Edição 1 625 - 24/11/1999

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Empresas

Um gole de mestre

Nos bastidores da briga das cervejas,
o que se discute é se vai sobrar
guaraná Antarctica para a Coca-Cola

Franco Iacomini e Paula Pacheco

Montagem de Anderson Marçal sobre foto de Pedro Rubens


A disputa em torno da fusão das cervejarias Brahma e Antarctica esconde um interesse que não tem sido revelado nem aos sussurros: o da Coca-Cola pelo guaraná Antarctica. Para os brasileiros, o casamento entre a Brahma e a Antarctica, anunciado no primeiro dia de julho, foi uma surpresa – já que as duas pareciam ser, até pouco antes, inimigas inconciliáveis. A reação da Kaiser contra a criação da AmBev, a Companhia de Bebidas das Américas, foi barulhenta. A cervejaria, em que a Coca-Cola tem pouco mais de 10% de participação, se viu como a grande prejudicada pela fusão.

Agora surge nos bastidores uma faceta inédita do meganegócio. O interesse da Coca-Cola seria que, resolvidas todas as questões legais e comerciais, sobrasse para ela a bebida brasileira. O guaraná Antarctica é o segundo refrigerante mais vendido no Brasil e, de acordo com uma pesquisa ainda sigilosa feita pela companhia americana há cerca de três anos, é o sabor de melhor aceitação no mundo depois da própria bebida fabricada por ela.

Não é de hoje que a dona do refrigerante mais vendido no planeta tem interesse pelo guaraná. A história começou em 1996, quando pela primeira vez a Antarctica foi procurada pelo ex-presidente da Coca-Cola no Brasil Luiz Lobão. Eles chegaram a propor entregar a Kaiser à Antarctica desde que pudessem ficar com o guaraná. Foram trocadas cartas de compromissos de confidencialidade e as tratativas se desenrolaram até o início de 1998. Naquela época, segundo pessoas próximas ao negócio, a Antarctica pediu 1,3 bilhão de dólares por toda a companhia. Não queria vender apenas o guaraná. A multinacional americana, reconhecidamente, quer distância de bebidas alcoólicas. Entre seus grandes acionistas estão religiosos conservadores que não querem ver seus dividendos manchados por produtos que viciam. De outro lado, a própria imagem de juventude e otimismo da Coca-Cola não combina com cerveja.

Numa carta à cervejaria Anheuser-Busch, datada de 8 de abril de 1997, Timothy Haas, vice-presidente da Coca-Cola encarregado das operações na América Latina, agradece pelas informações que lhe foram enviadas sobre a Antarctica. Haas diz na carta ao presidente da Anheuser-Busch, John Purnell, que enxerga uma oportunidade de negócio no setor de cervejas e refrigerantes no Brasil. Ele termina a carta com uma frase em que claramente admite seu interesse pela Antarctica. "Aguardamos com expectativa a oportunidade futura de poder trabalhar juntos", escreveu o vice-presidente da Coca-Cola. A transação gorou. Se tivesse sido concretizada é lícito supor que a Anheuser-Busch, fabricante da marca Budweiser, ficasse com a cerveja Antarctica, enquanto a Coca-Cola encamparia o guaraná.

A Kaiser nega que ainda exista interesse pelo refrigerante brasileiro. "A Coca-Cola já produz o Kuat e está satisfeita com o desempenho do refrigerante. Mas não podemos negar que seu guaraná sempre foi admirado pela Coca-Cola", diz Humberto Pandolpho Júnior, presidente da Kaiser. O outro lado também não reconhece a viabilidade da transferência do guaraná para a empresa americana. "Arrancar o guaraná da AmBev é como amputar um braço. Isso não ocorrerá de forma alguma", diz um executivo da companhia.

 

Claudio Rossi
Marcel Telles, da Brahma
(à esq.), e Victorio de Marchi,
da Antarctica: união contestada


Só no Brasil, desde 1996 foram realizadas 1
.030 fusões ou aquisições de empresas. Na maior parte dos casos, as vendas ou casamentos ocorrem de comum acordo. Há outras histórias de empresas que são adquiridas na bolsa de valores, contra a vontade de seus controladores. Uma guerra de pressão como essa que está sendo travada pelo guaraná Antarctica não é incomum. "O que há é um jogo de cena para baixar o valor da empresa", lamenta um ex-diretor da Antarctica.

As cartas estão na mesa. De um lado está a Brahma, que já anunciou que, caso o casamento com a Antarctica seja celebrado, o guaraná brasileiro será distribuído no mundo pela Pepsi, arqui-rival da Coca-Cola. No meio está o governo. Um dos organismos encarregados de regulamentar a competição no mercado, a Secretaria de Acompanhamento Econômico, Seae, do Ministério da Fazenda, já deu o parecer. Para os técnicos da Seae, a fusão entre a Antarctica e a Brahma é lesiva ao mercado. O secretário, Claudio Considera, divulgou seu parecer, em que admite a fusão mas exige em contrapartida que a marca Skol, a mais vendida do país, seja colocada à venda para um terceiro comprador. A Skol, que pertence à Brahma, detém 27% do mercado de cerveja. Ao ser obrigada a livrar-se dela, a Brahma estaria numa situação inédita. Seria a primeira empresa do mundo que ao fazer uma fusão não aumentaria de tamanho. Na terceira posição está a Coca-Cola, oficialmente muda, mas associada à Kaiser, que não retira seu batalhão de campo. Faz um tremendo agito nos bastidores.

O relatório final do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, Cade, organismo que dará a última palavra sobre a questão, deve sair até o início do ano que vem. Todas as empresas envolvidas sofrem com a indecisão. As ações da Brahma já haviam perdido 7,7% de seu valor até a quinta-feira passada. Um acordo entre todos os envolvidos não seria grande surpresa para quem acompanha de perto o negócio. Quem aposta na venda do guaraná espera que opiniões como as emitidas por Considera acabem causando pânico de que a fusão não saia e, de certa forma, forcem a AmBev a ceder.