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Festa sem fim
Ruy Castro resgata a Ipanema do desbunde,
da esquerda festiva e das mulheres liberadas
Quem
morava em Ipanema nos anos 60 e 70 costumava se gabar
de viver numa cidade independente do Rio de Janeiro.
Naquela época, o bairro ainda não se encontrava
superpovoado, não tinha fama de chique e era
habitado quase que exclusivamente por uma variada fauna
de artistas, escritores, intelectuais e pretendentes
a esses títulos. Lá a esquerda era festiva
e, principalmente, festeira. Para tornar o cenário
ainda mais efervescente, entre os mais jovens vivia-se
o apogeu da contracultura, ou, no jargão ipanemês,
o desbunde. Foi uma época inesquecível,
dirão seus remanescentes. É o que também
acha o escritor Ruy Castro, mineiro de Ipanema. Ruy,
que em obras anteriores já contou a história
da bossa nova e as vidas do dramaturgo Nelson Rodrigues
e do jogador Garrincha, lança nesta semana Ela
É Carioca Uma Enciclopédia
de Ipanema
(Companhia das Letras; 429 páginas; 33,50 reais).
Joel Maia
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Arquivo
pessoal
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Betty Faria
e Tom Jobim: nomes ilustres
de uma fauna variada
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O livro,
organizado em verbetes, é um completo quem-é-quem
na Ipanema dos áureos tempos. Cada verbete conta
a vida do personagem, sua obra (quando há) e,
principalmente, sua contribuição particular
ao folclore do bairro. É claro que o livro interessa
particularmente aos cariocas e agregados de mais de
40 anos, mas não apenas a eles. Primeiro, porque
Ipanema, afinal de contas, tornou-se uma lenda nacional.
Segundo, porque na maioria os verbetes são muito
engraçados. Se alguém guarda a impressão
de que todos os que habitavam a faixa de território
entre Copacabana e Leblon viviam numa esbórnia
sem fim, o livro o confirma plenamente.
Há
de tudo entre as figuras resgatadas pelo livro de Ruy.
A atriz Betty Faria, por exemplo, é mostrada
como uma das pioneiras das idéias libertárias
vigentes na época. Ainda adolescente, foi ser
vedete. O pai, general do Exército, não
gostou nadinha. "Para ele, comandar 500 soldados xucros
era fácil o difícil era comandar
Betty Faria", escreve Ruy. Outro personagem com perfil
semelhante, a atriz Leila Diniz, ganha um dos maiores
verbetes. Ela era a feminista da qual as feministas
não gostavam porque "fazia o jogo dos homens".
Tom Jobim, lembra o autor, era festejado em Ipanema
como nada menos que o homem mais bonito de sua geração.
Ao lado dessas figuras ilustres há muitas outras
que só tinham fama no bairro, mas que protagonizam
boas histórias. Como o frei Leovigildo Balestieri,
pároco da Igreja Nossa Senhora da Paz, na praça
do mesmo nome. Criticado duramente por gastar dinheiro
para instalar aparelhos de ar refrigerado na igreja,
ele respondia: "Quem gosta de calor é o demônio
no inferno".
A figura
mais emblemática e curiosa do livro, no entanto,
é Roniquito de Chevalier, que encarnava uma espécie
de doutor Jekyll e mister Hyde da vida real. Economista
brilhante, a quem até Mario Henrique Simonsen,
segundo Ruy, chegava a pedir conselhos com freqüência,
Roniquito se transformava depois do quarto uísque.
A partir de então, era de uma franqueza desconcertante
e aprontava as maiores confusões. Certa vez,
já embriagado, no restaurante do Museu de Arte
Moderna, avançou em direção ao
presidente Costa e Silva e pediu fogo para acender seu
cigarro. Foi preso pelos seguranças e, com ele,
um americano que ele ciceroneava no Rio a pedido do
então ministro Nascimento Silva. Na delegacia,
o americano exigia em inglês, naturalmente
a presença do embaixador de seu país.
"Que que o gringo tá falando?" perguntou o delegado
a Roniquito. "Ele está dizendo que a polícia
no Brasil é uma m...", "traduziu" o economista.
É de episódios como esses que se alimenta
a história de Ipanema.
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