Edição 1834 . 24 de dezembro de 2003

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Carta do Editor: Roberto Civita
Muito bem! Mas é preciso reinventar a roda?

"Temos mesmo tanto tempo, tanta
inteligência
e tanto dinheiro para
desperdiçar?
É preciso, enfim, mudar
por mudar
em vez de mudar para
aperfeiçoar
e avançar?"

Na primeira edição de VEJA deste ano, fiz votos de que 2003 não fosse "um ano tão bom assim, mas o ano em que o novo governo demonstre a firmeza, a coragem e a sabedoria" para combater sem trégua o perigoso surto inflacionário da época e completar as essenciais reformas da estrutura estatal.

É uma alegria, passado o primeiro ano do governo Lula, poder registrar que a inflação foi de fato debelada (com enormes sacrifícios na frente do crescimento) e que as reformas previdenciária e tributária – embora longe de ser aquelas muito mais abrangentes de que precisamos – pelo menos foram aprovadas.

Obviamente, entretanto, a batalha continua, pois é imperativo não apenas voltar a crescer e criar empregos em 2004 mas também fazê-lo de forma que o Brasil entre finalmente numa espiral ascendente de crescimento sustentável. Já é hora de encerrar de uma vez o frustrante e danoso sobe-e-desce das últimas décadas.

Do ponto de vista dos fundamentos econômicos e de nossa democracia, portanto, tudo muito bem. Fizemos a primeira grande alternância de poder desde o fim da ditadura militar sem traumas ou rupturas institucionais, mostrando que o Brasil se transformou de fato numa das grandes nações democráticas do planeta. Mas também ficou evidente que ainda temos muito a aprender sobre como efetuar essas salutares trocas de partido no poder.

A história da civilização é a história de construir sobre o que já se aprendeu. É a evolução da escrita cuneiforme em pedra até a imprensa moderna e a internet. É a evolução do pensamento, da ciência, da arte e da tecnologia sempre baseados no que nossos antepassados desenvolveram com enorme dificuldade e esforço. É a acumulação sistemática do conhecimento, baseada quase sempre no processo de tentativa e erro.

Ao longo deste primeiro ano do novo governo, assistimos a um processo de mudança de guarda que – a meu ver – merece questionamento. Não se discute que um novo governo precisa instalar pessoas de sua confiança nos cargos-chave da República. Mas quantas são essas? Centenas? Milhares? Dezenas de milhares? Podemos realmente nos dar ao luxo de dispensar os serviços da elite dos servidores públicos, instalar legiões de novos sem-experiência, e aguardar enquanto aprendem tudo do começo? É preciso gastar tempo e dinheiro em rebatizar velhos e bons programas com nomes novos? É preciso jogar fora os estudos, análises e projetos desenvolvidos pelos governos anteriores e recomeçar tudo da estaca zero? Temos mesmo tanto tempo, tanta inteligência e tanto dinheiro para desperdiçar? É preciso, enfim, mudar por mudar em vez de mudar para aperfeiçoar e avançar?

Evidentemente, não. Precisamos, portanto, rever as regras do jogo desse processo à luz do que fazem os países com uma tradição de administração pública profissional, imparcial e competente. Para que a saudável e necessária alternância de poder que é a essência do processo democrático não implique também a destruição das estruturas que representam não apenas um patrimônio construído por gerações de brasileiros mas também os alicerces de um governo eficaz.


Roberto Civita é presidente da Abril e editor de VEJA

 
 
 
 
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