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Carta
do Editor: Roberto Civita
Muito
bem! Mas é preciso reinventar a roda?
"Temos
mesmo tanto tempo, tanta
inteligência e
tanto dinheiro para
desperdiçar? É
preciso, enfim, mudar
por mudar em
vez de mudar para
aperfeiçoar e
avançar?"
Na primeira edição de VEJA deste ano, fiz votos de
que 2003 não fosse "um ano tão bom assim, mas o ano
em que o novo governo demonstre a firmeza, a coragem e a sabedoria"
para combater sem trégua o perigoso surto inflacionário
da época e completar as essenciais reformas da estrutura
estatal.
É
uma alegria, passado o primeiro ano do governo Lula, poder registrar
que a inflação foi de fato debelada (com enormes sacrifícios
na frente do crescimento) e que as reformas previdenciária
e tributária embora longe de ser aquelas muito mais
abrangentes de que precisamos pelo menos foram aprovadas.
Obviamente, entretanto, a batalha continua, pois é imperativo
não apenas voltar a crescer e criar empregos em 2004 mas
também fazê-lo de forma que o Brasil entre finalmente
numa espiral ascendente de crescimento sustentável. Já
é hora de encerrar de uma vez o frustrante e danoso sobe-e-desce
das últimas décadas.
Do ponto de vista dos fundamentos econômicos e de nossa democracia,
portanto, tudo muito bem. Fizemos a primeira grande alternância
de poder desde o fim da ditadura militar sem traumas ou rupturas
institucionais, mostrando que o Brasil se transformou de fato numa
das grandes nações democráticas do planeta.
Mas também ficou evidente que ainda temos muito a aprender
sobre como efetuar essas salutares trocas de partido no poder.
A história da civilização é a história
de construir sobre o que já se aprendeu. É a evolução
da escrita cuneiforme em pedra até a imprensa moderna e a
internet. É a evolução do pensamento, da ciência,
da arte e da tecnologia sempre baseados no que nossos antepassados
desenvolveram com enorme dificuldade e esforço. É
a acumulação sistemática do conhecimento, baseada
quase sempre no processo de tentativa e erro.
Ao longo deste primeiro ano do novo governo, assistimos a um processo
de mudança de guarda que a meu ver merece questionamento.
Não se discute que um novo governo precisa instalar pessoas
de sua confiança nos cargos-chave da República. Mas
quantas são essas? Centenas? Milhares? Dezenas de milhares?
Podemos realmente nos dar ao luxo de dispensar os serviços
da elite dos servidores públicos, instalar legiões
de novos sem-experiência, e aguardar enquanto aprendem tudo
do começo? É preciso gastar tempo e dinheiro em rebatizar
velhos e bons programas com nomes novos? É preciso jogar
fora os estudos, análises e projetos desenvolvidos pelos
governos anteriores e recomeçar tudo da estaca zero? Temos
mesmo tanto tempo, tanta inteligência e tanto dinheiro para
desperdiçar? É preciso, enfim, mudar por mudar em
vez de mudar para aperfeiçoar e avançar?
Evidentemente, não. Precisamos, portanto, rever as regras
do jogo desse processo à luz do que fazem os países
com uma tradição de administração pública
profissional, imparcial e competente. Para que a saudável
e necessária alternância de poder que é a essência
do processo democrático não implique também
a destruição das estruturas que representam não
apenas um patrimônio construído por gerações
de brasileiros mas também os alicerces de um governo eficaz.
Roberto Civita é presidente da Abril e editor de VEJA
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