A disputa
em torno da fusão das cervejarias Brahma e Antarctica esconde
um interesse que não tem sido revelado nem aos sussurros:
o da Coca-Cola pelo guaraná Antarctica. Para os brasileiros,
o casamento entre a Brahma e a Antarctica, anunciado no
primeiro dia de julho, foi uma surpresa já que as
duas pareciam ser, até pouco antes, inimigas inconciliáveis.
A reação da Kaiser contra a criação da AmBev, a Companhia
de Bebidas das Américas, foi barulhenta. A cervejaria, em
que a Coca-Cola tem pouco mais de 10% de participação, se
viu como a grande prejudicada pela fusão.
Agora
surge nos bastidores uma faceta inédita do meganegócio.
O interesse da Coca-Cola seria que, resolvidas todas as
questões legais e comerciais, sobrasse para ela a bebida
brasileira. O guaraná Antarctica é o segundo refrigerante
mais vendido no Brasil e, de acordo com uma pesquisa ainda
sigilosa feita pela companhia americana há cerca de três
anos, é o sabor de melhor aceitação no mundo depois da
própria bebida fabricada por ela.
Não é
de hoje que a dona do refrigerante mais vendido no planeta
tem interesse pelo guaraná. A história começou em 1996,
quando pela primeira vez a Antarctica foi procurada pelo
ex-presidente da Coca-Cola no Brasil Luiz Lobão. Eles
chegaram a propor entregar a Kaiser à Antarctica desde
que pudessem ficar com o guaraná. Foram trocadas cartas
de compromissos de confidencialidade e as tratativas se
desenrolaram até o início de 1998. Naquela época, segundo
pessoas próximas ao negócio, a Antarctica pediu 1,3 bilhão
de dólares por toda a companhia. Não queria vender apenas
o guaraná. A multinacional americana, reconhecidamente,
quer distância de bebidas alcoólicas. Entre seus grandes
acionistas estão religiosos conservadores que não querem
ver seus dividendos manchados por produtos que viciam.
De outro lado, a própria imagem de juventude e otimismo
da Coca-Cola não combina com cerveja.
Numa
carta à cervejaria Anheuser-Busch, datada de 8 de abril
de 1997, Timothy Haas, vice-presidente da Coca-Cola encarregado
das operações na América Latina, agradece pelas informações
que lhe foram enviadas sobre a Antarctica. Haas diz na
carta ao presidente da Anheuser-Busch, John Purnell, que
enxerga uma oportunidade de negócio no setor de cervejas
e refrigerantes no Brasil. Ele termina a carta com uma
frase em que claramente admite seu interesse pela Antarctica.
"Aguardamos com expectativa a oportunidade futura
de poder trabalhar juntos", escreveu o vice-presidente
da Coca-Cola. A transação gorou. Se tivesse sido concretizada
é lícito supor que a Anheuser-Busch, fabricante da marca
Budweiser, ficasse com a cerveja Antarctica, enquanto
a Coca-Cola encamparia o guaraná.
A Kaiser
nega que ainda exista interesse pelo refrigerante brasileiro.
"A Coca-Cola já produz o Kuat e está satisfeita com
o desempenho do refrigerante. Mas não podemos negar que
seu guaraná sempre foi admirado pela Coca-Cola",
diz Humberto Pandolpho Júnior, presidente da Kaiser. O
outro lado também não reconhece a viabilidade da transferência
do guaraná para a empresa americana. "Arrancar o
guaraná da AmBev é como amputar um braço. Isso não ocorrerá
de forma alguma", diz um executivo da companhia.
Claudio Rossi
 |
Marcel Telles, da Brahma
(à esq.), e Victorio de Marchi,
da Antarctica: união contestada |
Só no Brasil, desde 1996 foram realizadas 1.030 fusões ou aquisições de empresas.
Na maior parte dos casos, as vendas ou casamentos ocorrem
de comum acordo. Há outras histórias de empresas que são
adquiridas na bolsa de valores, contra a vontade de seus
controladores. Uma guerra de pressão como essa que está
sendo travada pelo guaraná Antarctica não é incomum. "O
que há é um jogo de cena para baixar o valor da empresa",
lamenta um ex-diretor da Antarctica.
As cartas
estão na mesa. De um lado está a Brahma, que já anunciou
que, caso o casamento com a Antarctica seja celebrado,
o guaraná brasileiro será distribuído no mundo pela Pepsi,
arqui-rival da Coca-Cola. No meio está o governo. Um dos
organismos encarregados de regulamentar a competição no
mercado, a Secretaria de Acompanhamento Econômico, Seae,
do Ministério da Fazenda, já deu o parecer. Para os técnicos
da Seae, a fusão entre a Antarctica e a Brahma é lesiva
ao mercado. O secretário, Claudio Considera, divulgou
seu parecer, em que admite a fusão mas exige em contrapartida
que a marca Skol, a mais vendida do país, seja colocada
à venda para um terceiro comprador. A Skol, que pertence
à Brahma, detém 27% do mercado de cerveja. Ao ser obrigada
a livrar-se dela, a Brahma estaria numa situação inédita.
Seria a primeira empresa do mundo que ao fazer uma fusão
não aumentaria de tamanho. Na terceira posição está a
Coca-Cola, oficialmente muda, mas associada à Kaiser,
que não retira seu batalhão de campo. Faz um tremendo
agito nos bastidores.
O relatório
final do Conselho Administrativo de Defesa Econômica,
Cade, organismo que dará a última palavra sobre a questão,
deve sair até o início do ano que vem. Todas as empresas
envolvidas sofrem com a indecisão. As ações da Brahma
já haviam perdido 7,7% de seu valor até a quinta-feira
passada. Um acordo entre todos os envolvidos não seria
grande surpresa para quem acompanha de perto o negócio.
Quem aposta na venda do guaraná espera que opiniões como
as emitidas por Considera acabem causando pânico de que
a fusão não saia e, de certa forma, forcem a AmBev a ceder.