Edição 1 625 - 24/11/1999

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É choro na certa

A ansiedade dos pais, muitos convidados
e atores fantasiados podem acabar
com a diversão da criança na hora da festa

Tatiana Chiari

Montagem sobre fotos de Irmo Celso/Agnaldo Ramos/Claudio Rossi/Eugenio Savio/ Claudio Larangeira/ André Fortes
Crianças de até 3 anos ainda não se divertem com teatrinhos realistas


A decoração de balões é um primor, a mesa de doces tem um colorido alegre e os convidados, a princípio escassos, começam a chegar aos magotes. Com zilhões de presentes, claro. Tudo parece ir bem até o momento em que o aniversariante, logo ele, se põe a chorar. É uma decepção para os pais, coitados. Na maioria das vezes, o berreiro acontece quando o dono da festa se vê diante de um ator fantasiado de Lobo Mau ou de Homem-Morcego, contratado para animar o pedaço. Assustado com a aparição repentina, ele esperneia com vontade, puxando o coro dos descontentes – em geral, aquele pessoalzinho com menos de 1 metro de altura. Ok, não foi uma boa idéia contratar marmanjos fantasiados para fazer uma pecinha por demais realista. Mas a choradeira do homenageado pode ter outra causa, que é subterrânea ao medo: a tensão. Isso mesmo. No afã de realizar um evento inesquecível (e cada vez mais os aniversários estão com jeito de superprodução), os pais acabam contaminando a criança com seu nervosismo. E ela explode justamente no instante em que algo de diferente se apresenta à sua frente. "Por menor que seja, a criança se abala com o tumulto e com a carga de ansiedade dos pais na preparação da festa", explica a psicóloga Lúcia Helena Zapotto Pulino, da Universidade de Brasília. "E, quando chega a hora, ela está cansada demais para se divertir."
 
O tema da festa As festas do primeiro e do segundo aniversário são mais para os pais e seus amigos do que para a criança. Esta só compreenderá o sentido da comemoração a partir do terceiro ano de idade. "Mesmo sabendo que meus filhos não entenderiam o significado da festa, fiz questão de caprichar em seus aniversários", diz a advogada Maria Luíza Reale Duarte, mãe de Eduardo, de 2 anos, e Lucas, de 1. Tudo bem, Maria Luíza, essas gracinhas são mesmo um grande motivo de alegria. Já que não dá para controlar os ímpetos festeiros, o melhor é preservar o pequeno aniversariante de toda a azáfama, para que ele possa mostrar-se tranqüilo e posar para as fotos contente da vida. Uma das providências a tomar para evitar o stress é não exagerar no número de convidados e de enfeites. Também não é recomendável que festas de crianças de 1 e 2 anos contem com animadores fantasiados. Não vale Lobo Mau, Bruxa Má – nem Mickey, Pateta, Pato Donald ou os Teletubbies. Por mais que sejam amistosos e as crianças os apreciem na televisão, bonecões ao vivo são sempre ameaçadores nessa fase. "Nessa idade, a criança tem necessidade de estar num ambiente com o qual tenha familiaridade", diz a psicopedagoga e terapeuta familiar Beatriz da Paixão Martins, do Rio de Janeiro.
 
RecreacionistaA partir do quarto aniversário, tudo fica mais fácil. A criança até gosta de ser envolvida nos preparativos. Ela pode ajudar a fazer os convites e a enrolar os brigadeiros. E você nem precisará se preocupar com o tema da festa: seis meses antes do grande dia, o próprio aniversariante já terá informado o mundo inteiro a respeito. Atualmente, os meninos andam optando por Tarzan, em virtude do recente sucesso no cinema, e pelos personagens do desenho japonês Pokémon. As meninas, por sua vez, continuam escolhendo princesas como Branca de Neve, Cinderela e a Bela, do desenho A Bela e a Fera. As mais moderninhas preferem a Barbie. Ainda que o tema da festa tenha saído da cabeça da criança, existe a possibilidade de ela soltar o choro na hora do teatrinho. Para evitar isso é interessante que os atores vistam a fantasia na frente de todos. Trata-se de uma maneira mais ou menos garantida de fazer com que a garotada não confunda ficção e realidade. Uma saída inteligente para entreter convidados entre 4 e 6 anos é contratar os serviços de um recreacionista. Ele se encarregará de organizar a correria e dar vazão, de forma razoavelmente organizada, à irreprimível energia de moleques e molecas. Com a vantagem de não assustar ninguém. Um mágico também é uma possibilidade a ser estudada.
Por último: pense seriamente em fazer a festinha de seu filho na escola em que ele estuda. Não, você não será um pai pior por causa disso. Embora uma comemoração desse tipo seja necessariamente mais modesta, nem por isso ela será menos marcante para a criança. Rodeado dos amigos de cada dia, da professora que ele (ainda) ama e de eventuais convidados especiais, o aniversariante terá um dos dias mais felizes de sua vidinha. É o que importa, não?