente do Iraque e quero negociar", propôs, em inglês.

Poucas vezes se viu um líder nacional em momento de tal fraqueza e humilhação. As imagens feitas na prisão o mostram com aspecto de indigente e aparentando bem mais que seus 66 anos. A barba espessa, os cabelos desalinhados e o olhar embaçado, enquanto um médico militar americano o examina minuciosamente com luvas de borracha, denunciam o fim melancólico de um dos tiranos mais sanguinários dos tempos modernos. Na semana passada, um jornal jordaniano publicou uma versão alternativa da prisão. Saddam teria sido drogado por um parente, que lhe servia de guarda-costas, e entregue grogue aos americanos. A filha Raghad, exilada na Jordânia, diz que com certeza seu pai foi drogado. De outra forma teria lutado como "um leão". Qualquer que tenha sido a razão da desorientação de Saddam logo depois da prisão, é sempre uma vingança para qualquer um ver um ditador cruel "pego como um rato", como disse um general americano.

 
Fotos AP

O ESCONDERIJO
Soldados americanos na entrada do buraco onde Saddam estava escondido: prisão sem resistência

DITADOR EM FUGA
Louça suja na cozinha do casebre onde Saddam se abrigava: longe do luxo e da mordomia dos palácios

Obcecado por seu projeto pessoal de tornar-se o líder do mundo árabe e se apossar das reservas de petróleo do Golfo Pérsico, Saddam envolveu o Iraque em três guerras que deixaram mais de meio milhão de iraquianos mortos e arruinaram a economia de uma nação próspera e rica em petróleo. Aproveitou os doze anos de sanções econômicas internacionais impostas pela ONU desde a Guerra do Golfo, em 1991, para contrabandear petróleo e alimentos, de modo a ampliar sua fortuna pessoal – estimada em 6 bilhões de dólares pela revista americana Forbes. Para consolidar o poder interno, Saddam impôs um reino de terror baseado na tortura e na delação. Explorou com perversidade a diversidade étnica e as alianças entre clãs e tribos que marcam a sociedade iraquiana: seu regime perseguiu os muçulmanos xiitas, que formam mais da metade da população, e massacrou com armas químicas a minoria curda do norte do país. Descontente com um grupo étnico que havia milhares de anos vivia numa região alagada, deu-se ao trabalho de drenar toda a água, causando o que a ONU considera o maior desastre ecológico do século XX.

O ditador de Bagdá começou sua carreira como assassino profissional a soldo do Partido Baath e chegou à chefia do serviço secreto, a terrível Mukhabarat. Nessa condição, pôde assaltar o poder, aterrorizando ou simplesmente matando os rivais. Ambicioso e sem escrúpulos, Saddam transformou o Mukhabarat em seu principal esteio de poder. A política de intimidação da população era oficial e devidamente documentada pela burocracia. Abusos inimagináveis em qualquer país eram previstos em lei. Um decreto de 2000 estabelecia que o crime de falar mal do presidente seria punido com o corte da língua do infrator. "Falar mal" é um conceito amplo. No Iraque, podia incluir até um comentário desfavorável sobre a elegância das roupas de Saddam. No regime do ditador, a delação era estimulada com recompensas em dinheiro. Se o preso fosse condenado à morte, o prêmio quadruplicava. Não havia necessidade de apresentar provas – bastava uma confissão por escrito, o que estimulava a tortura. Este não era o último recurso usado pelo regime, e sim a primeira providência tomada em relação a qualquer detido.

Não havia limites no catálogo de torturas. Uma prática usual para quebrar a resistência do preso era estuprar diante de seus olhos a mãe, mulher, irmãs ou filhas – ou, muitas vezes, como suprema humilhação, o próprio prisioneiro era sodomizado. A tarefa era conduzida por profissionais (o cargo se chamava "violador da honra"). Outra prática habitual consistia em introduzir um ferro incandescente no ânus e em outros orifícios da pessoa. Há histórias de crianças que tiveram olhos arrancados diante dos pais e avôs. Está documentado o episódio em que uma menina de 2 anos teve os ossos dos pés esmagados para que a mãe revelasse o esconderijo do pai. Pernas e braços eram carbonizados para forçar uma confissão.

