|
|
|
|
O tímido
se revela
Um perfil de Chico Buarque
com passagens desconhecidas de sua vida e de sua carreira
Okky de Souza
 |
Há
artistas que adoram exaltar a si próprios, como
Caetano Veloso, e outros que preferem delegar à
sua obra a tarefa de garantir-lhes a posteridade. Chico
Buarque pertence a esse segundo grupo. Raramente dá
entrevistas e, quando o faz, fala pouco. Mesmo entre amigos,
prefere comentar o último jogo do Fluminense a
falar de seu disco mais recente. Fica amuado, ou parte
para o contra-ataque, quando são divulgadas informações
sobre sua vida pessoal. Por tudo isso, causa admiração
folhear o livro dedicado a ele que a jornalista Regina
Zappa lança nesta semana: Chico
Buarque (Relume-Dumará;
200 páginas; 15 reais). Escrita com a colaboração
do compositor e de sua família, que deram seus
depoimentos em várias rodadas de entrevistas, a
obra fornece aspectos inéditos da vida e da trajetória
artística do autor de A
Banda.
Embora ela remeta à infância de Chico e chegue
até os dias de hoje, está longe de ser uma
biografia. É, antes, um perfil. Em diversas passagens
do texto, Regina se mostra excessivamente reverente com
seu personagem. Filtrando-se a tietagem explícita,
no entanto, ele traz boas novidades.
Roberto
Buzzini
 |
| Nos
anos 70: de
cada três músicas
que ele
fazia, duas
eram censuradas.
A solução
foi criar um
pseudônimo |
O livro começa por desfazer alguns mitos formados
em torno de Chico Buarque. O primeiro deles é o da
timidez. Ela mostra que, na intimidade, entre os músicos
de seu conjunto, por exemplo, o compositor é sempre
o primeiro a fazer piadas e descontrair o ambiente. A propalada
introversão de Chico é apenas um truque para
afastar os chatos e as situações indesejáveis.
A toda hora, por exemplo, os políticos das cidades
por onde ele passa com seu show cismam de lhe prestar homenagens.
Como seria deselegante recusá-las, adotou uma estratégia:
marca as solenidades para logo depois das peladas de futebol
que costuma jogar durante as turnês. Como elas se
realizam em locais reservados, não há chance
de a platéia ser numerosa. Certa vez, numa cidade
do Paraná, recebeu o título de cidadão
honorário de calção e chuteiras. Um
vereador local discursou longamente apenas para Chico, seu
empresário e seu assessor.
 |
|
Com
Nara Leão, por ocasião
do estouro
de
A Banda: na época, ele
fazia shows numa boate
de segunda categoria
e morava numa
espelunca. O sucesso
mudou tudo.
|
Por meio das conversas que manteve com Regina Zappa, Chico
Buarque também faz uma reavaliação
de seu papel na época da ditadura militar. Ele
revela que, a certa altura, começou a se sentir
incomodado com sua imagem de símbolo da esquerda
no meio artístico. As pessoas confundiam o cidadão
com o compositor. Tanto a censura quanto a esquerda passaram
a enxergar duplo sentido em todas as músicas que
compunha, mesmo as canções de amor. Achavam
que, obrigatoriamente, elas deveriam trazer mensagens
políticas. Segundo Chico, a única música
de protesto que ele compôs até hoje foi Apesar
de Você.
As demais canções ditas "engajadas" procuravam
retratar o Brasil e o povo brasileiro. "A pressão
contra meu posicionamento político nunca me inibiu,
o que me inibia era a pressão a favor, a cobrança",
ele diz.
|
|
|
Com
a ex-mulher, a atriz
Marieta Severo, e
a filha Silvia, que nasceu
na Itália: exilado,
Chico tinha
de
pedir dinheiro emprestado
para
sobreviver
|
Chico Buarque e a atriz Marieta Severo, casados por trinta
anos, separaram-se recentemente. Pela primeira vez, Marieta
aborda o assunto de maneira direta. Ao fazê-lo, acaba
por produzir um dos melhores capítulos do livro,
traçando um retrato do ex-marido na intimidade, suas
manias, suas normas de comportamento e rotinas de trabalho.
O mundo emocional do compositor, segundo ela, espelha a
"cegueira típica do universo masculino". Durante
anos a atriz lhe recomendou que fizesse análise,
o que ele recusava. Marieta aborda ainda um tema que sempre
foi tratado como tabu: seus excessos com a bebida. Sim,
ele chegou a pegar pesado no copo. "Hoje ele tem muito cuidado
porque sabe que quando começa a beber..." relata
Marieta. "Acho até que eu era alcoólatra",
ele admite.
Renan Cepeda

|
|
Com
a bola, uma de suas paixões: o
futebol foi a saída encontrada para
amenizar a vida nas turnês. Em
todo lugar em que faz show tem
pelada depois do espetáculo
|
A passagem
em que Chico conta como parou de beber é uma das
mais exóticas de sua vida. Ele conta ter-se submetido
ao tratamento de um bruxo carioca, Lourival de Freitas,
mestre na preparação de beberagens à
base de ervas que teriam o poder de curar os mais variados
males. Chico foi apresentado ao bruxo por Tom Jobim, que
também utilizara seus serviços. Além
de fazer poções, Lourival realizava pequenas
cirurgias, recebia entidades e promovia rituais em que
desatava a gritar palavrões. Nada cobrava em troca.
Um outro momento relatado por Chico é francamente
dramático. Durante vários anos ele recebeu
visitas freqüentes da estilista Zuzu Angel, que na
época lutava para esclarecer a morte de seu filho,
Stuart Angel Jones, nos porões da ditadura. Zuzu
desconfiava que acabaria sendo assassinada por sua insistência
em elucidar o caso, o que efetivamente aconteceu. Ela
costumava deixar bilhetes relatando sua cruzada e não
se cansava de pedir a Chico que os guardasse como prova
de cada um de seus passos. Embora relembre extensamente
a ditadura, o livro é recheado de momentos bem-humorados.
A irmã do compositor, Miúcha, por exemplo,
conta o que fazia seu pai, o célebre historiador
Sérgio Buarque de Holanda, quando as discussões
em família esquentavam. Ele se refugiava num canto
do escritório e saboreava histórias em quadrinhos
da Luluzinha.
Roberto Valverde
 |
|
No
Sambódromo, no Carnaval
do
ano passado, quando a Mangueira
ganhou com o samba
em sua homenagem: ninguém
comenta, mas antes
ele era portelense
|
|
|