Edição 1 625 - 24/11/1999

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Festa sem fim

Ruy Castro resgata a Ipanema do desbunde,
da esquerda festiva e das mulheres liberadas

 

Quem morava em Ipanema nos anos 60 e 70 costumava se gabar de viver numa cidade independente do Rio de Janeiro. Naquela época, o bairro ainda não se encontrava superpovoado, não tinha fama de chique e era habitado quase que exclusivamente por uma variada fauna de artistas, escritores, intelectuais e pretendentes a esses títulos. Lá a esquerda era festiva e, principalmente, festeira. Para tornar o cenário ainda mais efervescente, entre os mais jovens vivia-se o apogeu da contracultura, ou, no jargão ipanemês, o desbunde. Foi uma época inesquecível, dirão seus remanescentes. É o que também acha o escritor Ruy Castro, mineiro de Ipanema. Ruy, que em obras anteriores já contou a história da bossa nova e as vidas do dramaturgo Nelson Rodrigues e do jogador Garrincha, lança nesta semana Ela É CariocaUma Enciclopédia de Ipanema (Companhia das Letras; 429 páginas; 33,50 reais).

Joel Maia
Arquivo pessoal
Betty Faria e Tom Jobim: nomes ilustres de uma fauna variada


O livro, organizado em verbetes, é um completo quem-é-quem na Ipanema dos áureos tempos. Cada verbete conta a vida do personagem, sua obra (quando há) e, principalmente, sua contribuição particular ao folclore do bairro. É claro que o livro interessa particularmente aos cariocas e agregados de mais de 40 anos, mas não apenas a eles. Primeiro, porque Ipanema, afinal de contas, tornou-se uma lenda nacional. Segundo, porque na maioria os verbetes são muito engraçados. Se alguém guarda a impressão de que todos os que habitavam a faixa de território entre Copacabana e Leblon viviam numa esbórnia sem fim, o livro o confirma plenamente.

Há de tudo entre as figuras resgatadas pelo livro de Ruy. A atriz Betty Faria, por exemplo, é mostrada como uma das pioneiras das idéias libertárias vigentes na época. Ainda adolescente, foi ser vedete. O pai, general do Exército, não gostou nadinha. "Para ele, comandar 500 soldados xucros era fácil – o difícil era comandar Betty Faria", escreve Ruy. Outro personagem com perfil semelhante, a atriz Leila Diniz, ganha um dos maiores verbetes. Ela era a feminista da qual as feministas não gostavam porque "fazia o jogo dos homens". Tom Jobim, lembra o autor, era festejado em Ipanema como nada menos que o homem mais bonito de sua geração. Ao lado dessas figuras ilustres há muitas outras que só tinham fama no bairro, mas que protagonizam boas histórias. Como o frei Leovigildo Balestieri, pároco da Igreja Nossa Senhora da Paz, na praça do mesmo nome. Criticado duramente por gastar dinheiro para instalar aparelhos de ar refrigerado na igreja, ele respondia: "Quem gosta de calor é o demônio no inferno".

A figura mais emblemática e curiosa do livro, no entanto, é Roniquito de Chevalier, que encarnava uma espécie de doutor Jekyll e mister Hyde da vida real. Economista brilhante, a quem até Mario Henrique Simonsen, segundo Ruy, chegava a pedir conselhos com freqüência, Roniquito se transformava depois do quarto uísque. A partir de então, era de uma franqueza desconcertante e aprontava as maiores confusões. Certa vez, já embriagado, no restaurante do Museu de Arte Moderna, avançou em direção ao presidente Costa e Silva e pediu fogo para acender seu cigarro. Foi preso pelos seguranças e, com ele, um americano que ele ciceroneava no Rio a pedido do então ministro Nascimento Silva. Na delegacia, o americano exigia – em inglês, naturalmente – a presença do embaixador de seu país. "Que que o gringo tá falando?" perguntou o delegado a Roniquito. "Ele está dizendo que a polícia no Brasil é uma m...", "traduziu" o economista. É de episódios como esses que se alimenta a história de Ipanema.