Os requintes de crueldade, agora narrados em profusão pelos sobreviventes, sugerem que a família Hussein não torturava apenas por razões práticas. Parece que desfrutava perverso prazer em provocar sofrimento. Ambos os filhos de Saddam, Udai e Qusai, participavam pessoalmente do suplício de desafetos. Jogadores de futebol contam que Udai, filho mais velho do ditador e manda-chuva nos esportes nacionais, rotineiramente espancava e torturava os atletas que perdiam partidas internacionais. Muitas vezes o jogador era trancafiado por dias numa gaiola de ferro, no formato de corpo humano, a "dama de ferro". De comportamento psicopata, a ponto de o pai ter sido forçado a substituí-lo pelo irmão na linha de sucessão, Udai tinha especial predileção pelo uso de uma de suas criações, uma variação da cama de pregos dos faquires. Também mandava seqüestrar qualquer jovem que lhe agradasse e a estuprava no palácio. É possível que o atentado a tiros que o deixou inválido em 1996 tenha sido uma vingança pelos estupros.

Na página 40 da revista estão as fotos de três iraquianos que poderão exibir no tribunal as marcas de punições bárbaras. O primeiro é Farris Salman, de 23 anos. Morador de Bagdá, ele discutiu com os fedains, a milícia paramilitar comandada por Udai, e xingou Saddam. Sua língua foi amputada com um estilete, diante de uma multidão convocada especialmente para a ocasião. O seguinte é Kadhim Sabbit al-Datajji, de 61 anos, acusado de "traição" e torturado diariamente durante dois anos. Um de seus olhos inchou devido aos espancamentos e, em lugar de ser tratado, foi arrancado pelo médico da prisão. O terceiro é Ali Kadhem Ghanem, soldado de 29 anos, que teve uma orelha cortada por ter se ausentado de seu posto sem permissão. Isso ocorreu em 1994, quando o regime decretou a mutilação como forma de conter a onda de deserções provocada pelo rumor de que Saddam preparava uma nova invasão do Kuwait. Para os reincidentes havia uma punição adicional: uma marca de X no rosto, aplicada por um ferro em brasa.

Na prisão, Saddam se mantinha desafiante na semana passada. Recusou-se a assumir a responsabilidade pelos crimes do regime – em sua versão, as vítimas eram todas "traidoras e desertoras" – e insistia em se declarar o legítimo presidente do Iraque. Usando uma tática psicológica de interrogatório, seus carcereiros decidiram confrontá-lo com cenas de tortura e execuções ordenadas por ele, além da abertura de covas coletivas de pessoas assassinadas pelo regime. Os filmes das atrocidades foram feitos pela própria polícia de Saddam, que os utilizava para ameaçar parentes e amigos das vítimas. Também está previsto que um grupo de 25 vítimas de torturas vai visitar o ex-ditador na cadeia para confrontá-lo com as provas físicas de sua maldade. Um deles, Abdulwahad al-Obeidi, vai exibir as costas corroídas por um método bastante utilizado pela polícia secreta: o banho de ácido. Preso nos anos 70, ele foi pego pelos braços e pelas pernas por carcereiros e, por um segundo, mergulhado de costas no banho. Em carne viva, com as vértebras expostas, foi levado secretamente por parentes para ser tratado na Inglaterra. Só se dispôs a voltar ao Iraque depois da prisão de Saddam. Nem ele sabe por que teve a vida poupada. O banho de ácido era normalmente uma forma de execução. O mergulho que provocava dores alucinantes era lento e começava pelos pés.

Outro pilar de sustentação de Saddam eram as relações de sangue, prática comum em sociedades tribais como a iraquiana. O ditador cercou-se de parentes nos postos-chave do governo, nos órgãos de segurança e nas Forças Armadas. A lealdade era recompensada com mordomias. Quem traísse sua confiança, porém, sofria castigo terrível. O caso mais conhecido envolveu os dois genros de Saddam. Eles fugiram para a Jordânia, em 1995, levando os segredos do programa de armas proibidas do Iraque, após se desentenderem com Udai. Convencidos a voltar para Bagdá com a promessa de perdão por parte de Saddam, retornaram com as filhas e os netos do ditador. Acabaram executados a tiros três dias depois da chegada. No total, 51 parentes de Saddam foram assassinados sob acusação de traição. A maioria estava envolvida nas seis tentativas de golpe que Saddam abortou antes de ser derrubado pelos americanos.

O ditador é casado desde 1963 com Sajida, mãe de seus cinco filhos. Ele tem outras três mulheres, como permite a religião muçulmana. Uma delas é Samira Shahbandar, com quem casou em 1986 e tem um filho de 21 anos, Ali. Numa entrevista ao jornal inglês Sunday Times, há duas semanas, Samira contou que era casada com um piloto da Força Aérea e tinha um casal de filhos quando conheceu o ditador, no início dos anos 80. Eles começaram a namorar e logo depois Saddam seqüestrou seu marido para coagi-lo a se divorciar. Em troca, deu a ele o cargo de presidente da companhia aérea iraquiana.

No último encontro, duas semanas após a queda de Bagdá, Saddam lhe entregou 5 milhões de dólares em dinheiro e uma caixa com 10 quilos de barras de ouro, além de passaportes falsos, para que ela fugisse para a Síria com Ali. De lá, os dois seguiram para Beirute, onde vivem. Em 2000, aos 63 anos, o ditador encantou-se com Iman, 40 anos mais jovem e filha de um assessor. Em troca do consentimento para o matrimônio, o pai da noiva foi nomeado ministro da Indústria Militar.

A captura do tirano encerra uma fase da guerra no Iraque. Os Estados Unidos invadiram o país em março com a missão explícita de depor Saddam Hussein e desbaratar seu estoque de armas de destruição em massa. Apesar de terem procurado atrás de cada pedra, os americanos até agora não encontraram vestígio do tal arsenal. É um tanto constrangedor para a Casa Branca, mas não altera na essência o objetivo da guerra, que era eliminar um foco de instabilidade no coração do Oriente Médio. Não foi o armamento proibido que transformou Saddam num perigo global, e sim seu insaciável apetite por conquistar territórios vizinhos e patrocinar o terrorismo. O que os americanos têm atrás das grades é um troféu relativamente raro: um tirano culpado de genocídio. A questão é o que fazer com ele. O julgamento de Saddam, que pode se transformar num grande show com transmissão direta pela televisão, é importante para mostrar aos iraquianos e ao mundo todas as atrocidades cometidas pelo regime e dar legitimidade à invasão militar americana que o derrubou.

Ainda não se sabe como isso será feito. Como lidar com um ditador deposto é um problema de grande complexidade para os países vitoriosos. Ditadores foram líderes de um país soberano, mesmo que tenham tomado o poder pela força. Desde o século XVII, incorporou-se ao direito internacional o princípio de que líderes de Estados soberanos não podem ser julgados por outros países. Um precedente foi aberto após a II Guerra. Os crimes de Hitler e seus cúmplices eram tão gigantescos que os países aliados, vencedores do conflito, não queriam permitir que escapassem impunes. A solução foi criar um novo corpo de leis, baseado na idéia de uma justiça natural universal, sob a qual eles poderiam ser considerados culpados, e um tribunal específico para julgar os acusados. Mais recentemente, a ONU instalou o Tribunal Internacional Penal, em Haia, na Holanda, para julgar os crimes de guerra cometidos na ex-Iugoslávia. Há outro, também organizado pela ONU, que julga os responsáveis pelo genocídio em Ruanda, na África. Seja qual for o tribunal para o qual o ex-ditador será levado, suas chances de escapar de uma punição rigorosa são reduzidas. Estima-se em 300 000 o número de iraquianos desaparecidos nos porões da ditadura.

A captura de Saddam, ocorrida depois da morte de seus dois filhos em confronto com os americanos, pode convencer os iraquianos de que o velho regime está realmente morto e que a preocupação deles agora deve ser com um novo futuro. Mas a espiral de violência após a prisão do ditador foragido mostra que ainda há uma quantidade suficiente de iraquianos dispostos a continuar a lutar contra a ocupação americana. Saddam poderia ter se livrado das sanções internacionais impostas pela ONU, que empobreceram seu povo, e da própria invasão americana simplesmente concordando em entregar suas armas de destruição em massa – arsenal que aparentemente destruiu por iniciativa própria depois de derrotado na Guerra do Golfo, em 1991. Só o delírio causado pelo poder absoluto, aliado à depravada indiferença para com a desgraça de seu próprio povo, pode explicar por que ele preferiu o confronto. Depois da invasão do Kuwait, em 1990, até mesmo os países árabes lhe deram as costas. Saddam iludiu-se com sua ambição até o fim. Certo de que os Estados Unidos não invadiriam o país, apesar da mobilização militar determinada por Bush, Saddam mandou etiquetar todos os móveis do principal palácio presidencial, em Bagdá. Ele acreditava que, após os bombardeios, o presidente americano desistiria de derrubá-lo e ele poderia retomar sua rotina de ditador. Acabou, como resumiu o secretário de Estado americano, Colin Powell, "como um detrito esperando para ser coletado". Agora, resta apenas jogá-lo na lata do lixo da história.

 
 
 
 
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